Tradução

Art subtilior

«Esa mayor implicación de la población con respecto a unas fuerzas armadas crecientemente nacionalizadas alcanzó su punto culminante con la práctica universalización del servicio militar obligatorio a partir de la guerra franco-prussiana.» Ah, é simples, pensou o tradutor: «Essa maior implicação da população com as forças armadas, crescentemente nacionalizadas, atingiu o seu ponto culminante com a prática da universalização do serviço militar obrigatório, após a guerra franco-prussiana.» De certeza? Então que veja esta citação, em que surge a mesma locução: «Seguramente no somos demasiado ajenos a que en la región se haya alcanzado la práctica universalización de la educación básica y una igualdad de sexo en el acceso a la misma. No obstante quedar aún mucho por hacer» («Cultura y mundialización en el contexto iberoamericano», M.ª del Rosario Fernández Santamaría, aqui). Ou esta: «Desde la aprobación de la Ley General de Sanidad en 1986, la práctica universalización de la cobertura sanitaria pública ha reducido las desigualdades en el acceso a los servicios sanitarios públicos» (Informe SESPAS, Joan Benach e Rosa María Urbanos, aqui). E, finalmente, e para não perdermos mais tempo, o título «Un fundamento didáctico para la práctica de la universalización de la educación médica» (aqui). Ainda acha que é o mesmo? Faz lembrar o virtual.

Uso da maiúscula

Papas: Leão X ou Cerelac?

«O tio de Lorenzo II [de Medici, a quem Nicolau Maquiavel dedicou O Príncipe], o papa Leão X, tinha-lhe arranjado o casamento com uma sobrinha do rei de França» («Quadro de Rafael leiloado por preço recorde», Daniel Santos, Público, 7.07.2007, p. 27). Mas o Público não grafa com maiúscula o vocábulo «papa»? Julgava que sim: «O antigo ritual da missa católica — o rito de S. Pio V ou rito tridentino — passa, a partir de hoje, a ser de utilização livre, de acordo com uma decisão do Papa Bento XVI» («Bento XVI liberaliza hoje missa em latim», António Marujo, Público, 7.07.2007, p. 23). «O Papa Bento XVI apela à responsabilidade dos media [sic] e à noção de serviço público por parte das empresas de comunicação social e dos jornalistas» («Bento XVI quer meios de comunicação social responsáveis», A. M., Público, 27.05.2006, p. 3). «Só que, por um lado, até o Papa Ratzinger percebe a futilidade desta empresa e várias vezes preveniu que a reprovava» («Uma cruzada?», Vasco Pulido Valente, Público, 27.05.2006, p. 48).
Por outro lado, não deixaria de escrever, como faz o Sol e muito bem, «Lourenço»: «Lourenço II de Medicis, Duque [sic] de Urbino e governador de Florença de 1513 a 1518, era sobrinho do Papa Leão X, que, desejoso de consolidar a posição da família no panorama internacional, promoveu o casamento dele com Madeleine de la Tour d’Auvergne, prima de Francisco I, rei de França.» E, melhor ainda, Médicis, como em Lourenço de Médicis, o Magnífico, o título da obra de Jack Lang, publicada pela Bertrand.

Léxico: triclínio

Na cama com os Romanos

Uma leitora, Luísa Pinto, quer saber o nome específico de cada um dos assentos em redor de uma mesa, entre os Romanos. Ora, se pretende o nome específico, deduzo que sabe que triclínio (a partir de acclinis, -e, «que pende sobre, que está apoiado em») era a designação do conjunto dos três assentos, dispostos em ferradura. À própria divisão se deu o nome de triclínio. Cada assento tinha, por sua vez, o nome de lectus triclinaris ou discubitorius*, klinai ou podia — que não passaram, tanto quanto sei, para o português. Contudo, por metonímia, também se designa triclínio cada um desses leitos de mesa. Cada leito e cada um dos três lugares no leito tinha uma ordem de importância: lectus summus, lectus medius e lectus imus.


* De leitos percebiam os Romanos: o lectus cubicularis era para dormir; o lectus genialis era o leito nupcial, para o qual o casal se dirigia após a festa de casamento; o lectus adversus, para depois da consumação do casamento; o lectus lucubratorius, uma cama para estudar (mas «Estudo na cama, estudo na lama», como costumava dizer o Prof. Doutor Ruy de Albuquerque); o lectus funebris, uma espécie de padiola.

Antigás ou antigásico?

Máscara alemã da II Guerra Mundial: http://www.claseshistoria.com/

Antigas e modernas


      «Sobre estas líneas, adiestramiento en el uso de máscaras antigás.» O tradutor, por lapso desculpável, escreveu: «Em cima, treino no uso de máscaras antigas.» Não foi, certamente, esta possível confusão que levou alguns estudiosos da nossa língua a preferirem o termo «antigásico» em vez de «antigás», como José Pedro Machado, que, no Grande Dicionário da Língua Portuguesa, escreve: «Antigás, antigásico, adj. Que defende ou previne os efeitos dos gases deletérios.║É preferível a segunda destas formas.»

Ortografia: Árctico

Salvem a ortografia

      «Diz-se que nadaram mais de 27 mil quilómetros e, apesar de alguns terem ficado retidos no frio congelante do Ártico, outros resistiram e chegarão agora a Inglaterra» («Salvem os patinhos de borracha», Marina Chiavegatto, Público/P2, 12.07.2007, p. 6). Não é muito comum ver correctamente escrito este topónimo. Escreva-se «Árctico».

Uso das aspas

Uma coisa em forma de assim

«Os chefes dos três ramos das Forças Armadas proibiram os militares no activo de participarem, hoje, numa vigília de protesto frente à residência do primeiro-ministro» («Sargentos em “vigília” proibida contra Governo», Paula Torres de Carvalho, Público, 12.07.2007, p. 7). As aspas estão a mais ou são necessárias? Era uma vigília ou não era?

Pronúncia: «fretado»

Boca hiante

Nas notícias das 14.00 de ontem, na Antena 1, o jornalista referiu que a TAAG (Transportes Aéreos de Angola) voltara a voar para Lisboa, contornando a proibição de voar no espaço aéreo europeu através de aviões fretados. E pronunciou este «fretados» com e aberto: /frétados/. Mas não. Em «frete» o e é (maioritariamente) aberto porque é sílaba tónica; em «fretado» não é sílaba tónica. O mesmo erro acontece, e com mais frequência, na pronúncia da palavra «drogado».

Pronúncia: «in loco» e «grosso modo»

Non probatus



      «Por isso, se puder, conheça em loco [lóco], em loco [lôco], a “Maison Tropicale” […]» (Palavras Soltas, Sic Notícias, Bárbara Guimarães, 11.07.2007). A expressão latina é in loco e esta última palavra pronuncia-se /lóco/. Igualmente maltratada é a locução grosso modo, que significa «de modo grosseiro», «aproximadamente», e se deve pronunciar como se fazia em latim: /grósso módo/. Na escrita, deve ser realçada em itálico ou entre aspas. Um erro muito difundido no Brasil é juntar, para tudo piorar, a preposição a: a grosso modo.



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