Pronúncia: Dario

Melões reais

O meu avô materno chamava-se Manuel Maria e não era filósofo. Quando um dia decidiu ter uma mercearia, um dos dois fornecedores de melancias e de melões chamava-se Dario. (O outro era o pai de Paco Bandeira, mas essa é outra história.) Tanto o meu avô, que não era filósofo, como o fornecedor, que se chamava Dario, pronunciavam o antropónimo com tónica no i. Ambos ignoravam, presumo, a existência do rei persa Dario I, o Grande, e as regras da ortoépia — único ponto em comum com a apresentadora Herança de Verão, Tânia Ribas de Oliveira, que pronunciou /Dário/.

Falsos cognatos

Por acaso…

      Quando falamos de falsos cognatos, esquecemo-nos quase sempre da palavra «casual». Claro, salta logo à vista que um eventually quase nunca é «eventualmente», como namely nem sempre é «designadamente» e aparently nunca é o nosso «aparentemente». Por casualidade, deixamos passar o «casual». Ele, seja lá quem for, aparece «strolling casually up to the plane like he was walking down the street to the local convenience store to get the paper». Pode comprar um jornal por acaso, mas ali vai descontraidamente. Casual no sentido de informal é puro anglicismo semântico — dispensável.

Viriato e viriatos

Revisionismo

Sabia, mas já não me lembrava: Viriato nem sequer se chamava Viriato! Depois do choque, já só memória, de ter sabido que os Espanhóis o acham uma personagem histórica deles, o que, bem pensado (e depois do choque), nem sequer pode ser contestado com muita razão, releio esta afirmação de Roby Amorim: «Barão (aliás varão) é o homem, a figura viril, ousada, responsável. Os lusitanos já tinham adaptado a palavra do latim. Os seus chefes denominavam-se viriatos (o homem que lutou contra as legiões de Décio Junio Bruto chamar-se-ia qualquer outra coisa, o seu cargo é que era o de viriato — e por isso usava uma argola na coxa, a viria, como símbolo da sua virilidade)» (Elucidário de Conhecimentos quase Inúteis, Edições Salamandra, Lisboa, 2.ª edição revista e ampliada, p. 82).

Paradoxo de Baker/baker

O coiso… Como é que ele se chama…

No rescaldo do julgamento dos agressores do eurodeputado Francisco Assis, o que mais me impressiona (logo depois da cobardia dos agressores, mas essa foi cominada pela juíza) é a profissão deles: um alfaiate, um sapateiro, um empregado de balcão e, por último, um vigilante. Bem sei que tudo se passou na província, mas parece reflectir — com excepção, talvez, do vigilante — a composição da população de há cem ou duzentos anos. Mas não é de aspectos demográficos e socioeconómicos que quero falar, mas sim do facto de dificilmente retermos o nome de certas pessoas. Reparem: três dos quatro agressores têm como último apelido Sousa; o quarto tem como apelido Rodrigues. Ninguém se recordará dos seus nomes (nem, no caso, há razão para tal). Mais facilmente nos recordaremos das suas profissões. Os Anglo-Saxões chamam a isto o paradoxo de Baker/baker. Só faltou um padeiro, para tudo ser perfeito.

Arrendar e alugar

Casos e direitos reais     



      «Quando aluguei a minha primeira casa, a renda equivalia a 70 por cento do meu salário de jovem professor universitário. Vinte e cinco anos depois, se a categoria profissional se tivesse mantido, a renda representaria 2 por cento do meu salário» (Daniel Bessa, apud Público, «Eu sabia!», Helena Matos, 2.8.2007, p. 36). Já há muito tempo, é verdade, se afirma que a distinção entre arrendamento e aluguer, consagrada no Art.º 1023.º do Código Civil, não serve as mudanças entretanto ocorridas na sociedade. Contudo, o certo é que a distinção se mantém. Aluga-se um automóvel, uma bicicleta, um smoking, uma betoneira, cadeiras, etc. Arrenda-se um quarto, um apartamento. Escreve Cristóvão de Aguiar n’A Destreza das Dúvidas: «Conta-se uma história verdadeira de um professor da Faculdade de Direito que, numa prova oral, teria mandado o aluno embora, porque este teria dito que vivia num quarto alugado. Ao ouvir isto, o professor respondeu-lhe “Com que então vive num quarto alugado; o melhor será agora arren­dar um automóvel e ir já para o seu quarto estudar melhor a matéria…”»

Espaço e tempo

Na esplanada

Duas criaturas conversam ao meu lado. Uma, muito despida e seguramente no estágio 3 da Escala de Nurnberger-Muller, dispara, ao ouvir a canção dos Rádio Macau Amanhã é sempre longe de mais: «Que estupidez! Confundir espaço e tempo!» Que estupidez, também eu digo, não confundir espaço e tempo! Como se dizia dantes sobre a Índia, não perdem uma oportunidade de perder uma oportunidade. Não dizemos «no espaço de uma hora, de uma semana, de um mês»? Mais: não medimos, pese o digital, o tempo através do espaço, do avanço de um ponteiro no espaço? E o espaço-tempo de Minkowsky não é uma estrutura quadridimensional que combina as três dimensões espaciais e a única dimensão temporal? O que é isso senão o continuum espaço-tempo? É este o perigo de frequentar esplanadas.

Locução: voz metálica

To whom it may concerne

Quando nos referimos à qualidade da voz, dizemos «metálica» e não «metalizada». Metalizado é o que sofreu um processo de metalização. Sim, já sei: se pesquisarmos no Google, aparecem-nos não sei quantas ocorrências. Tudo o que está certo e errado aparece. Ficamos siderados e não metalizados. Traduzindo do inglês, uma voz «brasslike» é, pois, uma voz metálica. É este o vocábulo. Sim, em inglês também se diz «metallic voice». Num estudo, «Voz metálica: estudo das características fisiológicas», da autoria de Eliana Midori Hanayama et alii, podemos ler: «O termo voz metálica veio sendo utilizado para caracterizar a voz estridente, irritante, penetrante, chorosa e fina, voz áspera, voz brilhante, limpa, aguda, picante.» A fazer lembrar uma fanfarra. Brass, os metais, como em solo brass, solo de metais, brass chorale, coral de metais… Sei lá, talvez a lembrar cowbells, hurdy-gurdies, merry-go-rounds e outras geringonças inglesas. I don’t know what to say.

Nome da letra «g»

Imagem: http://multipolo.com.br/

Provocações


Júlio Machado Vaz, no programa da Antena 1 O Amor É…, de ontem, referiu-se ao Ponto G como «ponto guê». Não é por nada, mas a libido cai para níveis inimaginalmente baixos quando ouvimos alguém proferir guê em vez de gê, e então já não vale a pena pedirem-nos que exemplifiquemos (e muito menos para exemplificarem) onde fica o célebre ponto. Nem uma ida à Feira Erótica de Lisboa levanta o ânimo ou o que quer que seja. O Dr. Ernst Gräfenberg ia concordar, tenho a certeza.

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