Léxico: «violeiro»

Ah, não seria o mesmo

      «Se o radiologista Steven Sirr da Universidade de Minesota, nos Estados Unidos, não fosse um violinista amador que gosta de praticar nos tempos mortos do trabalho, não teria dado ontem uma espantosa notícia na conferência anual da Radiological Society of North America, em Chicago. Sirr anunciou que consegue produzir violinos iguaizinhos aos que o mais famoso luthier de todos os tempos, Antonio Stradivari, de Cremona, em Itália, construiu no final do século XVII, princípio do séc. XVIII» («TAC permitiu réplicas perfeitas de ‘Stradivarius’», Filomena Naves, Diário de Notícias, 30.11.2011, p. 30).
      Pronto, rendo-me: temos de recorrer ao galicismo luthier porque não temos palavra para designar o mesmo. Ou será que temos? Ah, não vocábulo com tanto prestígio, mas ei-lo: violeiro. Veja na ligação para o Dicionário Houaiss aí no lado esquerdo (novidade no blogue): «que ou aquele que fabrica instrumentos de corda». Então?
      «Utilizo, pues, las palabras laudero y laudería y evito, así, tanto los galicismos luthier y lutherie como el mal sonante violero» (Las aventuras de un violonchelo: historias y memorias, Carlos Prieto. México D. F.: Consejo Nacional para la Cultura y las Artes (Conaculta), 1999). Malsoante? Apenas aos requintadíssimos ouvidos modernos.
[Texto 748]

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Léxico: «estradivário»

Também toca

      «Foi um acaso que levou o radiologista [Steven Sirr] a fazer este estudo. Estava a tocar, num dos seus tempos mortos, quando teve de fazer a supervisão de uma TAC numa emergência. Na pressa, levou o violino e, terminado o exame, resolveu fazer-lhe uma TAC também. E foi aí que começou o caminho que o levou à réplica do Stradivarius» («TAC permitiu réplicas perfeitas de ‘Stradivarius’», Filomena Naves, Diário de Notícias, 30.11.2011, p. 30).
      A brincar em serviço... Desta vez está perdoado (porque foi nos tempos mortos). O termo está aportuguesado: estradivário.
[Texto 747]
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«Supor/pressupor»

Joguinho

      «As consequências desta determinação linguística [as nossas palavras «dívida» e «culpa» se traduzirem por uma só alemã, Schuld] para a economia são enormes, como podemos hoje avaliar. A experiência do débito como culpa e da culpa como débito xxxxxxxx uma conceção do capitalismo onde se sobrepõem categorias éticas, jurídicas e teológicas» («Ao pé da letra», António Guerreiro, «Atual»/Expresso, 19.11.2011, p. 36). Que verbo usariam ali — «pressupõe» ou «supõe»?
[Texto 746]
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Linguagem

Simular e dissimular

      «Germigny-l’Évêque está em choque desde sexta-feira. Nesse dia um menino de apenas três anos chamado Bastien foi posto de castigo dentro da máquina de lavar roupa pelo pai, que em seguida a pôs a trabalhar. O resultado foi a morte da criança, a prisão dos pais e um sentimento de revolta nesta aldeia a Leste de Paris. Christophe Champenois, o pai, é responsável pela morte do filho. Charlène Cott, a mãe, é acusada de ter tentado dissimular o crime, dizendo numa primeira fase que a criança caíra das escadas» («Morte de criança na máquina de lavar choca», P. V., Diário de Notícias, 30.11.2011, p. 26).
      Mais do que dissimular o crime, parece que a mãe tentou simular um acidente. É verdade que dissimular também é fazer parecer diferente.
[Texto 745]
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Ortografia: «suíte»

Não sei porquê

      «As declarações contraditórias de Nafissatou nas audiências do processo penal levaram ao arquivamento do caso, mas o que realmente aconteceu na suíte 2806 continua a suscitar dúvidas. Strauss-Kahn, que poderia explicar o que realmente aconteceu, remete-se ao silêncio» («Strauss-Kahn: complô ou teoria da conspiração?», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 30.11.2011, p. 26).
      Ora, nem todos os dicionários registam a forma aportuguesada, que, naturalmente, prefiro.
[Texto 744]
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Léxico: «resvalo»

Para o declive

      «Um camião dos CTT despistou-se ontem de madrugada e caiu de uma ribanceira de 25 metros no IP4, na zona do Alto de Espinho, Vila Real, provocando ferimentos ligeiros no condutor de 39 anos, residente no Porto. Segundo elementos do Destacamento de Trânsito da GNR de Vila Real, o despiste terá ficado a dever-se ao resvalo do reboque para a berma da via, provocando o efeito de “tesoura” e consequentemente perda de controlo por parte do motorista e o inevitável despiste» («Camião dos CTT caiu em ribanceira de 25 metros no IP4», J. A. C., Diário de Notícias, 30.11.2011, p. 23).
      É um vocábulo interessante: tanto significa declive como resvaladura ou escorregadela. (E «resvaladura», além de escorregadela, também significa vestígio de resvalo.)
      «Pôde aguentar-se sem uma baixeza, sem um resvalo da honra — essa maxima sanctidade do pobre» (Maria da Fonte, Camilo Castelo Branco. Porto: Eduardo da Costa Santos, 1885, p. 186).
[Texto 743]
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Como se escreve nos jornais

É da crise

      «O Tribunal de Torres Vedras começou ontem a julgar o alegado homicida de um outro homem, a quem lhe terá arrancado a orelha e desferido várias facadas em Dezembro de 2010, abandonando depois o corpo da vítima. Na acusação do Ministério Público, o arguido, de 31 anos, é acusado dos crimes de homicídio qualificado, profanação de cadáver e detenção de arma proibida» («Cortou orelha e matou amigo por se meter com a namorada», Diário de Notícias, 30.11.2011, p. 21).
      É verdade que no corta e cola, isto pode acontecer — mas, porque pode ser deliberado e fruto de convicção, diga-se que o pronome pessoal não faz ali falta. O que está antes deste segmento também não está escorreito: «o alegado homicida de um outro homem».
[Texto 742]
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«Linha de Cascais»

Por mim

      Caro L. M., eu, pouco proclive a empregar letra grelada, como dizia Feliciano de Castilho, escrevo com maiúsculas: Linha de Cascais. A outra linha, a do caminho-de-ferro, é que escrevo com minúscula: linha de Cascais.
      «Posso abrandar a marcha, conduzir mais devagar, sem pressa de ir e ainda não ter em mente para onde, talvez espreitar os passos dos que moram na Linha de Cascais e que vão ao Cais do Sodré apanhar o comboio vazio dos domingos, ou ir deslizando ao longo de toda a 24 de Julho e da Avenida da Índia, a ver como é a noite, a noite lisboeta e dominical e como sopram os ventos do estuário, e como se me apresenta triste esta beleza escurecida e pálida dos poucos navios atracados às docas, e como tudo isto tem de súbito a cor, o movimento, o drama da minha depressão» (O Homem Suspenso, João de Melo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1996, p. 25).
[Texto 741]
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«De modo que»

Híbridos

      «O enredo do romance conta como Józio, um homem de 30 anos, é submetido a um rigoroso (e paródico) processo de infantilização, de modo a que volte a ser um adolescente inocente e ingénuo. É encaminhado para a inenarrável escola do professor Piórkowski, especializada em educar uma juventude inquieta e disparatada, que resiste ao ensino proferindo palavrões muito selvagens» («Infantilização em curso», Jorge Marmelo, «P2»/Público, 29.11.2011, p. 3).
      Não se deve empregar tal locução. Já tínhamos «de modo que», mas depois veio o galicismo «de modo a», «de maneira a», «de forma a». «Alguns escritores modernos», notou José Leite de Vasconcelos, «até somam as duas sintaxes uma com a outra, e dizem de maneira a que, não ficando pois nem português nem francês.»
[Texto 740]
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Como se escreve nos jornais

Palavras a mais

      «Actor de papéis principais, Cary Grant ficou como uma das caras mais populares dos clássicos de Hollywood. Nasceu em 18 de Janeiro de 1904 e morreu às 23h22 do dia 29 de Novembro de 1986, aos 82 anos, em Davenport, Iowa, no hospital de St. Luke, com uma hemorragia cerebral. Cary Grant era o nome artístico de Archibald Alexander Leach, um actor britânico que mais tarde se naturalizou como cidadão americano. Ao longo da carreira foi destacado inúmeras vezes» («O actor Cary Grant morre aos 82 anos», «P2»/Público, 29.11.2011, p. 2).
      Senhor jornalista, bastaria ter escrito «se naturalizou [cidadão] americano». E a última frase traz-nos logo à memória os militares que são destacados — enviados — para fazer serviço fora do corpo a que pertencem.
[Texto 739]
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Acordo Ortográfico

Essa máquina diabólica

      Já chegou às livrarias o Dicionário de Luís de Camões (Caminho), com coordenação de Vítor Aguiar e Silva. Afinal, não se esqueceram (ou acrescentaram-lhe?) a preposição (de que falámos aqui). «Reconhecido contestatário do Acordo Ortográfico», lê-se na edição de hoje do Público, «Aguiar e Silva não se opôs a que a Caminho publicasse o dicionário seguindo a nova ortografia. A verdade é que, diz o coordenador, a passagem do texto pelo crivo do corrector ortográfico – “essa máquina diabólica que tem efeitos devastadores”, como o classificou – deixou algumas marcas. Dá como exemplo as palavras “recepção” e “acta”, que perderam o “p” e o “c”, contrariando a ortografia tradicional de ambos os países. “Mas isso não afecta o essencial, que é este dicionário ter uma informação rica, variada e de excelente qualidade”, acredita Aguiar e Silva» («Dicionário sobre o “estado da arte” dos estudos camonianos já está nas livrarias», Sérgio C. Andrade, Público, 29.11.2011, p. 12).
[Texto 738]
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«Enquanto académico»

Enquanto humano

      Pode ser só embirração minha, mas detesto o uso da conjunção «enquanto» no sentido de «na qualidade de; como», especialmente se aparecer repetidas vezes no mesmo texto. Sei lá, este exemplo fictício (?): «Enquanto académico e enquanto cidadão, não posso eximir-me a comentar a actualidade política, o momento crítico por que o País passa.» De quando datará este uso? Há-de ser, forçosamente, giro moderno.
[Texto 737]
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Como escrevem no Governo

Também vocês

      O leitor Rui Almeida chamou-me a atenção para um comunicado do Ministério da Solidariedade e Segurança Social divulgado hoje na imprensa. Só uns excertos: «O Ministério da Solidariedade e Segurança Social (MSSS) vem, ao abrigo do art. 24 da Lei de Imprensa solicitar a publicação do seguinte direito de resposta [...]. Em bom nome da verdade importa esclarecer o seguinte [...]. Pouco depois da tomada de posse o Ministro deixou de ter viatura oficial, em virtude da anterior ter terminado o seu Aluguer Operacional de Veiculo (AOV). O MSSS solicitou por isso à Agência Nacional de Compras Públicas (ANCP), uma viatura, tendo sido indicado que a única disponível de imediato era a viatura referida na notícia, uma vez que, já tinha o necessário concurso de aluguer, lançado e concluído por ter sido efectuado pelo Governo Anterior, sendo na altura, destinada ao então Secretário de Estado da Energia; 3 - O próprio Jornal Correio da Manhã, escreveu na sua edição do dia 10 de Agosto de 2011: “Ministro da Economia herda frota de Luxo” e acrescentava “que, dado os termos do acordo, o actual Executivo nada pode fazer a não ser pagar” referindo-se precisamente ao contrato do carro encomendado pelo Secretário de Estado da Energia do anterior governo; 4 - O Ministério da Solidariedade e Segurança Social, não compra carros, todo o processo de aluguer de viaturas do Estado, é gerido única e exclusivamente pela ANCP. O Ministério paga um aluguer, pelas viaturas, ao seu serviço; 5 - O valor pago neste momento pelo MSSS, referente a este AOV é exactamente o mesmo que era pago pelo carro oficial da Ministra do Trabalho e Segurança Social [...].»
      Há muito por onde pegar. No meu caso, gostei muito do par Governo Anterior/anterior governo e do «bom nome da verdade». A pontuação é um mimo.
[Texto 736]
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Verbo «colocar»

Mais três colocações

      «Para este italiano, cabe aos políticos colocar em prática as decisões já acordadas, como o efectivo reforço do Fundo Europeu de Estabilização Financeira e maior governação a nível económico» («A figura. Mario Monti», João Villalobos, Público, 20.11.2011, p. 32).
      «A aldeia foi colocada à venda por um dos dois proprietários, irmãos, no sítio da Internet da imobiliária inglesa Sotheby’s» («Aldeia à venda em Marvão já tem um investidor interessado», Maria Antónia Zacarias, Público, 20.11.2011, p. 41).
      «Terá sido a indústria que produz animais para a utilização das suas peles a responsável pela introdução “acidental”, em Portugal, de uma espécie exótica que está a colocar em risco recursos marinhos e a sobrevivência de animais que já tinham o estatuto de espécie ameaçada» («O vison americano não serve só para fazer casacos, também ameaça a lontra e o toirão», Susana Ramos Martins, Público, 20.11.2011, p. 43).
[Texto 700]
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Jornais

Fiquem a saber

      Um leitor queixou-se por ter encontrado no jornal o aportuguesamento «tuitava». O provedor do Público parece ter empregado toda a semana para ouvir a redacção. «Discutido o caso, a direcção explica que decidiu banir a palavra criticada por Diogo Coelho, “uma vez que a falta de uma correspondência gráfica evidente entre ‘Twitter’ e ‘tuitar’ compromete a sua compreensão por parte do leitor”. “Seria melhor”, considera Bárbara Reis, “ter escrito ‘twittar’, pois aí a ligação com Twitter, o nome do programa, ficaria melhor estabelecida”. Argumentando ser “cada vez mais difícil fugir a neologismos (“blogar”, “postar”, etc.)”, acrescenta que “certas formas de aportuguesamento não contribuem para a fluidez na comunicação”. Admitindo que “utilizar o Twitter”, “escrever no Twitter” ou “via Twitter” seriam as “fórmulas ideais”, conclui: “Não consideramos errado escrever twittar”» («Eu tuíto, tu twittas, ele escreve no Twitter...», José Queirós, Público, 20.11.2011, p. 55).
      Vão lá procurar a «correspondência gráfica evidente» entre, por exemplo, football e «futebol». Bem, mas quase logo no início do texto fica a conclusão: «Ficam os leitores a saber que, se voltarem a encontrá-lo numa notícia do PÚBLICO, estarão perante uma falha na edição ou na revisão do texto.»

[Texto 699]
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O artigo inútil

Mais inutilidades

      «Diz agora o LAPD [Los Angeles Police Department], com uma convicção que pode ser manha, que RW, hoje com 81 anos, não é um suspeito» («Natalie Wood, morta», Miguel Esteves Cardoso, Público, 20.11.2011, p. 53).
      Para que serve o artigo indefinido nesta frase? Para nada, precisamente. Miguel Esteves Cardoso já devia ter reparado que os bons autores portugueses (e mesmo os maus) não abusam do artigo indefinido.

[Texto 698]
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O inglês inútil

Para quê?

      «A polícia de Los Angeles, a famosa LAPD, reabriu o caso da morte de Natalie Wood (NW). Morreu afogada em 1981 depois de ter estado a bordo de um iate ao largo da ilha de Catalina, na Califórnia. Tinha 43 anos. Estavam com ela mais três pessoas: o marido, Robert Wagner (RW), com quem casara pela segunda vez, depois de uma discussão de meia-noite, bem bebida e ciumenta, por causa do actor com que NW na altura contracenava; Christopher Walken (CW), a segunda pessoa presente, que os outros dois homens dizem ter estado a dormir enquanto tudo aconteceu e, finalmente, o skipper do barco, Dennis Davern, que agora desmente o que disse na altura e alega que não foi um acidente» («Natalie Wood, morta», Miguel Esteves Cardoso, Público, 20.11.2011, p. 53).
      Susana Almeida Ribeiro, que contou ontem a história no «P2», não precisou da palavra inglesa: escreveu sempre «comandante» e «comandante do iate».
[Texto 697]
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Regência: «ansiar»

Já não sabemos ansiar

      «Victor Frutuoso diz que, há cerca de quatro ou cinco anos, houve um empresário holandês interessado em fazer um empreendimento turístico relacionado com a gastronomia, produtos biológicos, hotelaria de grande qualidade, “mas não teve sucesso no financiamento”. Agora, todos anseiam para que a história não se repita» («Aldeia à venda em Marvão já tem um investidor interessado», Maria Antónia Zacarias, Público, 20.11.2011, p. 41).
      Desconheço essa regência do verbo «ansiar» — como a jornalista ignora a regência correcta: ansiar + por. Bem, só erra na preposição.
      «Às vezes, só às vezes, abreviava essas leituras saltando períodos..., e, coitado! o avô estava já velho e não dava pelas inevitáveis lacunas dos artigos assim lidos. Eu ansiava por que ele me abandonasse o jornal para ler o folhetim» (Confissão Dum Homem Religioso, José Régio. Lisboa: INCM, 2001, p. 55).

[Texto 696]
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«Plantar provas»

Uma evidência

      Um jornalista perguntou a Raul Soares da Veiga: «O que é que o seu cliente diz sobre as provas que alegadamente foram plantadas?» Ora consultem lá os dicionários que têm aí à mão. A acepção, que não me parece muito antiga entre nós, não está registada — e não faz mal nenhum, pois é mais um anglicismo semântico. Manchete recente do New York Times: «Mexico: Police Plant Evidence to Justify Illegal Entry, Panel Says».
[Texto 695]
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Como falam os advogados

E não podia esforçar-se um pouco?

      Uma conversa técnica. Raul Soares da Veiga, um dos advogados de Duarte Lima, à saída de uma visita ao seu constituinte: «A conversa que temos com um cliente que é advogado é uma conversa um bocado diferente do que temos com um cliente que não seja advogado, não é? Falamos das coisas já sob o ponto de vista técnico, definindo as normas, os factos... Enfim, tudo isso tem uma certa implicação que não dá para vos traduzir em linguagem leiga porque nós não usamos linguagem leiga, não é?»
[Texto 694]
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Tradução: «aditional»

Não me parece

      «Passados todos estes anos de silêncio sobre o caso, as autoridades judiciais de Los Angeles anunciaram a reabertura das investigações, alegando terem sido contactadas por pessoas que reclamam ter em sua posse “informações adicionais” acerca do afogamento» («Acidente? Três décadas depois, o caso Natalie Wood foi reaberto», Susana Almeida Ribeiro, «P2»/Público, 19.11.2011, p. 11).
      Claro que temos a palavra, mas quem fala assim? Não será mais natural traduzir por «outras informações» ou «mais informações»?
[Texto 693]
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Léxico: «transbordo»

Ou transbordamento

      «O vereador da Protecção Civil da Câmara Municipal de Cascais confirmou que “a chuva forte causou o transbordo da ribeira das Marianas e da Alapraia”, esta última em São João do Estoril. “As terras estão muito saturadas e quando há esta chuva intensa repentina, como a que aconteceu eram cerca das 17h, não há como evitar situações destas”, sustentou Pedro Mendonça» («Chuva fez transbordar ribeiras e causou inundações em Cascais e Oeiras», Público, 19.11.2011, p. 32).
      Nesta acepção de extravasamento, não é muito comum. Comum é na acepção de passagem de viajantes ou de mercadorias de um barco ou comboio para outro.
[Texto 692]
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«Colocar»

Duas colocações

      «Se o detective londrino largava a custo a cocaína para se dedicar ao trabalho de campo que um assassinato envolve, Dave Gurney abandona a sua droga que é a vida no campo para voltar a colocar as mãos na massa. Aqui também há um inspector Watson. Chama-se Madeleine e o facto de ser casada com o detective torna a relação menos ambígua» («Um policial bem publicitado», Rui Lagartinho, «P2»/Público, 18.11.2011, p. 33).
      «Pilotos reclamam 400 milhões de euros da TAP e colocam em risco a privatização» (Raquel Almeida Correia, Público, 18.11.2011, p. 24).
[Texto 691]
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Teatro

Teatro, essa ridícula pretensão

      «Nada disto, claro, serve, ou jamais serviu, rigorosamente para nada. Em 37 anos não apareceu uma única obra decente de dramaturgia portuguesa. Apareceram romances em grande quantidade, apareceu poesia, apareceram livros de história ou de memórias. Não apareceu uma única peça digna desse nome. Até o Teatro Nacional D. Maria II, na impossibilidade de se ficar eternamente no Frei Luís de Sousa, apresenta geralmente traduções. De resto, não lhe falta só dramaturgia portuguesa. Também lhe falta público. Uma noite no D. Maria é uma noite soturna. Francisco José Viegas cortou o orçamento (um milhão de euros) deste longo equívoco. Foi inteiramente justo. E, quando Diogo Infante resolveu recorrer à intimidação, não hesitou em o demitir. Chegou a altura de acabar com esta ridícula ilusão que em Portugal se chama “teatro”» («Teatro à portuguesa», Vasco Pulido Valente, Público, 18.11.2011, p. 44).

[Texto 690]
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Linguagem

«Semanticamente pobre»

      «O arguido — actualmente casado e pai de um rapaz de nove anos — viu negado o pedido para ser dispensado das sessões de julgamento, que fundamentara no facto de ser motorista de longo curso e nas dificuldades económicas decorrentes de uma ausência prolongada ao trabalho. Do mesmo modo, viu indeferido o pedido para ser sujeito a uma perícia psicológica que avaliasse a sua imputabilidade diminuída, a pretexto de supostas dificuldades cognitivas que se traduzem nalguma incapacidade de se “situar no tempo e no espaço” e num discurso “semanticamente pobre”» («‘Juro pela saúde do meu filho que não fiz nada’», Natália Faria, Público, 18.11.2011, p. 10).
      Ora aí está uma via que se poderá revelar extremamente profícua para os advogados. Desde que os juízes deixem, é claro.
[Texto 689]
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Como se fala na televisão

Minhoquices?

      No Telejornal de ontem, José Rodrigues dos Santos entrevistou Marques Correia, o representante da Ordem dos Advogados que estivera presente na detenção de Duarte Lima. Perguntou o autor de O Último Segredo: «Nós ouvimos há pouco o advogado de Duarte Lima relacionar os processos do Brasil, que é um processo diferente, de homicídio, com este processo em Portugal, que é... tem a haver apenas com o BPN. Acha que esta... que este relacionar é plausível na sua experiência de jurista?»
[Texto 688]
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Tradução: «commission rogatoire»

Direito comparado

      Houve um crime, e o lojista não se opôs a mostrar de imediato à polícia as gravações das várias câmaras que tem no seu estabelecimento e no exterior. «Il n’a pas exigé de commission rogatoire pour faire la démonstration de son équipement». Não podemos, certamente, verter, como vejo aqui, commission rogatoire por deprecada, pois esta é o pedido que um juiz faz a um colega para que lhe cumpra algum mandado ou ordene alguma diligência judicial. Não é o caso. Nem por carta rogatória, que é o pedido de diligência feito pelo juiz de uma jurisdição estrangeira; nem por carta precatória, que é o pedido de diligência feito pelo juiz ao juiz de outra jurisdição no mesmo país. Devemos traduzir meramente por mandado? Quid juris?
[Texto 687]
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Aspas

Mesmo com aspas, só para ela

      «Da janela com três arcos, um raro exemplo da arquitectura de inspiração italiana do séc. XVI em Portugal, avistam-se as palmeiras do Jardim do Tabaco, os carros no parque e, ao fundo, o Tejo. “Este seria o gabinete de José”, diz Pilar del Río, a “presidenta” da Fundação José Saramago. […] A “presidenta” não parece preocupada com o facto de já só sobrarem seis dos dez anos pelos quais a câmara lhe emprestou a Casa dos Bicos, devido ao prolongamento das obras: “Se em seis anos não formos capazes de fazer um foco de cultura que irradie, a câmara terá todos os motivos para nos dizer adeus. Se fizermos disto um coração que palpite, há futuro para a fundação aqui”» («Casa dos Bicos sempre foi branca mas com Saramago tornou-se colorida por dentro», Ana Henriques e Isabel Coutinho, Público, 17.11.2011, p. 25).
[Texto 686]
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Aspas

Sempre de meias-medidas

      «O Partido Ecologista “Os Verdes” (PEV) apresentou anteontem um requerimento na Assembleia da República, dirigido ao ministro da Administração Interna, no qual solicita os estudos acerca do impacto da instalação de câmaras de videovigilância nos índices de criminalidade» («“Os Verdes” pedem dados sobre eficácia da videovigilância», Marisa Soares, Público, 16.11.2011, p. 30).
      Muitas coisas me fazem impressão — e esta, o nome de um partido entre aspas, é uma delas. Os partidos ecologistas noutros países não têm aspas: Los Verdes espanhóis, Les Verts franceses e suíços, a Federazione dei Verdi italiana, o Green Party britânico... Até os nossos irmãos Brasileiros têm o Partido Verde. É para realçar ou para atenuar o significado? Carago das aspas. Ah, carago não, carago.

[Texto 685]
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Acrónimo ROV

Sem espaço nem tempo

      «“Uma questão sensível era arranjarmos um novo Noruega. Era um ponto muito, muito crítico. Fizemos um levantamento dos barcos à venda e identificámos uns três ou quatro”, diz Assunção Cristas. “E nas negociações sensibilizámos a Noruega para o desenvolvimento das nossas acções, quer no estudo dos stocks de pesca, quer no que respeita ao uso do nosso ROV [o Luso, veículo operado à distância, que mergulha a seis mil metros] para pesquisar o fundo do mar”» («Portugal vai ter novo navio de investigação do mar, que substituirá o velho Noruega», Teresa Firmino, Público, 16.11.2011, p. 16).
      Tudo inglês, o que não fica claro no artigo. ROV é o acrónimo de remotely operated vehicle.

[Texto 684]
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Como se escreve nos jornais

É o jornalismo!

      «Acontece que o mercado é igualmente lesto a propor outros produtos ilícitos em resposta às novas proibições. Os fabricantes de drogas sintéticas, assinala o relatório, cujos dados são relativos a 2009, estão a empregar técnicas sofisticadas para contornar as proibições legais: as substâncias químicas precursoras utilizadas na produção de drogas como o ecstasy são, por exemplo, disfarçadas em “substâncias químicas não-controladas”. Há, também, vários casos de produção de comprimidos de ecstasy através dos denominados “pré-precursores”. Confuso? É química» («Consumo das velhas drogas desce, ameaça das novas drogas aumenta», Amílcar Correia, Público, 16.11.2011, p. 14).
      Nada confuso, caro Amílcar Correia — sobretudo porque nem sequer tentou explicar. Mas está bem.

[Texto 683]
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«Mandato/mandado»

Caem sempre nos mesmos erros

      «A defesa, a cargo do advogado José Galamba, replicou que a esta lhe importava apenas a descoberta da verdade material e, num discurso que durou uma hora e meia, explorou as várias contradições entre as testemunhas e chegou mesmo a chamar “grandes mentirosos” a elementos da GNR, PSP e Polícia Judiciária que disseram que tinham esperado pelo mandato judicial antes de entrar na vivenda suspeita de Óbidos» («MP pede “pena elevada” para etarra de Óbidos», Carlos Cipriano, Público, 16.11.2011, p. 13).
      Mandato judicial. Também existe, é inegável, mas significa outra coisa: mandato que confere poderes de representação em juízo a um profissional do foro.
[Texto 682]
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Léxico: «irracionável»

Ai Weiwei

      «Mas numa entrevista por telefone à Reuters, o artista diz-se pessimista quanto ao êxito do recurso. “Todo o procedimento, até agora, todos os passos, foram ilegais e irracionáveis”, afirmou já depois do pagamento. “Não recebemos nenhuma explica- ção, por isso é muito difícil para nós esperar que o nosso pedido para uma revisão administrativa obtenha uma resposta razoável.”» («Ai Weiwei paga 930 mil euros para contestar crime fiscal», Público, 16.11.2011, p. 22).
      «The whole procedure, up till today, every step has been illegal and unreasonable», lê-se no texto da Reuters. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «irracionável» significa que não tem fundamento, irracional. Para a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, e o velho Morais não atesta nada de muito diferente, contudo, irracionável é apenas o que é contrário à boa razão; desarrazoado; insensato, louco.
[Texto 681]
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Como se fala na rádio

A lenda do Pátio da Morte

      «Mas D. Lopo não tinha morrido ainda, e reunindo todas as forças que ainda possuía, ergueu-se a custo do chão e, com a espada, deferiu um golpe mortal a D. Alvim» (Mafalda Lopes da Costa, Histórias Assim Mesmo, 15.11.2011).
      Foi muita generosidade ter deferido, concedido um golpe mortal ao adversário, embora D. Alvim até preferisse, aposto, que o golpe fosse diferido. Está aqui o embrião de um exército invencível: Pedro Lomba a bramir o estandarte e Mafalda Lopes da Costa a deferir golpes.
[Texto 680]
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Sobre «coevo»

E depois?

      Uma professora de História quis saber se podia usar o termo «coevo» (que, contudo, disse ser um «arcaísmo») numa construção como «estas pedras tumulares são coevas dos reis da nossa primeira dinastia». Quis saber — mas tinha as suas ideias. «Vendo bem», concluiu, «não, porque misturamos coisas com pessoas. Melhor será usar “contemporâneo”.» E depois?
      «Dominando sobre esses mesmos campos e olivais, coevos de tantas gerações anteriores, etc.», leio nas memórias de Luz Soriano. Está bem, Luz Soriano não é a melhor autoridade. Cá está: Alexandre Herculano nos Opúsculos: «Alli sempre os nossos bispos foram tidos em grande consideração: eram membros do tribunal de mathematica, um dos seis tribunaes coevos com a fundação da monarchia, empregados em altas commissões, etc.»
[Texto 679]
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Tradução

Mito ou verdade?

      «Milhares de pessoas em traje de gala enchem cada um dos muitos clubes de Atenas. Os parques de estacionamento estão repletos de Porches [sic] e dentro dos recintos há empresários, financeiros, políticos. No fundo, segundo um taxista que espera à porta de um destes clubes, a actividade de todos eles é a mesma: lamoya. A palavra é intraduzível. Significa algo entre a economia paralela, negócios ilegais, criminalidade pura e uma atitude de promíscuo e arrogante desprezo perante os poderes públicos» («“O Governo grego dá grandes golpadas, nós damos pequenas”», Paulo Moura, Público, 13.11.2011, p. 14).
      Intraduzível, Paulo Moura? Veja lá, o nosso léxico não é assim tão pobre. Os anglo-saxónicos parece que não têm dúvidas em traduzir lamogio (λαμογιο) por «vigarista». E acresce que λαμόγια, ao que parece, tem origem no espanhol. Não ajudará a fazer luz?
[Texto 678]
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«Revisora editorial»

Acontece que

      «Acontece que a revisora editorial do romance, a professora Teresa Toldy, fez no PÚBLICO declarações que não posso ignorar. Tenho o maior apreço pela professora Toldy, uma teóloga reputada que, com o seu olho clínico, muito me ajudou a afinar o romance. Mas temos um ponto de divergência relativamente a um conjunto de textos do Novo Testamento que eu considero fraudulentos e ela não» («Uma fraude é uma fraude, no século IV ou no século XXI», José Rodrigues dos Santos, Público, 13.11.2011, p. 52).
      Será que a Professora Teresa Toldy é mesmo revisora editorial? O que é um revisor editorial? Ou será antes revisora técnica? Por vezes, parece que o adjectivo que se lhe segue serve somente, ad cautelam, para distinguir de revisor da CP... Questões a debater.

[Texto 677]
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Tradução: «high five»

Bate aí!

      E por ler agora aqui no Público a palavra agur [«adeus» em basco], lembrei-me de uma tradução do inglês. As personagens — que, é verdade, não eram dois compadres alentejanos — acabavam a despedir-se com «o high-five». Espremidos os miolos, não saiu nada português.
[Texto 676]
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«Veronil»?

Estival, veraniço

      «O Outono estava veronil, com todas as consequências sociais benéficas do calor – da abundância de boa disposição, no foro psíquico, à boa exibição da abundância, em termos corporais. Ninguém, por isso, quis sentar-se no andar de baixo do autocarro turístico, cujo pavimento superior se encontrava atafulhado de visitantes» («Dedo em riste», Ricardo Garcia, Público, 13.11.2011, p. 43).
      Não é o povo que faz a língua? Ora cá está um elemento do povo — tanto que até viaja no 44 da Carris — a inventar uma palavra. Ah, não foi ele... Bem, mas já no começo de Outubro a tinha usado, quer mesmo divulgá-la.
[Texto 675]
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Ortografia: «neoplatónico»

Nem em inglês é diferente

      «É um facto que alguns teólogos defendem que era comum na tradição filosófica da Antiguidade os discípulos de um filósofo escreverem textos e atribuí-los ao seu mestre. Mas, em defesa dessa tese, esses teólogos só conseguem dar um exemplo fundamentado, um texto do filósofo neo-platónico Iamblichus, que escreveu sobre os discípulos de Pitágoras: “É uma bela circunstância que eles remetem tudo para Pitágoras, dando aos trabalhos o nome dele”» («Uma fraude é uma fraude, no século IV ou no século XXI», José Rodrigues dos Santos, Público, 13.11.2011, p. 52).
[Texto 674]
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Ortografia: «malvisto»

Água em pena de pato

      «É, pois, com base unicamente neste trecho de Iamblichus que se constrói toda uma tese de que as fraudes naquele tempo não eram mal vistas. O problema é que Iamblichus escreveu 800 anos depois de Pitágoras e que nenhum outro filósofo ou historiador antes de Iamblichus afirmou alguma vez tal coisa. Pior ainda, Iamblichus enganou-se, uma vez que a vasta maioria dos escritos da escola de Pitágoras é de discípulos que não assinaram com o nome do mestre, mas com os seus próprios nomes!» («Uma fraude é uma fraude, no século IV ou no século XXI», José Rodrigues dos Santos, Público, 13.11.2011, p. 52).
      «Ele queria deixar Tarcisis pacificada e, pelas informações de que dispunha, a minha permanência no duunvirato era malvista por muita gente que não me perdoara o suicídio de Pôncio, nem a condescendência para com os cristãos» (Água em Pena de Pato: Teatro do Quotidiano, Mário de Carvalho. Lisboa: Editorial Caminho, 1994, p. 316).
[Texto 673]
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Tradução: «saucer»

Castiçal, palmatória?

      «A vela foi fixada no pires», lê-se na tradução. Era uma casa pobre, sim senhor, mas a base para uma vela tanto pode ser de materiais pobres como ricos. No original, inglês, lê-se saucer, que, além de «pires», significa qualquer disco ou prato — semelhante a um pires. Não dizemos nós castiçal? Ou, se tiver prato e asa, palmatória.
      «À cabeceira do leito estava um castiçal com vela de sebo, derramando nas faces arroxeadas do agonizante um clarão sinistro» (Coisas Espantosas, Camilo Castelo Branco, p. 13).
[Texto 672]
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«Interceptar/intersectar»

São da mesma opinião?

      «Eram celas de tijolo interceptadas por vielas», escreve a autora. Interceptadas ou intersectadas? O étimo é o mesmo, parecem sinónimos puros, mas há alguma especialização de sentidos. O verbo interceptar é mais usado no sentido de apoderar-se do que vai dirigido a outrem — «interceptar uma carta», por exemplo. Intersectar, por sua vez, é mais usado no sentido de interromper o curso de algo — «caminhos que se intersectam», por exemplo.
[Texto 671]
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Plural dos apelidos

Para não se esquecerem

      «Já vivia [o cão da raça spaniel] confortavelmente em palácios quando os Plantagenetas, os Tudors e os Stuarts ainda andavam a puxar uma charrua que não era deles nas terras lamacentas que também não eram deles» (Flush, uma Biografia, Virginia Woolf. Trad. de Maria de Lourdes Guimarães. Lisboa: Edições Afrontamento, 1987, p. 16).
      No final da década de 1980, ainda se sabia que devia ser assim. E em inglês: «He was taking his ease in palaces when the Plantagenets and the Tudors and the Stuarts were following other people’s ploughs through other people’s mud.»
[Texto 670]
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«Bastante frequentemente»

Digam-me o que acham

      O consultor da consecutiva, Miguel Moiteiro Marques, voltou para nos assombrar. Uma consulente quis saber se a frase «Ele come peixe bastante frequentemente» era correcta. Sentença: «A sequência dos advérbios bastante e frequentemente soa agramatical, mas os dois termos podem ocorrer na mesma frase, ainda que noutras posições e assumindo outros valores gramaticais.» Mas, previne, já «podemos dizer, por exemplo, “Ele come bastante peixe frequentemente” – o que é uma alternativa à frase b) proposta pela consulente – mas neste caso bastante deixa de ser um advérbio e passa a ser adjetivo do nome peixe, indicando tratar-se de “peixe abundante, numeroso”.» E remata: «Por outro lado, a sequência “bastante frequentemente” é possível numa frase como “Ele come bastante frequentemente” –, havendo a opção por colocar, ou não, uma vírgula a separar o advérbio frequentemente do resto da frase – mas aqui bastante é um pronome indefinido e refere-se a uma quantidade indefinida que o sujeito da frase consome, não se sabendo se é peixe ou não.»
[Texto 669]
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Como se escreve nos jornais

Pois escreveu

      «O caso – e a atitude dos responsáveis da Penn State – já foi comparado pela imprensa americana ao escândalo de pedofilia que abalou outra instituição insular e exclusivamente masculina, a Igreja Católica. “As semelhanças são demasiado notórias para serem ignoradas”, escrevia há dias o New York Times» («Caso de pedofilia afasta treinador de futebol universitário», Kathleen Gomes, Público, 11.11.2011, p. 18). 
      Pois escrevia, como também escrevia o que está antes das aspas: «A better comparison would be the sexual molestation scandals that rocked another insular, all-male institution, the Roman Catholic Church.»

[Texto 668]
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Invencionice

Outro mestre da escrita criativa

      O primeiro-ministro lá alcançou a imortalidade com a criação de um termo: «malabarice»: «Nós não fazemos malabarices com as cativações [verba que no início do ano fica retida em cada ministério para ser usada apenas se for necessário].» Francisco Louçã sugere que «o conceito é certamente filho de malabarismo e de aldrabice».
[Texto 667]
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O poder das palavras

Só na América (o post da Besta)

      «O co-responsável pelos Óscares de 2012 demitiu-se depois de, numa conferência de imprensa, ter usado o termo fags, que pode ser traduzido como “maricas”. Em carta aberta explicou: “Por muito doloroso que isto seja para mim, seria ainda pior se a minha associação ao espectáculo impedisse que as pessoas prestassem atenção à Academia e aos altos ideais que defende”. O termo surgiu quando, questionado sobre os seus métodos de trabalho, respondeu: “Ensaiar é para maricas”» («Bret Rattner disse “maricas” e demitiu-se», «P2»/Público, 10.11.2011, p. 15).
[Texto 666]
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Como se escreve nos jornais

Isto nunca mais acaba

      «Como se põe um americano a pronunciar Aníbal Cavaco Silva? “Ah-nee-bal Ca-va-coo Seel-vuh”, escrevia ontem a agência Associated Press, uma onomatopeia para iniciados anglo-saxónicos» («Cavaco promete que Portugal cumprirá programa financeiro», Kathleen Gomes, Público, 10.11.2011, p. 8).
     Mas qual onomatopeia, valha-a Deus, Kathleen Gomes? Por quem é, reveja-me o conceito de onomatopeia.
[Texto 665]
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Pontuação

Ao menos diz que é precisa

      «E a passagem da monarquia para a república não melhorou a vida da população, que se sentiu defraudada.» Lembram-se da frase? Estou a ver (agradeço ao leitor A. S. por me ter chamado a atenção) que foi agora lançada para o mundo. Nas respostas publicadas hoje no Ciberdúvidas, está: «Na frase apresentada pela consulente, a virgula [sic] é necessária para separar a frase principal (oração subordinante) da frase secundária (oração subordinada consecutiva), de modo a clarificar o sentido enunciado.
      No caso em questão, a conjunção que é usada com um sentido idêntico a “de forma que” ou “de modo que”, introduzindo a oração consecutiva. Se não colocarmos a vírgula, ficamos com uma estrutura semelhante à das orações subordinadas relativas restritivas e poderemos ser levados a interpretar “que se sentiu defraudada” como acrescentando informação apenas sobre o antecedente, ou seja, que “a população que já se sentia defraudada (por razões anteriores não especificadas) não viu a sua vida ser melhorada pela passagem da monarquia para a república”. No caso de usarmos a vírgula, a interpretação é que “a população sentiu-se defraudada porque a passagem da monarquia para a república não melhorou a sua vida», o que parece ser o sentido pretendido pela consulente.» Consecutiva, diz o consultor, Miguel Moiteiro Marques.
[Texto 664]
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Como se escreve nos jornais

Quase Dupond e Dupont

      No Público de hoje também se noticia o caso em que está envolvido o genro do rei de Espanha. O jornalista, A. G. F., contudo, patina um pouco: as provas tornam inevitável «que Urdangarin se torne arguido no processo». Mais: «tornou-se “inevitável” que o duque de Palma se torne réu no julgamento do caso». Arguido, réu... Enfim, qualquer coisa por aí.
[Texto 663]
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Língua e política

O peso da língua

      Carlos Magno, o novo presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), afirmou que o regulador quer fazer da língua portuguesa um tema obrigatório do seu trabalho. E citou o estudo do ISCTE que aponta que a língua tem um peso de 17,5 % do PIB. Só retórica? Depois falamos.
[Texto 662]
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Como se fala na televisão

Realmente

      O duque de Palma, Iñaki Urdangarín, ouvi ontem no Telejornal, «poderá ser acusado realmente de falsidade documental». Um juiz mandou mesmo «apreender abundante documentação» na sede do Instituto Nóos, do qual o duque é presidente. O juiz está agora a ponderar se «convoca o genro do rei a prestar declarações».
[Texto 661]
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Verbo «haver»

Ai o coração

      Aconteceu, Montexto, aconteceu: «Se houver restrições à autonomia que estão no Orçamento de Estado e houver em 2013 cortes equivalentes àqueles que hão para 2012, a maior parte do sistema de ensino superior português fecha.» Quem falou assim? O magnífico reitor da Universidade de Coimbra, João Gabriel Silva. Magnífico.
[Texto 660]
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Tradução: «ejaculation»

Falsos amigos à vista

      Um dos companheiros de viagem, cientista, acordou outro, que estava semiadormecido, com uma­ — preparem-se — ejaculação! Como em inglês ejaculation também é exclamação, o tradutor foi alegremente atrás. Certo é que ejaculação, em português, também é, em sentido figurado, abundância de palavras, arrazoado, mas o homem disse somente uma palavra.
[Texto 659]
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Tradução

Na miséria é assim

      São João Baptista, podemos ler no evangelho de S. Mateus, alimentou-se no deserto com gafanhotos e mel silvestre, e afirma-se que S. João Evangelista usou o mesmo regime em Patmos. Mel silvestre... não mel selvagem. Wild honey. Os sinónimos... E sabiam que os gafanhotos foram, por uma dispensa rabínica especial, considerados kosher? Bem, mas também as simpáticas capivaras foram consideradas (sabia, Paulo Araujo?), por um decreto papal, também especial, peixe para poderem ser comidas no jejum quaresmal.
[Texto 658]
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Tradução: «castor bean»

Ah, está bem

      Hoje, quando atravessava um jardim, duas senhoras cumprimentavam-se. Uma delas queixou-se do colesterol alto. A outra, bem-humorada, recomendou-lhe então que mudasse para GTX. É algo que entrou na linguagem comum. Colesterol, Castrol. O que eu não sabia e só hoje soube é que o principal componente deste lubrificante para automóveis é o óleo do feijão castor (Ricinus communis). Bem, castor beans para os anglo-saxónicos (e, vá lá, para alguns tradutores…), que para nós a designação é rícino, também conhecido por bafureira, carrapateiro, mamona e mamoneiro.
[Texto 657]
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Tradução: «cornstalk»

Linhas cruzadas

      E alguns telhados são «reforçados por maçarocas de milho vazias». Hã?! Em inglês é cornstalk (não confundir com crosstalk — que ainda anteontem, como é possível? — me aconteceu). Ora bem, à maçaroca da espiga do milho depois de debulhado não se dá o nome de sabugo ou de carolo?

[Texto 656]
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Tradução: «lime»

É pegá-los com visco

      E a nascente vai por ali abaixo, até formar uma bacia, onde se depositam visco e outros minerais. «Visco»! Como lime também é visco e aparece como primeira acepção em alguns dicionários, vá de traduzir assim. Claro, pareceu-lhe muito mais provável que de uma fonte emanasse visco do que óxido de cálcio, cal. CaO.
[Texto 655]
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Linguagem

Polícias deitados

      Depois das rotundas, a grande moda são as lombas redutoras de velocidade. Se dissermos apenas lombas, é equívoco, decerto. E já viram que nome lhes dão os anglo-saxónicos? Sleeping policemen.

[Texto 654]
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«Before the current era»

Já tinha reparado nisso

      «É pena, porque o livro [A Global History of Architecture] assenta numa ideia interessante: está organizado em “fatias” temporais começando em 3500 a. C. e comparando todas as arquitecturas dentro de cada período (agora já não se escreve a. C. ou d. C.; escreve-se BCE, “before the current era”, ou CE, “current era”; trata-se da estupidez política em todo o seu esplendor: como se o modo de contar o tempo histórico que todos usamos tivesse sido inventado por um senhor chamado Corrente)» («Império global», Paulo Varela Gomes, «P2»/Público, 5.11.2011, p. 3).
[Texto 653]
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Como se fala na rádio

Il, Il, Il

      Olívia Santos, nas notícias das 5 da tarde na Antena 1: «Até hoje, El Cavalieri tem-se mantido inflexível, afirmando que ceder significaria trair o país.» Se fosse a primeira vez, eu estaria caladinho. Já chega.
[Texto 652]
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Tradução: «autistic savant»

Para já

      Surge o termo autistic savant, que aparece vertido para «sábio autista» — mas sempre o vi traduzido por «idiota sábio». Contudo, na época idiota que vivemos, decerto que é considerado politicamente incorrecto. Paciência. Ah, «deficiente mental sábio», sugerem-me.
[Texto 651]
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Tradução: «vasculum»

Esta é nova

      Como se chama a caixa empregada pelos botânicos para recolherem as espécies? Em inglês é vasculum. (O tradutor não viu a frase...) Por acaso, tenho ali uma. Dada a etimologia, «vaso de botânico»? «Caixa»? E se aportuguesássemos — «vásculo»? Já andou um botânico pelo Assim Mesmo, mas ficou muito abespinhado por se lhe apontarem erros.
[Texto 650]
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Tradução: «post-doc»

Não podia ter sido pior

      Este aqui, ficamos a saber, tem o ar de quem «está a fazer um posdoc» (looks like a post-doc). Cá não sei, mas no Brasil as próprias universidades publicitam «pós-doc» — mas têm de explicar, como na página da Internet da Escola de Educação Física e Esporte, «pós-doc (Pós-doutorado)».
[Texto 649]
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Tradução: «window box»

Podia ter sido pior

      São botânicos amadores (!), vivem na cidade e alguns têm window boxes no apartamento. O tradutor verteu por... «caixas de vidro». Não se trata das prosaicas jardineiras ou floreiras?
[Texto 648]
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Como se escreve nos jornais

Mas é assim

      «É o uber-texto dos fantasistas anti-semitas dos dois mais recentes séculos. Mesmo assim, como quem experimenta uma tempestade anacrónica que tem tanto de tiro no pé como de ignorante arrogância de Estaline, li no PÚBLICO que um palerma do PCP, no jornal Avante, citou aquele texto inteiramente inventado como se fosse um documento factual» («O mal do folclore», Miguel Esteves Cardoso, Público, 8.11.2011, p. 29).
      Do «uber-texto» não digo nada — mas o nome da publicação comunista é Avante!, com ponto de exclamação. Sempre.
[Texto 647]
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Como se escreve nos jornais

Agora é assim

      «Durante o jogo com o QPR no Estádio Loftus Road, o central inglês do Chelsea John Terry desentendeu-se com Anton Ferdinand, defesa adversário, e tê-lo-á ofendido com insultos racistas. O caso podia ter passado despercebido, não fosse Terry ter sido apanhado pelas câmaras de televisão a proferir a expressão “preto de merda”. No final, Anton mostrou-se abalado com o incidente e disposto a abrir um processo contra o agressor» («Scotland Yard investiga palavras racistas de Terry a Ferdinand», Filipe Escobar de Lima, Público, 8.11.2011, p. 25).
      Mas quem é este Anton — futebolista ou magistrado do Ministério Público?

[Texto 646] 
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Tradução: «smoking gun»

Prova indesmentível

      «O Irão não terá ainda uma bomba nuclear, mas já domina os passos necessários para o seu fabrico. Esta será a principal conclusão do relatório que a AIEA irá apresentar esta semana, de acordo com o Washington Post. Não é ainda a prova indesmentível (ou smoking gun, a expressão que tem aparecido com frequência nos media) que vários países ocidentais esperariam. Mas será o suficiente para levar ao debate sobre mais sanções» («Irão já domina os passos para o fabrico da bomba nuclear», Francisca Gorjão Henriques, Público, 8.11.2011, p. 13).
      É uma boa tradução, sim senhor. Não tão sugestiva como o original, mas percebe-se. O português há-de ter um equivalente igualmente sugestivo, mas não me ocorre agora.

[Texto 645]
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Ortografia: «biossegurança»

Um passo para trás

      «Os avanços no campo da biologia sintética justificam a criação de uma comissão de bio-segurança encarregada de controlo, supervisão e seguimento das actividades relacionadas com as biotecnologias emergentes. Esta é uma das conclusões do parecer de especialistas em bioética de Espanha e Portugal que se debruçaram sobre esta “nova biologia” em que o cientista arrisca na recriação de novos organismos, sintetizando e manipulando ADN» («Portugal e Espanha pedem comissão de bio-segurança», Andrea Cunha Freitas, Público, 8.11.2011, p. 11).
     Cuidava eu que estava completamente assente que os vocábulos com o prefixo bio- não levam hífen: biossatélite, biossegurança, biossíntese...
[Texto 644]
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Como se escreve nos jornais

Respigado do Público de hoje

      «Quando Passos Coelho anunciou que a Cultura seria tutelada por si próprio, primeiro-ministro, delegando competências governativas a uma secretaria de Estado, argumentou com a transversalidade dos assuntos da cultura, alegou mecanismos acrescidos de eficácia e poupança de custos para benefício da Cultura, fazendo crer que uma secretaria de Estado, em vez de ministério, seria uma forma de favorecer a acção do Estado neste domínio e obter vantagens que um ministério autónomo não poderia oferecer» («Foi você que pediu uma Secretaria de Estado da Cultura?», Gabriela Canavilhas, Público, 7.11.2011, p. 31).
      E na capa da «P2»: «Cardeal Tettamanzi pede aos cristãos para que sujem as mãos».

[Texto 643]
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Léxico: «moiral»

Ou maioral

      Cavaco evocou «figura lendária» (!), refere a imprensa. «Para esse moiral, que conduzia ao longo dos séculos os seus rebanhos para as terras altas, não havia fim-de-semana, não havia férias, não havia feriados, não havia tão-pouco pontes em nenhumas circunstâncias», disse o Presidente da República. O moiral das ovelhas, o moiral dos porcos, o moiral das mulas... Talvez por ser regionalismo, nem todos os dicionários o registam.
      «Quem vinha à frente das ovelhas era o pai do Albano, desse que aí anda agora a coxear co’o rèmático. Era o moiral do rebanho» (Crónicas da Serra, Irene Lisboa. Lisboa: Bertrand Editora, 1960, p. 74).

[Texto 642]
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Faixa piritosa

Menos respeitinho

      O Governo prepara-se para lançar no mercado internacional três concessões para prospecção de minério na Faixa Piritosa, localizada na região Sul de Portugal, onde se concentram os mais importantes jazigos nacionais de minério de cobre, zinco, chumbo, mas também de ouro e prata. Este concurso, a lançar muito brevemente pela Direcção-Geral de Energia e Geologia (DGEG), é uma iniciativa inédita no país e é um exemplo da atitude proactiva do Governo face ao relançamento da exploração mineira em Portugal» («Portugal agarra-se à sua riqueza mineira e procura mais investidores», Luís Francisco e Rosa Soares, Público, 6.11.2011, p. 8).
      Vão lá ler, por exemplo, os boletins da Sociedade Geológica de Portugal: nada de letra grelada.

[Texto 641]
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Milhões e biliões

1 000 000 000

      Disse-se na RTP, e escreveu-se em várias publicações, que o antigo presidente líbio Muammar Kadhafi tinha vários investimentos imobiliários de luxo no Reino Unido no valor de mais de — ora vejam — 1,1 milhões de euros. E citava-se o Sunday Times, em que se lê «Gadaffi’s £1bn properties». Os números... Esse valor, 1,1 milhões de euros, era o que os rebeldes davam (e deram?) pela cabeça de Kadhafi. A imprensa espanhola, por sua vez, noticiava que Kadhafi «tenía un imperio inmobiliario por valor de 1.000 millones de libras (unos 1.160 millones de euros)» (El Mundo).
[Texto 640]
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«Enxugar/enxaguar»

Parecido

      «O electrodoméstico mais novo é o desumidificador (240W, dois anos de vida), o qual necessita de muitas horas diárias para conseguir enxaguar a humidade do ar de 80% para 79%» («Idade das coisas», Ricardo Garcia, «Pública»/Público, 6.11.2011, p. 55).
      Em ambos os casos está em causa água, sim senhor, ou pelo menos humidade: enxugar e enxaguar. Na oralidade, já tinha ouvido a confusão. Claro, o texto não foi revisto, mas a confusão é do jornalista.

[Texto 639]
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Léxico: «bateia»

Cinco vezes

      «Manuel Ribeiro Gonçalves avança pelas pedras com a segurança de quem já as pisa sem ver. “Aqui não se apanha nada, se fosse lá mais abaixo...”, avisa, como que para arrefecer os ânimos. Mas não vale a pena ir mais para baixo, onde as margens do rio se tornam escarpadas e complicam o acesso à água. Serve mesmo aqui, mostre lá então como se faz. E ele mostra. Cava o areão, lava-o vigorosa mas meticulosamente na sua velha bateira. No meio do resíduo final, há alguns pontinhos que soltam lampejos amarelos à luz do sol. Ouro!» («O último garimpeiro da Foz do Cobrão», Luís Francisco, Público, 6.11.2011, p. 13).
      Talvez o jornalista ouvisse mal: para a gamela em que se lavam os minérios, nunca vi que lhe dessem outro nome que não bateia. Parecido, sim. Em castelhano é batea, de onde provém o nosso vocábulo. O jornalista descreve bem o objecto: «Agita suavemente a bateira, bacia côncava escavada numa peça única de um tronco de árvore, fazendo rodar o conteúdo em círculos que de vez em quando ganham balanço para se juntarem à corrente.» «Bateira», tanto quanto sei, é a designação dada a uma embarcação sem quilha.
[Texto 638]
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Léxico: «hidroponia»

Ainda não viram

      «A 3 de Junho, um grupo de seis homens de várias nacionalidades entrou para um módulo subterrâneo, onde não entrava luz do Sol. Só consumiram comida de astronauta (com alguns alimentos frescos cultivados sem solo, através de técnicas de hidroponia, como tomates e rabanetes)» («Astronautas que simularam missão a Marte saíram da toca», Clara Barata, Público, 5.11.2011, p. 22).
      Temos de consultar um dicionário de espanhol, o DRAE, para saber o que é a hidroponia»: «Cultivo de plantas en soluciones acuosas, por lo general con algún soporte de arena, grava, etc.»
[Texto 637]
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Salonica, de novo

Então veja bem

      «Amato Lusitano era judeu. Não admira, por isso, que tenha saído do país em 1534, nunca tendo regressado. Depois de ter estado em Antuérpia, obteve um lugar de professor de Medicina na Universidade de Ferrara, em Itália, onde, no exercício da dissecação de cadáveres, descobriu as válvulas venosas, uma observação que haveria de conduzir passadas algumas décadas à identificação do papel do coração no sistema circulatório. Tratou o Papa. Morreu, vítima de peste, em Salónica, então no Império Turco e hoje na Grécia, depois de ter passado em errância por várias cidades, como Ancona, em Itália, e Dubrovnick, hoje na Croácia» («Amato Lusitano, um cérebro em fuga no século XVI», Carlos Fiolhais, Público, 4.11.2011, p. 41).
      Ai que o Senhor Professor não sabe... Vá lá à biblioteca e pegue no Vocabulário da Língua Portuguesa do Prof. F. Rebelo Gonçalves. Exactamente: não é um vocábulo esdrúxulo.
[Texto 636]
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«Era/é/seria melhor»

Valha-o Deus!...

      «Anda tudo a fazer contas acerca de quanto dinheiro é preciso para safar a “eurozona”, que é o nome que se arranjou para juntar ricos e pobres, credores e devedores, como se tivessem os mesmos recursos e interesses.
      Todos acham, com razão, que o trilião de euros actualmente posto à disposição dos aflitos é pouco. Uns aventam dois triliões. Outros, mais circunspectos, sussurram que seriam melhores três ou cinco» («Basta um quatrilião», Miguel Esteves Cardoso, Público, 4.11.2011, p. 41).
     «Três horas, três horas... é melhor três horas... Valha-o Deus!... Ó Cecília, eu não posso levar ao fim este caldo... Tira para lá, filha...» (Uma Família Inglesa, Júlio Dinis).
[Texto 635]
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«Falésia/faleja/arriba»

Pois saiba que

      Faleja — diz-lhe alguma coisa? Pois saiba que é o termo há muito proposto para verter o francês falaise. Pouquíssimo usado, e creio que apenas no Brasil. Cá, preferimos-lhe a adaptação «falésia», embora arriba ou riba signifiquem precisamente o mesmo.
[Texto 634]
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«Por memória»

Dêem aqui uma achega

      Um leitor, José Correia, pergunta-me se sei o que significa a expressão «por memória», que por vezes aparece no relatório do Orçamento do Estado e noutros documentos. Pois não sei, não. Sei apenas, depois de pesquisar, que é um termo usado na estatística e traduzido por memorandum item em inglês. Algum leitor saberá e nos dirá, decerto.
[Texto 633]
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Sobre «falcata»

Ia lá adivinhar

      Qualquer coisa me caiu aos pés (ainda não sei o quê) quando vi que o Dicionário Houaiss não regista o termo «falcata». Viriato, a esta hora, dá voltas na tumba. Nem quero saber se regista ou não «cetra». Em todos os dicionários que consultei, a falcata é definida como uma arma antiga composta de uma haste encimada por uma foice (aliás, falcāta, do latim, significa mesmo «munido de foice»). Mas algo não bate certo, pois toda a iconografia e algumas descrições apontam para uma pequena espada de lâmina curta. Quid juris?
[Texto 632]
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Léxico: «autoficção»

E podia estar

      «Quanto ao próximo romance, não revela ainda qual será o tema, mas garante que quer “contar o real”. “Os relatos intimistas ou a autoficção não me interessam”, disse à AFP. “Nunca irei contar uma história de amor evanescente entre a Toscânia e o Mediterrâneo, essa é a minha única certeza”» («Ganhou o professor que receava ser um “escritor falhado”», Alexandra Prado Coelho, «P2»/Público, 3.11.2011, p. 8).
      Pensei que pelo menos o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa acolhesse o termo «autoficção» (cunhado no final dos anos 70 pelo escritor francês Serge Doubrovsky), mas não.
[Texto 631]
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Como se escreve nos jornais

Onde puseram o verbo «pôr»?

      Manchete da edição de hoje do Público: «Referendo na Grécia à ajuda da UE coloca zona euro à beira do caos». Isto, e tudo o resto, não se coaduna com a cruzada que faz contra o Acordo Ortográfico de 1990.

[Texto 630]
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Tradução: «think outside the box»

A toque de caixa

      «As taxas de referência de detecção de pólipos de cada médico eram respectivamente de 21,5% e 27,16%. Mas, graças às composições do genial Amadeus, elas passaram para respectivamente 66,7% e 36,7%. “Tudo o que for possível fazer para aumentar essas taxas”, diz O’Shea, “tem o potencial de salvar vidas.” Apesar de ser muito pequeno, o estudo tem o mérito de pôr em evidência os benefícios de pensar “fora da caixa”, salienta a investigadora» («Colonoscopias: Mozart é preciso», Ana Gerschenfeld, «P2»/Público, 1.11.2011, p. 3).
      Mesmo com aspas, é — e não quero parecer sobranceiro — uma tradução lamentável do original e incompreensível para a maioria dos leitores: «thinking outside the box». A história da expressão, que não é nossa nem dela carecemos, está aqui. Qualquer leitor, imagino, encontrará uma forma melhor de dizer o mesmo.
[Texto 629]
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Ortografia: «reses»

Ora vejam melhor

      «“Numa época em que campeava o anti-semitismo pela Europa e em que se preparava o encaminhamento de milhões de seres humanos como rezes a caminho do matadouro, em Portugal um oficial do Exército, Arthur Carlos Barros Basto, foi sancionado por ser judeu e ser praticante da religião judaica”, justifica o requerimento» («Caso Dreyfus português vai ser discutido no Parlamento», Público, 1.11.2011, p. 6).
      Não se sabe é se se lê mesmo assim no requerimento para reabilitação póstuma apresentado à Assembleia da República (assinado pelo advogado Rui da Silva Leal) pela neta do oficial ou se é erro de transcrição do Público. Este é erro muito comum, dado mesmo por quem julga que conhece bem a língua. Tão comum como «revezes» por «reveses». E quanto a reses: «Nomes há na língua actual que apresentam reduplicação do plural, tais são eiroses, pioses, ichoses, reses; provém ela da falsa analogia com os plurais regulares nozes, vozes, etc. E de se considerar como fazendo parte do singular o -z- que entra nos diminuitivos [sic] de tais nomes; por igual motivo o povo diz moses, avoses, poses, filhoses, ilhoses, e até mãses; daqueles plurais duplos tiraram-se os falsos singulares eirós, piós. É escusado lembrar que a antiga língua só conhecia o singular eiró ou iró, e peió ou pió ou, como então se escrevia, eiroo ou iroo e peioo ou pioo» (Gramática Histórica Portuguesa, J. J. Nunes. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1919, p. 229).

[Texto 628]
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