Acrónimo: Scut

Isto continua


      «CDS propõe solução que viabiliza portagens nas Scuts», lia-se num título da edição de ontem do jornal i. No artigo, de Ana Suspiro e Ana Sá Lopes, está sempre «Scut». No título e destaques está sempre incorrectamente. Ora, como acrónimo que é (auto-estradas sem custos para os utilizadores, conforme as jornalistas também explicam), não tem plural.

[Post 3590]

Sigla e acrónimo

Público e notório


      «TALGO são as siglas de Tren Articulado Ligero Goicoechea Orial. Goicoechea foi o engenheiro que nos anos 40 do século passado inventou este comboio articulado, onde as carruagens não assentam directamente nos rodados, e Orial o sócio capitalista que com ele formou uma sociedade» («Centenário Sud Expresso vai ser um moderno comboio-hotel a partir de 1 de Março», Carlos Cipriano, Público, 14.2.2010, p. 10).
      Dois reparos: mesmo que TALGO fosse uma sigla, que não é, porquê o plural? Então sigla não é o nome que se dá à sequência formada pelas letras ou sílabas iniciais de palavras que constituem uma expressão? Por coincidência, ainda ontem revi um texto em que o jornalista afirmava que «o Exército de Resistência do Senhor (LRA, nas siglas inglesas) sequestrou desde os inícios da década de 1990 pelo menos quarenta mil menores para os obrigar a combater nas suas fileiras». Quais siglas? Só vejo uma! Mas sigla, sim, ao contrário de TALGO, que é um acrónimo, isto é, uma sequência formada pelas letras ou sílabas iniciais de várias outras palavras e que não se pronuncia letra a letra, mas sim como uma palavra corrente. Tanto é assim que se vê comummente Talgo e não TALGO.

[Post 3137]

Sobre Wrens

Às ordens


      «[…] quando, um ano depois do início da Segunda Guerra Mundial, ingressou nas Wrens […]».
      Popularmente, e até oficialmente, conhecido como Wrens, sim, mas a partir do acrónimo de Women’s Royal Naval Service. Era o ramo feminino da Marinha Real britânica. Se designa uma entidade, um organismo, não tem de ser grafado em itálico.

[Post 3131]

BATE é acrónimo


Até que fura

      «Mais de cinquenta mil pessoas são esperadas na Luz amanhã, para ver o jogo entre as águias e o Bate Barisov» («Bate Barisov rende um milhão», Correio da Manhã, 16.09.2009, p. 11). Consoante pender mais para o bielorrusso ou para o russo, ora será Barisov ora Borisov. Mas nunca é Bate, pois trata-se de um acrónimo: BATE.

Acrónimos

Serviço público

      Alguns, poucos, jornais publicam regularmente textos de especialistas sobre a língua portuguesa. O Correio da Manhã tem Ferreira Fernandes. Criativo, com um domínio notável da língua, culto, na sua pequenina coluna na última página do jornal faz as vezes de consultor linguístico:

«A mentira do acrónimo

Quando apareceram, deram-lhes um nome: SCUTS. Se assassinaram o belo nome de ‘liceu’ para inventar a ‘escola secundária C+S’, pareceu-nos normal baptizar estradas com um palavrão. Os mais letrados sabiam que aquilo era um acrónimo: isto é, abreviaturas que se tinham transformado em palavra comum. Mas raros sabiam o significado das abreviaturas. Passámos a dizer SCUTS para aqui, SCUTS para ali, como se disséssemos Álea das Margens Verdejantes. Os tempos não estão para poesia. Um destes dias, vieram dizer-nos: os asfaltos, tal como os almoços, não são grátis. Por esta altura, quantos se recordam que SCUTS quer dizer estradas Sem Custos para os UTilizadoreS? E se alguém protesta pela incoerência do nome, haverá quem responda: “E ONU é de Nações Unidas, é?”» (Correio da Manhã, 20.10.2006, p. 52)


SIDA ou sida?

Evoluções

      Luís Soares, leitor deste blogue, pergunta-me porque se deixou de escrever «SIDA» para se passar a escrever, pelo menos na maioria dos meios de comunicação escrita, «sida». O termo começou por ser a abreviatura de «síndrome de imunodeficiência adquirida». No início, ora se lhe atribuía o género masculino, ora o feminino. (Era um tempo incerto, esse, em que quase toda a gente dizia «Cavaco e Silva»; como ainda há, hoje em dia, quem hesite, ele voltou para mais dez anos.) Estabelecido, com o tempo, que o género devia ser o feminino (a síndroma ou a síndrome), passou a usar-se de uma forma crescente, infelizmente. Decorridos estes anos todos, a sigla foi lexicalizada, isto é, é como se fosse um vocábulo como qualquer outro. É a gramática a seguir a pragmática. A marca da sigla — o emprego das maiúsculas — desapareceu. Ora dê uma olhadela ao Dicionário da Academia. Já viu? Está dicionarizada como substantivo feminino.
      A propósito, devo dizer que no Brasil a sigla que se preferiu foi «AIDS», tal como em inglês, porque, sendo «sida» homófona de «Cida», hipocorístico de Aparecida, nome próprio muito comum no Brasil, não seria lá muito auspicioso, pois que se prestaria facilmente a trocadilhos.





Léxico: «mupi»

Quem diria

      Uma consulente (sim, porque eu também já tenho consulentes) pergunta-me o que são «mupis», porque não vê o vocábulo registado em nenhum dicionário. Sim, tem toda a razão: não se encontra dicionarizado, e seríamos tentados a afirmar que é uma palavra do tupi-guarani, designando algum animalejo da Amazónia, mas não. «Mupi» é o acrónimo de «mobiliário urbano para informação». São os expositores, iluminados, de publicidade que vemos espalhados pelas nossas cidades, ultimamente providos de um motor para mostrar mais do que um anúncio.



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