Portunhol e espanglês

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Misturas



      A propósito de José Saramago se ter exprimido em portunhol, lembrei-me da palavra inglesa spanglish, que vi recentemente traduzida por… portunhol! Não é de cair para o lado de tão ridículo? Spanglish só podia ser uma amálgama de espanhol com inglês, conceito que não podemos traduzir por portunhol. Será por espanglês, e até há um filme recente com este título (traduzido, claro).

Democracia musculada

Olho vivo

«Ainda não foi desta que a França deu um passo em frente para sair do regime napoleónico, aristocrático e timorato da liberdade de imprensa que caracterizam a sua democracia. Depois de Putin, Chávez, Sócrates e Santos Silva, Sarkozy junta-se aos adeptos das democracias musculosas» («Napoleão, Napoleãozinho», Eduardo Cintra Torres, Público/P2, 7.07.2007, p. 14). A locução já consagrada é «democracia musculada». O verbo caracterizar deve, naturalmente, concordar com o sujeito — regime. Outra vez: «Ainda não foi desta que a França deu um passo em frente para sair do regime napoleónico, aristocrático e timorato da liberdade de imprensa que caracteriza a sua democracia. Depois de Putin, Chávez, Sócrates e Santos Silva, Sarkozy junta-se aos adeptos das democracias musculadas.»

Dupla negativa

Abrupto, o pensamento

      «Ora não há qualquer prova de que tal existiu, nem o bom senso e o conhecimento da realidade no terreno o revela, até porque, meus amigos!, estamos em Portugal e em Portugal ninguém conspira sem que não se saiba ou se venha a saber, e as conspirações são umas coisas amadoras e adolescentes, mais espertas do que inteligentes, e nunca resultam» («Um problema para as eleições de Lisboa: segurança eleitoral», José Pacheco Pereira, Público, 7.07.2007, p. 45).
      A duplex negatio dos Romanos ainda faz andar a cabeça à roda aos Portugueses. Não, não, desnecessariamente complicado. Tentemos assim: «Ora, não há qualquer prova de que tal existiu, nem o bom senso e o conhecimento da realidade no terreno o revelam, até porque, meus amigos!, estamos em Portugal e em Portugal ninguém conspira que não se saiba ou se venha a saber, e as conspirações são umas coisas amadoras e adolescentes, mais espertas do que inteligentes, e nunca resultam.»

Revés/reveses

Vezes e revezes

«O Washington Post comentava que este é um dos maiores revezes para a Casa Branca, que tentava com muito esforço evitar a divisão entre republicanos no Congresso e no Senado sobre o Iraque — por causa da importância do senador Dominici» («Senador republicano quer mudança no Iraque», Público, 7.07.2007, p. 26). Para a ortografia portuguesa não é um dos maiores reveses, mas não prestigia o Público.

Sob e sobre, outra vez

Deixa-me rir

Eduardo Madeira — o humorista, não o ciclista — é, sem qualquer dúvida, muito talentoso, mas tem de ter atenção a certas coisas elementares na escrita, e não é exigir muito a quem vive desta: «A lógica desta junta parece-me, sobre um certo ponto de vista, acertada» (Destak Fim-de-Semana, «Lógica kafkiana», 6.07.2007, p. 7. Ver aqui). É sob que se diz e, melhor ainda, conforme ensinava o Prof. Vasco Botelho de Amaral, de: «A lógica desta junta parece-me, de um certo ponto de vista, acertada.» Já que somos tão solícitos em imitar os estrangeiros, que imitemos o melhor deles. Não é, infelizmente, a primeira vez que aqui falo desta questão tão comezinha.

Está bem?

Obrigado

Ao passar por uma rua aqui em Benfica, vejo uma engomadaria com um nome que é um achado: Passar Bem!, a saudação brasileira. Por associação de ideias, lembrei-me do meu pai, que cumprimentava sempre as pessoas com um «está bem?», e não o, agora comum, «está bom/boa?». Lembrei-me depois de ter lido algo sobre o assunto em Pedro da Fonseca — não o Aristóteles Lusitano, de Proença-a-Nova, mas o padre Pedro da Fonseca, de Vide-entre-Vinhas, autor de um estimável (mas a precisar de uma revisão tipográfica profunda, não se podendo fazer um expurgo anti-reaccionário) Venha Comigo Aprender Português, publicado em 2002. «“Bom ou mau”, referido a pessoas, denotam, por certo, qualidades morais, boas ou más. Trata-se, pois, de comportamento ou de sentimentos. Saudando alguém, não temos em vista as suas qualidades ou atitudes, como também os sentimentos pessoais. Indagamos, sim, da maneira como vive… se tudo corre bem ou então vai mal. Em razão disto, a forma correcta é a seguinte: Está bem? Está mal?» (p. 7 da obra citada).

Conjugação perifrástica

Ah, não

«O meu minuto vai para um somatório de tiques autocráticos do actual Governo e da actual maioria que começam, pelo seu volume, a serem preocupantes» (Guilherme Silva, deputado social-democrata ao Jornal das Nove, da SIC Notícias, 4.7.2007). «Começam a serem»? Na conjugação perifrástica, se o verbo auxiliar, que não seja um infinitivo, preceder um infinitivo, é incorrecto flexionar este último. Na TLEBS, que ainda não morreu, ou se está morta jaz insepulta, no subdomínio da semântica frásica, considera-se a forma começar a (tal como acabar de, andar a, continuar a, deixar de, estar a, ficar a, ir a e vir a) + infinitivo como marca da categoria aspecto gramatical. O aspecto, lembremo-lo, exprime o ponto de vista do locutor em relação ao desenrolar da acção, que, neste caso, é inceptivo ou incoativo, ou seja, exprime o começo de acção. O aspecto incoativo pode ser expresso não somente pela perifrástica como também pelo próprio conteúdo lexical do verbo (Elas adormeceram logo.) ou pelo sufixo (Amanhecia e era Setembro.).

Comuníssimo

Se não sabe, não diga

«Eu dou um exemplo, quer dizer, que é comunsíssimo» (Prof. Diogo Leite Campos, fiscalista, em entrevista ao Jornal das Nove, Sic Notícias, 4.7.2007). Valha-me Deus! O superlativo absoluto sintético de comum é comuníssimo. Porque provém do latino commune-. Como é que um professor universitário se exprime assim? Que alguém lhe diga: dlcampos@fd.uc.pt.

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