Regência do verbo pedir

É só pedir

É muito comum os jornalistas (e, para ser justo, quem escreve, de uma maneira geral) errarem a regência do verbo pedir. Dois exemplos: «Apesar de a cantora pedir para não ser fotografada, pelo menos um dos convidados fez uma gravação com o telemóvel, que acabou por ser reproduzida nos jornais do país» («Shakira dá concertos privados em Moscovo», Público/P2, 5.09.2007, p. 12). «Os organizadores do concerto de Beyoncé marcado para o próximo mês de Novembro em Kuala Lumpur, a capital da Malásia, pediram à cantora para não vestir roupas ousadas durante o espectáculo, de forma a não “agredir” a maioria muçulmana do país» («Beyoncé obrigada a cobrir-se na Malásia», Público/P2, 5.09.2007, p. 12). Em ambos os casos, pergunto: foi pedida alguma coisa (pedir que) ou pedida autorização, licença, permissão (pedir para)? Não julgo que restem dúvidas de que é a primeira regência que ali era exigida. Pior ainda, não é raro ver o cruzamento das regências: pedir para que. Na mesma edição, encontramos exemplos correctos: «“Tinha uma barreira muito grande que era a minha pronúncia. Quando estamos ao telefone com pessoas que não nos conhecem, a pedir-lhes que invistam 50 mil dólares, a pronúncia é uma barreira.”» («Morte de um caixeiro-viajante que se tornou fotógrafo em Nova Orleães», Kathleen Gomes, Público/P2, 5.09.2007, pp. 8-9). «O Presidente José Ramos-Horta solicitara segunda-feira à ONU que ficasse no país até 2012 e pedira à Austrália, que tem a seu cargo uma Força Internacional de Estabilização que partilha com a Nova Zelândia, que se mantivesse ali até 2008» («ONU poderá ficar mais cinco anos em Timor-Leste», Jorge Heitor, Público, 5.09.2007, p. 16).

Topónimos

Começou a Ibéria

É notícia de hoje no Público: um grupo empresarial espanhol (Grupo Artagón, segundo outras publicações) comprou uma ilha fluvial privada na foz do rio Minho. O grupo, diz o jornal, escusa-se a identificar a ilha, mas adianta um facto: passará a chamar-se Isla de Artagón. As autarquias da zona, na sua boa-fé tipicamente indígena, ignoram tudo e «duvidam da viabilidade» do projecto turístico que o grupo pretende desenvolver na ilha. Ou seja, brevemente, uma parte do território nacional será conhecido por um topónimo espanhol. Espero ao menos que nos deixem dizer «ilha» de Artagón. Assim: «La semana pasada me fui a la ilha de Artagón abastecer de combustible mi auto, pues allá me sale mucho más barato.» Eu sabia: mais cedo ou mais tarde, eles cobrar-nos-iam o preço do exílio de Saramago.

Solarengo ≠ soalheiro

Outra triste vez

      «Foi ele quem deu a alcunha de Americano ao comparsa, numa ocasião em que, preparando um assalto, lhe deu uma camisa florida, igual às que os turistas dos EUA então utilizavam quando visitavam países solarengos» («Ladrões violentos num país calmo», José Bento Amaro, Público, 5.09.2007, p. 4). Sim, Portugal também é um país solarengo, mas as camisas floridas seriam então para espantar os fantasmas? «Solarengo, adj. Relativo ou pertencente a solar (casa ou herdade nobre).│Que é moradia solar ou tem o aspecto de solar.│Que vive em solar; que é dono de solar.│ S. m. Senhor de solar.│Aquele que, como serviçal ou lavrador, viva no solar ou herdade de outrem» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado).

Uso do itálico e do hífen

Larry Craig dispensa o hífen


      «Não havia outra saída para Larry Craig, um ultraconservador do Estado conservador de Idaho, após terem surgido notícias de que o senador se tinha declarado culpado de conduta lasciva por ter solicitado sexualmente um homem numa casa de banho pública de um aeroporto. Craig sairá a 10 de Setembro» («O senador anti-gay demitiu-se», Maria João Guimarães, Público/P2, 2.09.2007, p. 7). Vejamos. Nos vocábulos em cuja formação entra o prefixo anti-, usa-se o hífen antes de h, i, r, s. Logo, não se usa antes de g. Antigás ou antigásico, antiglobalização, antigovernamental, antiguerra… Mas, lembra-me o leitor benévolo, o vocábulo gay não é português. Pois não, viu bem. Assim, que híbrido é este, com o prefixo anti- em romano e o vocábulo gay em itálico? De resto, leio este título no The New York Times: «Four Men Plead Guilty in an Antigay Attack». A jornalista deveria ter escrito «antigay», pois «anti-gay» não é português nem inglês.

Ortografia: «bolçar»

Bolsar: como assim?



   Eu sei: parece uma obsessão minha, pois é a terceira vez que abordo a questão. É raro ver a palavra bolçar bem escrita. Desta vez foi José Diogo Quintela, na Crónica do Costume, a propósito, ao menos isso, de um bebé: «O vexame. A falta que um bolsado no ombro faz» («Mulheres: como assim?», «P2»/Público, 2.09.2007, p. 3). O texto tem, é verdade, erros bem mais graves, mas ficarão para outra ocasião.
   Mas até em grandes escritores, infelizmente, e livros revistos, se vê o erro: «Zarpou de Lisboa o vapor encardido que me leva, enquadrado por Dona Balbina, a governante, e por Carolina, minha irmã, e durante horas escondo a cabeça esgrouviada no regaço daquela, bolsando nele o que me resta da ligeira refeição que fizemos em terra» (Camilo Broca, Mário Cláudio, D. Quixote, Lisboa, 2.ª ed., 2007, p. 49. Revisão de Fernanda Abreu).

Ensino do Francês

Allons bon !

São dados do Público de ontem: «No ano lectivo de 1995/96, houve nas escolas portuguesas mais de 45 mil alunos do 2.º ciclo do ensino básico a escolher Francês como primeira língua estrangeira. Dez anos depois, foram apenas 1407, em todo o país. Os números, relativos ao ensino regular, são do Ministério da Educação» («Francês seduziu apenas 1400 dos 237 mil alunos do 2.º ciclo», Bárbara Simões, 3.09.2007, p. 3). Está na hora de o Governo português tomar alguma medida em relação a esta situação e — vale a pena referi-lo sempre que se fala do ensino de línguas, vivas ou mortas, em Portugal — valorizar o ensino/aprendizagem do Latim. Porque o mundo e a vida não são apenas economia.

Compostos com quase-

Quase, quase

      Numa reportagem sobre a Cova da Moura («Turistas vão à Cova da Moura», Público/P2, 4.09.2007, pp. 4-5), escreve Marina Chiavegatto: «Nesta quase-freguesia as portas ficam abertas e pode-se ver o interior das casas.» Em inglês é relativamente comum ligar por hífen este anteposto (já em latim advérbio que funcionava também como prefixo) à palavra que se segue: quasi-delict, quasi-duet, quasi-medieval, quasi-official, quasi-scientific, quasi-war… Em português, e registados pelo Dicionário Houaiss, temos os seguintes: quase-alijamento, quase-contrato, quase-delito, quase-domicílio, quase-equilíbrio, quase-estático, quase-flagrância, quase-posse e quase-usufruto. Eu próprio já li e usei outros compostos com quase (quase-morte, por exemplo) que não fazem parte desta lista. Sou de opinião que o termo criado (?) pela jornalista do Público se enquadra legitimamente na ideia que os referidos compostos pretendem transmitir.

Estrangeirismos

O Magreb à mesa

Os estrangeirismos, é sabido, inundam os jornais. Alguns são escusados e, pior ainda, muitos já estão aportuguesados e o jornalista parece ignorá-lo. «Família, família, família... É à mesa que os rostos se revelam, e o realizador franco-tunisino Abdellatif Kechiche serve(-nos), para esse efeito, pratadas de couscous. A barriga, diz-se, é o mais próximo do coração» («Uma pratada de couscous em Veneza», Vasco Câmara, Público/P2, 4.09.2007, p. 10). O vocábulo couscous aparece quatro vezes no caderno P2, mas a forma registada nos dicionários da língua portuguesa, e aquela que o jornalista deveria ter usado, é «cuscuz». Mais: o vocábulo entrou primeiro na língua portuguesa, no século XV, e só depois, no início do século XVI, na língua francesa. O equivalente espanhol não prescindiu do artigo definido árabe al: alcuzcuz. Pouco usado e com etimologia no francês, o espanhol também regista cuscús.

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