Tradução: «agent en faction»

Sr. agente

      Uma mulher foi raptada numa rua de Paris. A guardar a cena do crime, fica, durante toda a noite, um agent en faction. «Agente de vigia», verteu o tradutor. Não diríamos melhor de plantão, porque estar de plantão é estar de vigia? Ou só na esquadra é que um agente está de plantão?
      «A porta da antecâmara abre-se e o agente de plantão acode, espavorido» (Uma Aventura Inquietante, José Rodrigues Miguéis. Lisboa: Editorial Estampa, 1981, p. 78).
[Texto 1046]
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«Five-dollar words»

Caro Paulo Rangel, se nos lê

      «Costumo ler», escreve-me Francisco Agarez, «com atenção os artigos de Paulo Rangel no Público, às terças-feiras. Acho-os inteligentes, estimulantes e globalmente bem escritos, pese embora alguma propensão para o “falar caro”. É rara a semana em que não tropeço num sinal dessa propensão. Hoje, por exemplo, escreve o articulista no parágrafo 2. do seu artigo [«Em defesa de mais liberdade para os deputados», p. 28]: “Alguns, mais maquiavélicos, chegaram a insinuar que se curava de uma manobra de facção, industriada por nostálgicos de Sócrates, que querem atrapalhar a liderança de Seguro.” É da minha vista ou nada autoriza esta utilização de “se curava” em vez de “se tratava”?»
      Eu não usaria, é o que posso dizer. E também noto essa escusada propensão — que tem cura. Faz-me lembrar uma personagem de um livro de um autor norte-americano que estou a ler: He also used the big words, the five-dollar words...
[Texto 1045]
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Léxico: «ângelus»

Porque não?

      «O Papa Bento XVI libertou ontem duas pompas [sic] brancas perfeitas, símbolos da paz, após o Angelus — mas as pombas, talvez num mau presságio, recusavam-se a deixar a janela do Papa e partir para os céus de Roma levando a esperança da paz» («Vaticano. Pombas da Paz não queriam deixar o Papa», Público, 30.01.2012, p. 16).
      Também esta, reparem, está aportuguesada, ou semiaportuguesada: ângelus, como se lê no Dicionário Houaiss.
[Texto 1044]
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«Vala comum»

Na fossa

      Rosa Veloso, anteontem, de Madrid: «Familiares dos vencidos sabem apenas que estão por recuperar mais de 100 mil corpos sepultados em fossas comuns de toda a Espanha, isto com base numa lista fornecida pelas câmaras municipais e outras organizações públicas consultadas pelo juiz Garzón quando em 2008 decidiu investigar os crimes do regime fascista.» E, qual causídica, mas aqui está correcto: «Contudo, duas associações de extrema-direita decidiram processar o conhecido juiz, acusando-o de prevaricação por vulnerar a lei de amnistia de 1977, aprovada durante a transição para a democracia, isto é, pré-constitucional.» Uma escolha de palavras que não seria a minha: «organizações públicas» e «associações de extrema-direita».
      Vala comum: sepultura onde se enterram em conjunto muitos cadáveres. Também há fossas sépticas.

[Texto 1043]
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«Corpus» oral

Estamos quase lá

      Da entrada de hoje do Ciberdúvidas: «Já fazia falta um dicionário com entradas áudio, como o Macmillan online. Perguntas que nos chegam sobre a pronúncia em português europeu de palavras tão frequentes como rosa, prestação, rubrica, espetador, caracterizar, subsídios, icebergue, beisebol, coeficiente, enredo, retórica, etc., etc., ficavam respondidas num abrir e fechar de olhos, ou seja, num clique. Está lançado o repto ao ILTEC.»
      Já fazia falta um dicionário com entradas de áudio? Mas já tínhamos outros... Quanto ao repto ao ILTEC, bem, já tem um corpus oral, e a ferramenta, o Spock, o que no Ciberdúvidas sabem, pois a hiperligação remete para ali. Hão-de querer dizer que o ILTEC devia alargar o corpus oral. Podia. Devia. Entretanto, devia também corrigir algumas das transcrições e, quando o contexto é demasiado pequeno, alargá-lo, para tornar perceptível o vocábulo pesquisado. O conceito é muito melhor do que o da Forvo, pois são dadas pronúncias em contexto real, não condicionado.

[Texto 1042]
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«Fãs incondicionais»

Não me condiciones

      Rosa Veloso, ontem, de Madrid: «José Mourinho raramente sai de casa fora das deslocações do futebol. Ontem à noite, abriu uma das poucas excepções, melhor, a única em mais de ano e meio que vive em Madrid. Ele e a mulher, fãs incondicionáveis da actriz Eunice Muñoz, foram vê-la na peça onde contracenou com Maria José Paschoal, O Cerco a Leningrado, no Teatro Belas-Artes.»
      Não é assim, cara Rosa Veloso. Incondicional, isto é, que não está sujeito a qualquer condição ou restrição. E quem diz «fã», é claro, diz «sequaz», «adepto», «partidário»: «Modesto servo de Deus, partidário incondicional do coronel, modelo de fé cristã e de civismo grapiúna, padre Afonso pecava pela gula, comia por um regimento» (Tocaia Grande, Jorge Amado. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 46).

[Texto 1041]
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Não lhe agradecemos

Qual o objectivo?

      «Simão é o aluno mais novo da turma. “Gosto de estudar chinês, é cansativo, requer muita paciência, mas lá se vai...”, diz descontraído ao P2. Para acrescentar: “Tem de se praticar muito. O mais difícil é escrever os caracteres.” E o que é um “caractere” (carácter)? [...] Neste caso, explica, estamos a falar de “chinês língua”, mas se pensarmos em “chinês pessoa”, então “ainda temos de juntar a esse ‘caractere’ mais um outro, o de ‘pessoa’”» («Isto para mim não é chinês», Rita Pimenta, «P2»/Público, 30.01.2012, pp. 6-7).
      Todo o empenhamento da jornalista foi reproduzir a pronúncia errónea do vocábulo, e, como não estamos na rádio, de caminho ensina a escrever mal. E, claro, também ensina a despontuar as frases.

[Texto 1040]
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Os Feteiras

Ora muito bem

      «Mas não só da política se alimenta a verdadeira telenovela da vida dos Feteiras» («Lúcio Feteira. Um super-homem português esquecido», Nuno Ramos de Almeida, «Liv»/i, 28.01.2012, p. 8).

[Texto 1039]
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Como se escreve nas revistas

«Caso acompanhe a queixa»?

      O empresário António Ferreira, marido da fadista Mariza, apresentou queixa-crime contra um administrador da empresa Plurijogos, da qual é sócio. «Caso o Ministério Público angolano acompanhe a queixa, está prevista uma pena de prisão entre dois a oito anos ou, em alternativa, “degredo temporário”» («Marido de Mariza apresenta queixa por falsificação», Sábado, n.º 402, p. 18).
[Texto 999]
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Como falam os políticos

Nem advérbios, nem preposições...

      Guimarães, Capital Europeia da Cultura em 2012. Ontem, antes do stravinskiano O Pássaro de Fogo, Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, afirmou: «A cultura, o conhecimento e a inovação não são meros adjectivos, pelo contrário, são elementos substanciais de qualquer processo de crescimento ou de relançamento económico.»
[Texto 998]
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Quase Destouches

Mas bem pensado

      «Ne chassez pas la nature, elle revient au galop.» Assim acaba Vasco Pulido Valente a sua crónica de hoje, toda dedicada a Cavaco Silva, que quer ser um de nós e não é. A frase, porém, está um tudo-nada deturpada. «Chassez le naturel, il revient au galop», escreveu Destouches na peça Le Glorieux, em 1732, inspirado, diz-se, numa frase de Horácio nas epístolas: «Naturam expellas furca, tamen usque recurret.» O que conta é a intenção...
[Texto 997]
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Reforma ortográfica de pantufas

Dona Aspulqueta 
e as infidelidades de Oscar

      Oscar Mascarenhas, provedor do Diário de Notícias, parece que não está nem a favor nem contra o Acordo Ortográfico. Parece, porque no meio de tantas palavras fica-se aturdido. «Ou segundo o Acordo ou segundo o desacordo. O DN que escolha. Com a brevidade que o serviço ao leitor exige.»
      «Tenho assistido – sem grande vibração, diga-se – à troca de opiniões, mais ou menos acaloradas, mais ou menos profundas sobre a questão do Acordo Ortográfico. Descaracterização da língua, submissão ao brasilês, com tudo se argumenta, até com o “matriotismo” obstinado do “foi assim que me ensinou a minha santa professora da escola primária”. [...] Pois é, não me venham com fidelidades às nossas professoras porque há muito que as traímos – eu sempre a contragosto – quando aceitámos uma outra reforma ortográfica, que veio de pantufas não sei quando e nos mandou deixar para trás o critério fonético da ortografia, partindo do princípio que “toda gente” sabe pronunciar as palavras, pelo que não é preciso estar com muitos rigores. Essa sim, foi a reforma que desfigurou a nossa ortografia – mas onde estavam os que deviam protestar e me deixaram (ainda hoje) vox clamantis in deserto?» («(Des)Acordo Ortográfico separa os “maquisards” dos vende-pátrias”?», Diário de Notícias, 21.01.2012).
      Afinal, por quantas reformas ortográficas passou Oscar Mascarenhas, que nasceu em 1949?

[Texto 996]
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A convidada anfitriã

Vá para bordo

      «Porque da fúria ao humor a distância é curta, já estão à venda em Itália T-shirts com a frase “Capitão, volte para bordo”, usando a frase do oficial da guarda-costeira [sic] que falou com Schettino depois do naufrágio» («Tripulação do navio tentou negar naufrágio», J. A. V., i, 21.01.2012, p. 11).
      Não, não, J. A. V., a frase não é essa. «Já circulam por Itália t-shirts onde se lê a frase “Vada a bordo, cazzo!”, o que, em versão suavizada quer dizer qualquer coisa como “Regresse a bordo, porra!” Ou seja, a cobardia do comandante Francesco Schettino já entrou no anedotário nacional» («Concordia. O comandante cobarde», Susana Almeida Ribeiro, «P2»/Público, 21.01.2012, p. 4). «Vá para bordo, caralho!» Veja aqui. O texto tem outros erros. «Ontem, [Domenica] Cemortan, anfitriã do cruzeiro, veio garantir em entrevista a um jornal moldavo que não é amante do capitão como foi sugerido.» Convidada do capitão — é anfitriã. E não é amante como foi sugerido — mas de outra forma, talvez. Enfim, assim se escreve nos nossos jornais. Cazzo.
[Texto 995]
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«Megagrupamentos»!

Primeiro estranha-se,
depois detesta-se

      «Ensino profissional e alunos de risco excluídos de megagrupamentos», era o título que se podia ler na página 7 da edição de ontem do i. Verdade seja dita que no artigo, assinado por Kátia Catulo, não aparecia. Deve ter sido o «criativo» da redacção.
[Texto 994]
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«Se dúvidas houvessem»!

Em breve numa livraria

      «E se dúvidas houvessem sobre a veracidade da história, o agente da PSP desfez todas e mais algumas» («A teoria do número Primo ou o estranho caso do primo invisível», Sílvia Caneco, i, 21.01.2012, p. 31).
      Quando se escrever a história da língua, dir-se-á que, no início do século XXI, a forma canónica era residual. À cabeça da contestação, estavam os jornalistas. Absolutamente lamentável.
[Texto 993]
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«Espiar uma pena»!

Caem em todas

      «O rapaz, agora com 31 anos, espia uma pena de homicídio qualificado no Estabelecimento Prisional do Funchal. O Supremo Tribunal de Justiça acaba de lha baixar de 19 para 17 anos, crendo-o “arrependido”, a viver “em sofrimento”» («O psicólogo que matou a amada», Ana Cristina Pereira, «P2»/Público, 21.01.2012, p. 8).
      Nas Reflexões sobre a Língua Portuguesa, de Francisco José Freire, lê-se: «Expiar e espiar têm notável diferença, e não se deve confundir a pronunciação do ex com a do es; porque expiar é reparar o desatino de um crime com acções satisfatórias. [...] Pelo contrário espiar é observar clara ou ocultamente o que se passa.» Uns anos antes, Madureira Feijó escrevera pouco mais ou menos o mesmo. Ou seja, é confusão que já vem muito de trás.
      Do Livro de Estilo do Público (que os jornalistas do Público, essa é que é essa, não lêem): «espiar / expiar — Dois verbos a não confundir: à família do primeiro pertencem espião, espia e espionagem; à do segundo, (bode) expiatório.»
[Texto 992]
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Mais colocações

Mas quem fala assim?

      «Outro colega, Mario Palombo, ex-comandante do grupo Costa, admitiu por seu lado que sempre teve “algumas reservas” em relação a Schettino. “Ele sempre foi muito exuberante. Um indivíduo audacioso. Mais do que uma vez tive de o colocar no lugar dele”, explicou Palombo, recordando-se da época em que era seu superior, indica o jornal britânico Telegraph» («Concordia. O comandante cobarde», Susana Almeida Ribeiro, «P2»/Público, 21.01.2012, p. 5).
[Texto 991]
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«Tragédia humana»

Assim está melhor

      «Horas antes, a notícia era outra: o navio movia-se à razão de 7 a 15 milímetros por hora, o que levou à suspensão das buscas durante a noite. Aumentava o receio de que à tragédia humana que foi o naufrágio se some uma catástrofe ambiental» («Movimentos do Costa Concordia travaram operações de busca durante quase todo o dia», João Manuel Rocha, Público, 21.01.2012, p. 21).
[Texto 990]
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Sobre «bonzo»

Bueno, probablemente

      «Tres licenciados marroquíes en paro tratan de quemarse a lo bonzo en Rabat», lia-se na edição de ontem do El País. Bonzo é, como sabem, o sacerdote budista. E como é isso de se queimarem a lo bonzo? «Rociándose de líquido inflamable, y prendiéndose fuego en público, en acción de protesta o solidaridad.» Neste caso, o DRAE diz que provém do japonês. Não faltam, contudo, autores espanhóis (nem portugueses) que dão como provável ou certa a etimologia portuguesa. Parece que foi S. Francisco Xavier que introduziu a palavra na Europa, e foi em Portugal, muito provavelmente, que ela ganhou a nasalização medial. Alguns dicionários também registam a variante bônzio. Dalgado, que dedica uma extensa entrada ao vocábulo no seu Glossário, regista também, como derivado, «bonzaria», a colectividade de bonzos, e, ainda mais curioso, «bonzeiro», o amigo dos bonzos.
[Texto 989]
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Como se escreve nos jornais

Para o anedotário

      «Depois do almoço, há-de caminhar, com uma esfregona na mão, um balde na outra, até ao pavilhão da prisão. Faz parte da brigada hergoterapêutica, o grupo que limpa aquele espaço comum em regime de voluntariado, no pressuposto de que mata tempo, faz algo pela comunidade, ganha sentido de responsabilidade» («No Clube K», Ana Cristina Pereira, «P2»/Público, 20.01.2012, p. 4).
      Deve ter sido o recluso que aspirou — e a senhora jornalista, cheia de medo, apontou: hergoterapêutica. Na redacção, nem se lembrou de ir consultar um dicionário. Para quê, não é?

[Texto 988]
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Tradução: «cap»

Chapéu

      «Wash your strawberries, and remove their caps», lia-se no original. E o tradutor verteu assim: «Lave os seus morangos e retire os píncaros e folhas.» Reparem bem: «píncaros e folhas» onde estava somente caps. «Pedúnculo de certos frutos»: regionalismo beirão, regista o Dicionário Houaiss. («Como a cereja e a ginja», acrescenta o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.) Dá jeito, mesmo que as folhas fiquem de fora.
[Texto 986]
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Sobre «buzo»

Del portugués, segurísimo que sí

      «Las labores de búsqueda de los desaparecidos del crucero Costa Concordia», lia-se na edição de ontem do El País, «se han vuelto a interrumpir esta mañana por movimientos en el buque. Los buzos ya interrumpieron ayer sus trabajos porque la embarcación oscilaba y era peligroso acceder a los camarotes y salones sumergidos.»
      Segundo alguns autores espanhóis, pode ter vindo de uma variante portuguesa; segundo outros, provém seguramente da língua portuguesa. O DRAE, por exemplo, regista: «Del port. búzio, caracol, y este del lat. bucĭna, cuerno de boyero.» Algumas gramáticas escolares do país vizinho também o incluem, a par, por exemplo, de mejillón, entre os galeguismos e os lusismos. De Bluteau e Morais a todos os dicionários actuais, búzio ainda é «o que mergulha bem, ou o pescador de pérolas, coral e outras coisas que estão no mar». Alguns dicionários continuam a registar a variante buzo para designar o molusco gastrópode.
[Texto 985]
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«Palavras plenas/palavras instrumentos»

À volta, à volta

      A pergunta era muito singela: «O que são e como identificar num texto palavras plenas e palavras-instrumento?» A pergunta foi feita ao Ciberdúvidas por Eugénia Oliveira. O consultor Miguel Moiteiro Marques, já nosso conhecido, começa por responder desta forma: «Não tendo encontrado outra referência a palavra plena senão no Dicionário Aulete, suponho que a consulente se referirá à oposição entre palavras lexicais e palavras (ou morfemas) funcionais ou gramaticais (conforme terminologia adotada pelo Dicionário Terminológico.») Depois, porém, tudo se embrulha, e em especial com a referência a Evanildo Bechara.
      A terminologia varia, mas, quanto a essa precisa oposição, o consultor podia ter recorrido a dezenas de obras. Este excerto, de uma obra que nem sequer é sobre linguística ou gramática, parece-me bem esclarecedor: «O programa [informático ALCESTE, de análise quantitativa de dados textuais utilizado em representações sociais] faz uma distinção entre as palavras instrumento (artigos, preposições e conjunções, essenciais para a organização do texto), e as palavras analisáveis (substantivos, verbos, adjetivos, aqueles termos que definem os conteúdos representacionais)» («Representações sociais sobre rejuvenescimento: um enfoque psicossocial», Maria Cristina Triguero Veloz Teixeira, in Maturidade e Velhice, Pesquisas e Intervenções Psicológicas, vol. I. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2006, p. 122).
      De forma isolada, aquelas designações podem remeter para outros conceitos. Palavra plena, por exemplo, que já usei diversas vezes no blogue, como neste exemplo: «Por analogia com pág., forma abreviada de “página” e com págs., plural, obtemos Fig. e Figs., singular e plural, respectivamente. Em ambos os casos, a abreviatura é constituída pelas três primeiras letras da palavra plena, seguidas de ponto de abreviatura» (Dúvidas do Falar Português, vol. 4, Edite Estrela. Lisboa: Editorial Notícias, 1991, p. 144).
[Texto 984]
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Sobre «bufete»

Por pouco

      «El bufete del abogado Mario Pascual Vives», lia-se na edição de ontem do El País, «que defiende a Urdangarin, ha declinado confirmar si hoy está previsto algún encuentro entre el letrado y el duque.»
      Nesta acepção, é galicismo que não chegou a este extremo da Península Ibérica. Uf, foi por pouco. Chegámos, todavia, muito perto, pois uma das acepções de «bufete», em português, é secretária antiga; papeleira. Ao que parece — e ao contrário da maioria dos galicismos, que, ou foram adoptados nos séculos XIII e XIV ou no século XVIII e depois –, começou a ser usado em castelhano no século XVI. De mesa de escribir con cajones passou, já se percebe por que processo, a designar o estudio o despacho de un abogado e mesmo a própria clientela del abogado.
[Texto 983]
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Léxico: «acosso»

Copiaram, mas está bem

      «“Nos últimos dias”, explicou o advogado, “a minha cliente foi perseguida sem descanso, dia e noite.” Haverá ainda uma queixa por “acosso”. “Desde há algum tempo, Charlotte Casiraghi está a ser acossada, mas, desta vez, com risco de perigo”, referiu [Alain] Toucas. “A princesa vive um inferno diário.”» («Charlotte. Medo de morrer como Diana», «P2»/Público, 19.01.2012, p. 15).
      É substantivo que não está registado nos dicionários mais consultados em Portugal. Já que perguntam — sim, o Vocabulário da Língua Portuguesa, de F. Rebelo Gonçalves, regista-o na página 23. Acosso, acossamento. No caso, a fonte terá sido a imprensa espanhola, que usa o termo «acoso». No Diário Digital, lê-se, como em toda a imprensa do país vizinho, «Carlota Casiraghi».
[Texto 982]
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«Adega» e «trisneto»

Não haja dúvidas

      E por falar em Bic Laranja. Num comentário, assinado por Maria (mas, no cabeçalho, [s. n.]) a um texto sobre a pronúncia «adêga», lê-se: «Ainda bem que trás este tema a debate.» Prosseguiu, escrevendo: «Há uns dez anos, escrevi para um jornal sobre justamente estas aberrações fonéticas indesculpáveis.» O comentário tem data de anteontem, mas podia ter sido escrito antes de 1973: «sintàcticamente», «tònicamente», «òbviamente». Para remate, isto: «No mesmo canal [TVI24], creio que no mesmo dia, uma voz feminina pronunciou também em off: “... TRISNETOS”!!! Lindo, não haja dúvidas.»
      Pois é. «Adêga» não é pronúncia antiga nem aberrante. Vão por essas Beiras e ouçam as pessoas. Falem com a minha sogra ou com a minha mulher. (Não, agora não, é tarde.) Abram aí o Vocabulário da Língua Portuguesa, de F. Rebelo Gonçalves, na página 1030: estão a ver «trisneto» na coluna do meio? Será difícil perceber que, por analogia com «bisneto», se formou «trisneto»? Que tem como variante «tresneto» (registada na página 1025). Três, tris.
[Texto 981]
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«Ugh/blharc/uh»

Repulsa

      «— Blharc! — exclamou a Joana. — Está nojenta! Devia mesmo ser de um mendigo. Aposto que até ele a achou velha demais e a deitou fora. Tenho a certeza de que não é uma pista» (Uma Aventura dos Sete, Enid Blyton. Tradução de Susana Ferreira e Bárbara Soares. Revisão de Silvina de Sousa. Lisboa: Oficina do Livro, 2011, p. 45).
      Ouve-se por aí, sem dúvida. Contudo, talvez a interjeição que exprime repugnância mais usada seja... uh! Carla Viana, no Ciberdúvidas, porém, foi de «ugh» que se lembrou numa enumeração de interjeições que exprimem repulsa ou desaprovação. No Assim Mesmo, comentou Bic Laranja: «Ouço pff! ou (p)fu! para repulsa. E hâ!»
[Texto 980]
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Das «meias-calças» aos «colãs»

Irreconhecível

      «Os outros passaram os olhos pela fileira de coisas penduradas na corda: havia lenços rasgados, vestidos de criança, colãs, meias...» (Uma Aventura dos Sete, Enid Blyton. Tradução de Susana Ferreira e Bárbara Soares. Revisão de Silvina de Sousa. Lisboa: Oficina do Livro, 2011, p. 70).
      Ainda se vêem poucos colãs por aí... No original, está stockings. Provavelmente, nas primeiras traduções ler-se-ia «meias-calças». Isto fez-me lembrar as medias calzas castelhanas, que vieram a chamar-se apenas «meias», por contraposição com as calzas atacadas ou enteras, uma mariquice com correias ou atacadores que prendiam as calças, justas, ao gibão, ao passo que as medias calzas subiam somente até ao joelho.
[Texto 979]
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«Assumiram as suas posições»

É de admitir

      «As duas equipas separaram-se e assumiram as suas posições» (Uma Aventura dos Sete, Enid Blyton. Tradução de Susana Ferreira e Bárbara Soares. Revisão de Silvina de Sousa. Lisboa: Oficina do Livro, 2011, p. 17).
       Esperava encontrar outra coisa, mas o que está no original é isto: «The two parties separated, and went to each end of Little Thicket.» Assumir é «tomar, atribuir-se, arrogar», lê-se no dicionário de Morais. Nas acepções de supor, pressupor, presumir, assumir é candidato a anglicismo, como escreve, e já aqui o referi, Agenor Soares dos Santos. E, no caso que ora nos ocupa, é português estreme?
[Texto 978]
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«Havia» com verbo no pretérito

Preto no branco (e sublinhado)

      «O verbo haver é fonte permanente de erros», escreve Públio Athayde no Manual para Redação Acadêmica. Recomenda depois cuidado com vários casos, entre eles, este, já aqui discutido: «d) usa-se havia em locução verbal com verbo no pretérito imperfeito: Estava no cargo havia três anos; nunca: Estava no cargo há três anos» (Belo Horizonte: Editora Keimelion, 2002, p. 131).
      «A música de Pierre Boulez ocupou a segunda parte do concerto, com uma obra que havia quinze anos que não entrava em programas nacionais. Com a colaboração de uma equipa do IRCAM que se responsabilizou pela electrónica, Peter Rundel deu a escutar ...explosante-fixe... (1991-93) [...]» («Cinzelar, burilar, polir», Diana Ferreira, «P2»/Público, 18.01.2012, p. 8).
[Texto 977]
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Como se traduz nos jornais

David Camarão 
e os problemas domésticos

      «Depois de um dia a governar, carregado de problemas domésticos e internacionais, tudo o que David Cameron quer é um jantar tranquilo com a mulher, Samantha, em casa ou num dos seus restaurantes preferidos – o diário britânico The Guardian, que ontem dedicou um pequeno artigo à vida sentimental do primeiro-ministro britânico com base noutro artigo, da Now Magazine, não dizia quais, por razões de segurança» («David Cameron. O que ele faz para namorar», «P2»/Público, 18.01.2012, p. 15).

[Texto 976]
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Ortografia: «electrogravitação»

Era fácil verificar

      Num texto de Vera Monteiro, o Público de hoje vem revelar «Tudo o que sempre quis saber sobre as agências secretas». Sobre a Operação Paperclip, lê-se: «Foi o nome de código da operação realizada pelas “secretas” dos Estados Unidos para recrutar cientistas especializados em foguetes, electro-gravitação e armas químicas alemães, que tinham servido a causa de Hitler, após a Segunda Guerra Mundial» («P2»/Público, 18.01.2012, p. 18).
      Se se escreve «electrogalvânico», «electrogénese» e «electrografia», todos exemplos registados na página 367 do Vocabulário da Língua Portuguesa, de F. Rebelo Gonçalves, é claro que tem de se escrever electrogravitação. E é igualmente claro que isto são minudências para eles. E — espantosa coincidência! — para mim também, só que não desprezáveis.
[Texto 975]
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«Tratar-se de»

Intratáveis

      «O PÚBLICO contactou José Sócrates, que não se quis pronunciar. Já Luís Miguel Viana afirmou que se tratam de “afirmações mentirosas, caluniosas e difamatórias”, acrescentando: “A confirmarem-se, irei proceder judicialmente”» («José Manuel Fernandes acusa José Sócrates de contratar cobertura noticiosa especial da Lusa», Maria Lopes, Público, 18.01.2012, p. 8).
      Maria, Maria, que desgosto! Então não é «que se trata» que se diz? Nunca leu nada sobre isto? Não lhe ensinaram?
[Texto 974]
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Tradução: «now»

Vamos lá ver

      Creio que foi Montexto que certa vez referiu aqui o «agora» mal traduzido. O «agora» que não é «agora» nem «logo». Nas traduções do inglês, vê-se muito. Há, porém, quem perceba que não deverá ser vertido dessa forma. «Now, I’m not saying that I didn’t enjoy ‘sums’ [...]». «Atenção, não estou a dizer que eu não gostasse de fazer “somas” [...].»
[Texto 973]
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«Todo o terreno», dAO

«Está? É do ILTEC?»

      «Dentro do jipe todo o terreno encontrado pela polícia cambojana submerso num lago nos arredores de Phnom Penh, a capital do país, estavam cinco corpos em avançado estado de decomposição» («Cinco corpos no jipe de um francês no Camboja», Luís Manuel Cabral, Diário de Notícias, 17.01.2012, p. 25).
      Um engenheiro, em consulta ao Ciberdúvidas, pôs tudo em causa: será «todo-o-terreno» ou «todo-terreno»? Ou será sem hífen? E o plural? E, estocada final, «o termo “jipe” é aceitável?»
      Nem uma palavra sobre o Acordo Ortográfico. O consultor, porém, quis prevenir futuras consultas, e adiantou que deverá escrever-se «todo o terreno», tendo em conta o estipulado no n.º 6 da Base XV do referido acordo: «Nas locuções de qualquer tipo, sejam elas substantivas, adjetivas, pronominais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais, não se emprega em geral o hífen [...].» Como o mundo não é perfeito, é com pesar que acrescenta: «Convém ainda assinalar que a não hifenização da palavra não é consensual, porque o Dicionário Priberam mantém todo-o-terreno, com hífen.» Santo Deus! Pronto, é porque estes senhores entendem que é uma excepção consagrada já pelo uso. É lá com eles. De caminho, notou que o Vocabulário Ortográfico do Português do ILTEC não acolhe a palavra, mas esse é um problema menor.
[Texto 972]
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«Espectador/espetador»

Espetanço

      «O responsável pelo pelouro diz-se não só “entusiasmado” com este crescimento no Cabo [sic], como acredita que “os espectadores estão a perceber os esforços” que estão a ser “colocados no trabalho”» («“Espectadores estão a perceber os esforços”», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 17.01.2012, p. 51).
      O Diário de Notícias, que já adoptou a nova ortografia, optou por grafar — não, talvez, por convicção, mas para afastar a chacota — o termo com c. Não se espetaram aqui, espetaram-se ali...
      No dia 5 do corrente, a consultora do Ciberdúvidas Anaísa Gordino decretou: «Assim, quer mantenhamos ou eliminemos o c de uma palavra como espectador, a pronúncia da vogal manter-se-á inalterada, à semelhança de todas as outras palavras que sofrerão a queda das consoantes mudas.»

[Texto 971]
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«De encontro a/ao encontro de»

Pois é, mais uma vez

      Anne Sinclair vai dirigir a edição francesa do sítio de informação norte-americano The Huffington Post. Vai daí... «O regresso de Anne Sinclair começa a levantar celeuma, sobretudo porque, em França, diz a regra de que um jornalista deve deixar de exercer a profissão enquanto mantiver um relacionamento com um político» («Anne Sinclair deixa figura de ‘boa esposa’ para voltar ao jornalismo», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 17.01.2012, p. 53). 
      Talvez lapso... mas: «O regresso de Sinclair à atividade profissional vai de encontro às apreciações dos franceses que, no final de 2011, a elegeram como a mulher francesa mais marcante do ano.» Não, Carla Bernardino, vai é de encontro às apreciações dos franceses que não a elegeram «como a mulher mais marcante do ano».
[Texto 970]

 

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«Ao nível dos joelhos»

E o resto...

      «A decisão de vender [o veleiro Bribón] prende-se com o facto de o monarca ter decidido abandonar este desporto, devido aos graves problemas de saúde de que padece, especialmente ao nível dos joelhos, aos quais já foi operado duas vezes» («Veleiro do Rei Juan Carlos está à venda», Diário de Notícias, 17.01.2012, p. 53).
[Texto 969]
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Nomenclatura científica

Não é por eu não dizer

      «Quando Lineu classifica um bicho com um nome repetido (o pargo legítimo é pagrus pagrus) é porque não tem dúvidas. Ao chicharro, comparado com outros carapaus, chamou ele, em 1758, trachurus trachurus. Como quem diz duh...» («Bendito chicharro», Miguel Esteves Cardoso, Público, 17.01.2012, p. 29).
      Não, nada disso: o pargo legítimo é Pagrus pagrus, e o chicharro é Trachurus trachurus.

[Texto 968]
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«Sobre/sob»

Outras tantas

      «“Se há uma situação mais grave, o comandante terá de ter tudo sobre controlo, estar lá onde é preciso”, afirmou [Francesco Schettino, comandante do Costa Concordia] na altura» («Itália teme nova tragédia por causa de derrame de combustível», Susana Salvador, Diário de Notícias, 17.01.2012, p. 23).

[Texto 967]
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«Mandato/mandado»

Escreva 50 vezes

      «Se após a fase de recursos Pedro Medeiros continuar em parte incerta, poderá ser emitido um mandato para a sua captura» («Ex-comerciante condenado a dez anos de prisão por matar assaltante», Paulo Faustino, Diário de Notícias, 17.01.2012, p. 19).
[Texto 966]
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«Gerrymandering»

Era escusado

      «“O mapa dos distritos eleitorais pode ser considerado antidemocrático. As suspeitas de gerrymandering são elevadas”, diz Róbert Laszló, especialista em sistemas eleitorais do think tank Political Capital, em Budapeste. Este curioso termo, de origem anglo-saxónica, refere-se à manipulação das fronteiras dos círculos eleitorais para obter vantagens para um dos lados em disputa – e é disso que é acusado o Fidesz de Viktor Orbán» («Uma lei eleitoral desenhada à medida do Fidesz», C. B., Público, 16.01.2012, p. 18).
      Será mesmo necessário o termo inglês? Não é habitual, para exprimir o mesmo, falar-se de engenharia eleitoral? E lá está, no título, outro anglicismo semântico, carinhosamente adoptado pela comunicação social: «desenhada».
[Texto 965]
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Léxico: «portilha»

Novidade

      O homem levava para casa tudo o que podia — até cacaréus inúteis como potes e portilhas de ferro. Para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, portilha é apenas «seteira». Ora, uma seteira é uma fresta aberta numa parede. Para a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, é termo desusado e designa uma «grande abertura na parede; seteira». Para o Dicionário Houaiss, é termo obsoleto sinónimo de «seteira». Talvez venha do castelhano portilla.
[Texto 964]
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Sobre «água-de-colónia»

Não percebo

      «Nas locuções de qualquer tipo», lê-se na Base XV, 6.º, do Acordo Ortográfico de 1990, «sejam elas substantivas, adjetivas, pronominais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais, não se emprega em geral o hífen, salvo algumas exceções já consagradas pelo uso (como é o caso de água-de-colónia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à queima-roupa).»
      Perfeitamente claro. Consultemos agora o Vocabulário Ortográfico do Português (VOC), onde podemos ler que se escreve «água de Colónia». «Apenas em Portugal», lê-se. Com a variante «água-de-colónia». (E «água de Colônia (apenas em Brasil)», mas esqueçamos o Brasil.) Podemos concluir que o vocábulo tem as grafias água-de-colónia e água de Colónia? Mas se o texto do acordo o inclui entre os que não perdem o hífen, por estarem já consagrados pelo uso!
[Texto 963]
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Como se fala na televisão

Naufrágio

      José Rodrigues dos Santos: «Vamos em directo para Roma, onde se encontra o Rui Almeida, um jornalista que estava no navio e sobreviveu ao desastre. Boa noite, Rui. Como foi que viveu esta experiência?» Rui Almeida: «Boa noite, Zé. É daquelas experiências que ninguém conta passar.» E atenção, não estava perturbado: «Eu devo dizer que, da minha parte, procurei utilizar também o instinto jornalístico para manter alguma equidistância, a equidistância possível numa situação destas.»

[Texto 962]
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Ilegítimo, irracional, inútil

É uma opinião

      «Ninguém tem o dever de aceitar (e de se habituar a) este AO, que é ilegítimo (na forma e no conteúdo), irracional e inútil. Ele seria inaceitável mesmo que obrigasse a uma verdadeira “uniformização” da ortografia... só que, para cúmulo do ridículo, o “acordo” não só não “uniformiza” como aumenta, por via do acréscimo de novas duplas grafias, o número de palavras “à paisana”! Repare-se: no Brasil continuará a ser “autorizado” escrever, por exemplo, “detectar” e “receptivo”; porém, em Portugal é su- posto passar a escrever-se “detetar” e “recetivo”. E quem é que, honestamente, consegue jurar que, por exemplo, “espectador” e “espetador” se lêem da mesma maneira? Acaso alguém com um mínimo de juízo, de sensatez, irá alinhar nesta anedota? Acaso ainda restam algumas dúvidas quanto à utilidade e à validade (zero em ambos os casos) de todo este processo?» («“Velho do Restelo”, e com muito orgulho!», Octávio dos Santos, Público, 15.01.2012, p. 54).
[Texto 961]

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Passageiros descurados

Pelo contrário

      Pelos altifalantes de um aeroporto, chamaram um passageiro à loja de chocolates e outro à relojoaria. Logo: «Muito descurados andavam os passageiros naquele dia. Antes mesmo de descolagem, alguns já estavam com a cabeça no ar. Também os procedimentos de segurança do aeroporto denotavam algum laxismo» («Anomalias aéreas», Ricardo Garcia, Público, 15.01.2012, p. 37).
      Caro Ricardo Garcia: experimente ler agora num dicionário o verbete «descurar». Passe bem.

[Texto 960]
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Ortografia: «ecocidade»

Como calha, não é?

      «Engenheiros e técnicos ao serviço do empreendimento turístico de Vilamoura, no Algarve, começaram a deslocar-se de bicicleta, nomeadamente em visita a obras, para dar o exemplo. O maior resort da Europa quer apostar no uso das bicicletas partilhadas no quadro da sua estratégia de afirmação como eco-cidade» («Vilamoura quer ser uma eco-cidade, pessoal do resort já anda de bicicleta», Idálio Revez, Público, 15.01.2012, p. 37).
      E procurou saber como se devia escrever a palavra, caro Idálio Revez? Ou limitou-se, como me palpita, a ler um qualquer folheto publicitário? Se se deve escrever «ecoescola», pense agora como se deverá grafar esse termo.
[Texto 959]
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«Guarnecer de alimentos»?

Desguarnecido

      «O mercado municipal de Cascais permanece no vale da Ribeira das Vinhas e, quem quer que já se tenha deslocado pelo centro da vila – no sentido da baía ou no caminho para as praias do Guincho – passou-lhe ao lado. A circulação automóvel às quartas e sábados de manhã processa-se, necessariamente, com maior intensidade, perante o acrescido movimento de quantos se procuram guarnecer de alimentos» («Antes & Agora. Usos saudáveis do passado preservados em Cascais», Luís Filipe Sebastião, Público, 15.01.2012, p. 36).
      Talvez de frutos, legumes e flores, como Arcimboldo. Não passam a redacção a limpo, dá nisto. Só os exércitos é que guarnecem — mas apenas de gente e munições — as praças, os quartéis, as fronteiras. Os submarinos também são guarnecidos, isto é, providos de tripulantes. Como também podemos guarnecer de livros uma biblioteca. Guarnecer, nesta acepção, é prover do necessário. O jornalista deveria ter escrito, por exemplo, «abastecer de alimentos».
[Texto 958]
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«Excepção de pessoas»?

Como é?

      Na edição da História Trágico-Marítima anotada e comentada por António Sérgio, publicada em 1956, lê-se: «Assim se punha tudo em um monte, trabalhando todos sem haver ai exceição de pessoas, todos igualmente; os que não sabiam nadar, trazendo às costas e tirando-o do mar, com a água que lhe dava pelo pescoço, o que achavam por esses recifes [...].» Anota António Sérgio: «EXCEIÇÃO DE PESSOAS. Ou, antes, acepção (preferência) de pessoas (do latim “acceptio”). Ao que nos parece, o autor confundiu “acepção” com “excepção”, de que se encontra a forma antiga e popular “exceição”.»
      António Pereira de Figueiredo na tradução do Novo Testamento: «Estes pois lhe fizerão huma pergunta, dizendo : Mestre, sabemos que fallas, e ensinas rectamente : e que não fazes excepção de pessoas, mas que ensinas o caminho de Deos em verdade.» Numa edição de 1856 das obras do P. António Vieira, também se lê: «E os mesmos castigos, sem haver excepção de pessoas, se dão ás mulheres donzellas e moças, e tão honestas, que em sua casa e de seus paes, não as via o sol, nem a lua [...].»

[Texto 957]
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«Proeminência/preeminência»

É tudo alto

      Assim? «Governo de coligação PSD-CDS, desde que tomou posse, ofereceu, generosamente, à gente sua amiga uma dezena de lugares de proeminência, muitíssimo bem pagos» («Uma velha história», Vasco Pulido Valente, Público, 14.01.2012, p. 32).
      Ou assim? «O ruído das vozes cresceu: surdas discussões de presbíteros querelando sobre os lugares de preeminência» (O Trono do Altíssimo, João Aguiar. Lisboa: Perspectivas & Realidades, 1988, p. 310).

[Texto 956]
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«Língua de Todos»

Salvo seja

      Eis o começo do programa Língua de Todos emitido no dia 6 do corrente: «Segundo o Dicionário Aurélio, “filologia”, do grego Φιλολογία, é o estudo da língua em toda a sua amplitude e dos documentos escritos que servem para documentá-la. Numa segunda asserção, inclui também a crítica textual.»
      E estes, caros leitores, são bisbórrias da glote ou outra raça de torcionários da língua? Não valia a pena sermos muito severos, se não se tratasse de um programa realizado pelo Ciberdúvidas. Como é que alguém — no caso, e como agravante, uma equipa — que se «dedica à língua portuguesa» pode confundir conceitos tão diferentes? É um erro crassíssimo.
      Asserção vem do latim assertio, de assero, «afirmar», «assegurar»; acepção vem do latim acceptio, de accipio, «receber», «aceitar». Têm, em latim como em português, sentidos bem estabelecidos e diferentes. Asserção significa «afirmação categórica», «alegação». Acepção é a designação que se dá em lexicografia a cada um dos vários sentidos que palavras ou expressões apresentam de acordo com cada contexto.
      Agora, um exemplo da literatura: «E para comprovar a sua asserção, explicou ao Visconde a acepção pejorativa, que tomava a palavra paca tôda vez que era empregada com relação ao homem» (Contos Reunidos, Gastão Cruls. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1951, p. 93).
[Texto 955]
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«Três ovídeos»?

Muito me contam

      «A inauguração daquele que a Câmara de Lisboa garante ser “o primeiro jardim sustentável de Portugal” juntou o presidente da autarquia, três vereadores, a presidente da Assembleia Municipal, o executivo da Junta de Freguesia de Benfica e três ovídeos, vindos expressamente do Alentejo para a cerimónia» («Três ovelhas viajaram do Alentejo para Lisboa para participar na inauguração de um jardim», Inês Boaventura, Público, 13.01.2012, p. 22).
      Pode dizer-se desta maneira: três ovídeos, quatro camelídeos, cinco leporídeos, seis cervídeos?

[Texto 954]
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Sobre «leitura»

Ainda não perceberam

      «Um carro caiu ontem de manhã numa arriba na Praia da Cresmina, no Guincho, concelho de Cascais, provocando a morte da única ocupante, uma jovem com cerca de 30 anos. Segundo o comandante da Polícia Marítima de Cascais, Dário Moreira, suspeita-se que o incidente não foi acidental. “Terá sido uma decisão deliberada e não um acidente, mas esta é uma leitura preliminar, por isso é que se irá proceder à autópsia do corpo para se apurar as causas”, afirmou. O corpo só foi removido ao final da tarde após peritagem da PJ» («Carro cai em arriba e ocupante morre», Público, 13.01.2012, p. 22).
      É acepção que se usa há algum tempo, mas vejam aí nos dicionários que têm em casa: talvez só um a registe.
[Texto 953]
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Continuam a «replicar»

Pegou de estaca

      «O presidente da autarquia manifestou o desejo de que este jardim “diferente” seja replicado noutros locais da cidade. “Não estamos em tempo de fazer grandes obras, mas sim pequenas obras que mudem efectivamente a qualidade de vida das pessoas”, concluiu António Costa» («Três ovelhas viajaram do Alentejo para Lisboa para participar na inauguração de um jardim», Inês Boaventura, Público, 13.01.2012, p. 22).
[Texto 952]
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Sobre «herdade»

Era no Alentejo


      «As informações mais recentes divulgadas pela imprensa britânica, citando fontes policiais, apontam cada vez mais para a possibilidade de o cadáver encontrado no primeiro dia deste ano, em terrenos da herdade de Sandrigham, Leste de Inglaterra, ser o de uma jovem imigrante letã, de 17 anos, desaparecida desde Agosto de 2011. [...] «Entre a descoberta das ossadas “debaixo da janela” de Buckingham e do cadáver na propriedade de Sandringham mediaram apenas alguns meses» («O mistério das mortes em terras de sua majestade, a rainha Isabel II», Luís Francisco, «P2»/Público, 13.01.2012, p. 10).
      São sinónimos, «herdade» e «propriedade»? Começando por Bluteau: «No Alentejo se dá este nome aos campos que constam de montados, sorvais e terras de pão, e por serem dilatadas e renderem muito, se chamam herdades.» Esta relação com a província transtagana ainda é estabelecida por muitos falantes: herdade é no Alentejo, como machamba* é em Moçambique. Em Morais, «herdade» já não é isso, mas antes o «prédio, casa, quinta ou terra de lavoura». Para o Diccionario da Lingua Brasileira (hã?!), de Luiz Maria da Silva Pinto, nem isso, que a etimologia manda mais: «Bens de raiz de toda a sorte, casa, quinta, etc.»
      Também os dicionários actuais não são consensuais: se todos afirmam que se trata de uma grande propriedade rústica, já nem todos incluem na definição ser composta de montados (que, para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é a «região povoada de sobreiros ou azinheiras, onde pastam porcos, no Alentejo») e de terra de semeadura.

* E porque é que o vocábulo se deixou de escrever com x, maxamba?

[Texto 951]
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Sobre «descontinuar»

Como os pesadelos

      Joana Queiroz Ribeiro, porta-voz da Unicer, em declarações à Antena 1: «Essa consolidação vai levar a que em Março de 2013 nós descontinuemos em Santarém a produção de cerveja e passemos a fazê-la toda em Leça do Balio.» Descontinuar. Entrou, nos últimos tempos, em moda. Não significa mais do que interromper, suspender, cessar, mas a intenção de quem a usa parece ser dar a entender outra coisa. É, de certa maneira, um eufemismo. «A unidade de produção de cervejas da Unicer em Santarém vai fechar?! Nós não dissemos tal. Dissemos, isso sim, que a produção vai ser descontinuada.» E a revista Focus também vai ser descontinuada, soube-se hoje...
[Texto 950]
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Ovos de borda dourada

Como os sonhos

      «Comem-se ovos fritos em todo o mundo. Em Portugal, vão bem sozinhos, com batatas ou a cavalo num bife. Em Espanha é mais ou menos igual, se bem que os espanhóis apreciem muito as puntillas, que é quando a clara fica queimada à volta» («Vamos estrelar um ovo?», Teresa Resende, Visão Júnior, n.º 89, Outubro de 2011, p. 51).
      É verdade, puntillas. Como eu também prefiro. Sim, os Espanhóis distinguem os fritos a la francesa, a la española e abuñuelados. É nestes que se encaixam os que têm puntillas, que aparecem sempre que a gordura e a temperatura são excessivas. Que se encaixam... Pois puntilla é o encaje, a «renda», isto é, a obra de malha feita com fios de linha, seda, ouro, etc., ou, como é o caso, algo semelhante. A borda dourada ou torrada, como escreveu Pedro Nava num poema: «Os ovos bem estrelados/ eram torrados na borda,/ a clara cozida em torno/, a gema de ouro vermelho/ coberta de fina bruma,/ quem fazia iguais aos seus?»
[Texto 949]
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Etnónimos & etc.

Talvez na Squipëria seja assim

      «Os primeiros habitantes da Albânia hoje conhecidos foram as tribos ilírias. Depois chegaram os Gregos, os Macedónios de Alexandre o Grande, mais tarde os Romanos e, finalmente, o território albanês ficou integrada [sic] no Império Bizantino» («Albânia», Luís Almeida Martins, Visão Júnior, n.º 89, Outubro de 2011, p. 56).
      «Bom, como país independente, a Eslovénia só existe há 20 anos, desde 1991, mas os eslovenos já habitam na região há 15 séculos, logo depois do fim do Império Romano» («Eslovénia», Luís Almeida Martins, Visão Júnior, n.º 90, Novembro de 2011, p. 54).
      «Esta revista», lê-se nos dois números, «foi escrita segundo as regras do novo acordo ortográfico». Esquecendo tudo o resto, avulta esta teoria: se nos referimos a povos antigos, é sempre com maiúscula; se nos referimos a povos actuais, pode ser ou não. É assim, senhor jornalista e senhores revisores?

[Texto 948]
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«Possíveis e imaginários»

Ora esta

      Creio que já uma vez me ocupei perfunctoriamente desta magna questão no Assim Mesmo: a pretensa incorrecção da expressão «possíveis e imaginários». Pus-me a pensar: quando se terá começado a usar? Na literatura do século XIX, do que eu conheço, não consta. Hoje, numa tradução, li «possíveis e imagináveis». Naquele século, o que se encontra é... possíveis e imagináveis.
[Texto 947]
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Léxico: «abeta»

«E o Luís é maçon?»

      Graças à RTP e à repórter Sandra Vindeirinho, agora já sabemos o preço de um avental maçónico de grão-mestre: 150 euros. Bordado a fio de ouro, pode custar cerca de 3000 euros. Explicou o lojista (Amigo da História, na Rua do Patrocínio, em Campo de Ourique), Luís Carlos Silva: «É um avental totalmente liso, sem qualquer [...] e o aprendiz usá-lo-á desta forma, em loja, e usa desta forma, com a abeta para cima, porque ainda está no início dos seus trabalhos, ainda suja bastante, isto simbolicamente falando, e como tal precisa de mais superfície para se proteger quando está a fazer os seus trabalhos maçónicos.»
      Pelo que vi, poucos dicionários registam o vocábulo, um diminutivo: abeta. O Dicionário Houaiss acolhe a acepção: «pequena aba que, no avental dos maçons, indica, segundo a maneira com que é usado, o grau daquele que o veste».
[Texto 946]
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«Por isso, me assumo...»

Por isso

      «Sou cristão desde que me conheço. Acredito na ressurreição de Jesus Cristo, como filho de Deus. O padrão moral da sua palavra, que está nos Evangelhos, guia-me nas minhas dificuldades. Apesar das vicissitudes, algumas deploráveis, da sua história, a Igreja Católica é o meu espaço de pertença à fé cristã. Por isso, me assumo como católico» («Eu, cristão e maçon», Ricardo Sá Fernandes, Público, 12.01.2012, p. 35).
      Parece um mação brasileiro a escrever. Por isso me assumo... Por isso, assumo-me...
[Texto 945]
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Explicativo, explicado, muito explicado...

À Zuca Maluca

      Hoje em dia, os livros para crianças têm de falar de bruxas — ou não prestam. É a moda, ditadora. Mais um: «O príncipe, ao ouvir a bruxinha, soltou uma estrondosa gargalhada. Desatou a rir. Ria a bom rir por ver na sua frente uma bruxinha ruiva tão explicativa e desembaraçada» (Zás Trás Pás Zuca Maluca, Vera Roquette. Com ilustrações de João Moreno e revisão de Silvina de Sousa. Lisboa: Oficina do Livro, 2011, p. 20).
      «Explicativa»? Explicativo é o que significa, o que esclarece, o que serve para explicar; elucidativo. Quase exclusivamente usado na oralidade, e mais noutras partes do País do que em Lisboa, há um termo que significa o que a autora queria neste passo dizer: explicado. «E bem-falante, muito explicada, respondona como a maior das malcriadas, sempre com a palavra do Cambronne na boca, pronta para desferi-la, como se estivesse no quadrado da guarda imperial, em Waterloo [...]» (Ao Entardecer, Contos Vários, Afonso de Escragnolle Taunay. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1901, p. 42 [com actualização ortográfica]).
[Texto 944]
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Sobre «thriller»

Estremecedor

      Francisco Rebelo Gonçalves, na página 182 do Vocabulário da Língua Portuguesa, regista: «brídege, s. m. Aportg. do ingl. bridge.» O pior é nos casos em que não há aportuguesamento nem palavra portuguesa correspondente. É o caso de thriller. Ainda hoje me perguntaram como verter o vocábulo. «Tenho de traduzir, ou não, thriller (referido a livros).» Só lhe ocorria suspense — e quem é que traduz um termo estrangeiro com outro termo estrangeiro? — e «mistério», que não o entusiasmava. «Alguma sugestão?», perguntava.
[Texto 943]
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Sobre «banto»

Não sejam cafres

      Já o tinha referido mais de uma vez, mas um argumento de autoridade tem mais força. Rebelo Gonçalves, na página 149 do Vocabulário da Língua Portuguesa, avisa: «banto, adj. e s. m. Inexacta a forma bantu.» «Bantos, etn. m. p. Inexacta a forma Bantus
[Texto 942]
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Sobre «banditismo»

Basta pensar

      «Na operação, conduzida pela Secção Regional de Combate ao Terrorismo e Banditismo da PJ, foram detidos 11 homens e uma mulher e apreendidas quase 60 armas e “milhares de munições de diversos tipos e calibres e ainda diversas armas brancas”», lia-se recentemente no Público. Não é caso único, bem pelo contrário. De bandido esperava-se — bandidismo, pois claro. Rebelo Gonçalves, na página 148 do Vocabulário da Língua Portuguesa: «bandidismo, s. m. Forma preferível a banditismo (ital.).»

[Texto 941]
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Tradução: «courtier»

Por aí

      Andava de terra em terra, nas tabernas, nas estalagens, nas quintas, a vender debulhadoras. Era, lê-se no original, courtier. «Mediador», verteu o tradutor. (E já antes, para outra personagem com a mesma profissão, traduzira por «corretor».) Intermediário não seria mais adequado? Ou mesmo, ocorre-me agora, angariador. (Quanto a «corretor». Edite Estrela, na obra Dúvidas do Falar Português, escreveu: «Das várias hipóteses surgidas, a mais credível parece-me a que remete para o latim curatorem, com influência do francês courtier.»)
[Texto 940]
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Sobre «bazófia»

Être bouché à l’émeri

      A moçoila tinha vindo de um «bourgade cupide et bouchée à l’émeri». «Ganancioso e pitosga», verteu o tradutor... Mas não era sobre nada disto que eu queria escrever. No verbete «bazófia» (e não corrigi eu aqui, recentemente, alguém que escrevera «basófia»?), Rebelo Gonçalves, na página 156 do monumental Vocabulário da Língua Portuguesa, anota: «Em Camilo, Bruxa do Monte Córdova, cap. IV (p. 30 da 4.ª ed.), basofeia (com s em vez de z), 3.ª pess. sing.». Num vocabulário, estranhei. Desviando-me um pouco: «bazófia» vem mesmo do italiano bazzoffia, como se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, ou terá vindo antes do castelhano?
[Texto 939]
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Léxico: «bariátrico»

Muito poucos

      «A velocidade com que ingerimos os alimentos tem influência no peso corporal e comer devagar tem resultados equiparáveis aos de uma cirurgia bariátrica, revela um estudo realizado por uma investigadora portuguesa [Júlia Galhardo] que ganhou um prémio internacional» («Investigadora portuguesa provou que comer devagar emagrece», Público, 2.01.2012, p. 32).
      São poucos os dicionários que registam o adjectivo bariátrico (relativo a bariatria e a bariatra), assim como o substantivo bariatria, que é o ramo da medicina que estuda as causas e as consequências da obesidade e o seu tratamento.
[Texto 899]
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Infinitivo

A lição dos mestres

      Aprendamos com os mestres: «As perdizes erguiam estrepitosos voos quando os atiradores faziam equilíbrios acrobáticos para se manter no cume dos fraguedos» («Perdão” in Contos e Novelas, vol. 1, João de Araújo Correia. Lisboa: INCM, 2007).
      A falta de tempo não explica tudo:

1. «No entanto, recusarmos em absoluto deixarmo-nos maravilhar pode ser, no fundo, apenas outro tipo de tolice» (Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow, Alain de Botton. Tradução de Manuel Cabral e revisão de Tiago Albuquerque Marques. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 17);

2. «Nesse caso, como é estranho e aterrador o facto de levarmos para o céu a nossa fruta e os nossos vegetais, quando costumávamos sentarmo-nos mais humildemente aos pés da natureza, fazendo festivais em prol das colheitas e sacrificando animais, para garantirmos a contínua fecundidade da terra» (idem, ibidem, p. 93);

3. «Por outro lado, enquanto nos esforçamos por nos mantermos civilizados sob as implacáveis luzes fluorescentes, poderemos lembrar-nos de uma das razões que nos levaram a viajar: garantirmos que estaremos mais bem equipados para resistir aos estados de espírito mundanos e zangados em que o quotidiano tantas vezes nos enreda» (idem, ibidem, p. 131).
[Texto 898]
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«Com certeza»

Sem certezas

      «É concerteza um exemplar de estimação, está assinado pelo próprio António Sérgio» (Jornada de África, Manuel Alegre. Lisboa: Visão/Dom Quixote, 2003, p. 49).
      É, sem sombra de dúvida, tal como de certeza, uma locução e não uma só palavra: com certeza. Só causa algum espanto que o erro passe pelo crivo de uma edição. Ora, Manuel Alegre nasceu em 1936, e a ortografia em que a obra foi escrita é de 1945, quando já se escrevia «com certeza». É assim que se lê na página 239 do Vocabulário da Língua Portuguesa, de F. Rebelo Gonçalves. Também causa espanto que o gramático Celso Cunha tenha escrito isto: «Com certeza [=provavelmente] ele virá.» Com certeza não significa, como leio num Boletim da Sociedade de Língua Portuguesa datado de 1965, «certamente, efectivamente, na verdade, coisa certa, convicta»?
[Texto 897]
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