«Consumar-se»?

Jornalismo consumado

«Este brutal e trágico acidente de viação rodoviária consumou-se numa zona de extensa recta» («Três mortos em acidente de camião do lixo», Joana de Belém e Filipa Ambrósio de Sousa, Diário de Notícias, 31.05.2009, p. 24). Apesar de «viação» dizer respeito a qualquer meio de transporte, habitualmente dizemos apenas «acidente de viação». Também não dizemos, já repararam, «acidente de aviação aérea». Já quanto ao verbo «consumar», a escolha não podia ter sido pior. Como verbo pronominal, significa «completar-se; terminar; realizar-se; tornar-se exímio, aperfeiçoar-se». Por exemplo, quando há relação sexual, diz-se que o casamento se consuma. O étimo latino significa tão-só «acabar; completar». Assim, quando tomou o vinagre, Jesus disse: «Tudo está consumado.» E, inclinando a cabeça, entregou o espírito. No Eclesiástico ou livro de Ben Sira também se lê: «Uma paixão ardente como fogo aceso não se acalma até que se tenha consumado».

«Punjab», «Penjabe»…

Na entredúvida


      «O sikhismo é uma religião que surgiu no início do século XVI no Penjabe, através dos ensinamentos do Guru Nanak. […] Com a independência e a partição em Índia e Paquistão, em 1947, os sikhs decidiram ficar cidadãos indianos, uma vez que esta parecia ser a única forma de manterem a maioria no Punjab e alguns dos seus direitos» («Os homens do turbante que defendem a paz mas ficaram na história como guerreiros», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 31.05.2009, p. 30). Afinal, como é: Penjabe ou Punjab? As duas formas no mesmo texto? Prefiro, já aqui o escrevi uma vez, a forma aportuguesada Punjabe.

Uma acepção de «linguista»

Sem diploma nem obra

«O criminoso mais procurado da Alemanha, em fuga há nove anos, foi capturado à saída de um bar no bairro vermelho de Hamburgo. Thomas Wolf, um talentoso linguista de 56 aos que fugiu à polícia recorrendo a várias identidades falsas, disse aos investigadores que esperava ser apanhado mais tarde ou mais cedo» («Detido o alemão mais procurado», Diário de Notícias, 31.05.2009, p. 33). «Linguista»? Hum… Como tantas vezes sucede, as notícias são copiadas, e mal traduzidas, de jornais estrangeiros. Vejamos. «Thomas Wolf, 56, a talented linguist who eluded police with multiple aliases, was captured after being under observation in Hamburg for several days after authorities got a tip-off» («German’s most wanted criminal captured in Hamburg», Telegraph, 29.05.2009). Linguist, em inglês, é também «a person accomplished in languages; especially: one who speaks several languages», como leio no Merriam-Webster, por exemplo. Contudo, não são todos os dicionários de língua portuguesa que registam esta acepção — «pessoa versada em línguas», como está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora —, o que pode redundar em equívocos. No último parágrafo da notícia, explica-se porque é linguista: «O homem mais procurado da Alemanha falava fluentemente o holandês e o inglês, imitando na perfeição o sotaque irlandês ou escocês.»

«A» rádio e «o» rádio

Dentro do carro?

«Em vez disso, ouvia-se na rádio do carro o diálogo do apresentador da Antena 2 com um crítico musical muito conhecido a comentar a encenação» (Morte no Retrovisor, Vasco Graça Moura. Revisão de Manuela Ramos. Lisboa: Círculo de Leitores, 2009, p. 124). O aparelho receptor de sinais radiofónicos é do género masculino, o rádio, a estação ou emissora é do género feminino, a rádio. É um erro relativamente comum.

Léxico: «entressílabas»

Outras ficções

«E foi nessa mesma tarde, ao transcrever a conversa n.º 351, enlevada por aquela voz de quentes modulações, que se apercebeu nas entressílabas de que Zacarias estava a sacar a alguém uma série de escaldantes informações sobre um processo em segredo de justiça» (Morte no Retrovisor, Vasco Graça Moura. Revisão de Manuela Ramos. Lisboa: Círculo de Leitores, 2009, p. 92). É outra forma de dizer entrelinhas, sentido implícito. Parece ser feliz invenção do promotor do Manifesto em Defesa da Língua Portuguesa, contra o Acordo Ortográfico, Vasco Graça Moura. Alguns dos 22 magníficos textos desta colectânea estão entressemeados de estrangeirismos escusados. Claro que a defesa da língua não passa toda pela rejeição dos estrangeirismos, mas ainda assim, ao lermos esta obra, não deixamos de relacionar as coisas.

Léxico: «sofraldeca»

Vão nus

De desbragamento passei, naturalmente, a bragas, e destas cheguei a sofraldeca, que é aquela que sofralda, que ergue as vestes inferiores por sistema. No fundo, é isto que fazem os jornalistas que, na televisão e na rádio, se tuteiam. Só estranhava que ninguém mais estranhasse. Mas alguém que aprecio veio dizê-lo: «Qualquer jornalismo tem especificidades nacionais. Mas, no caso português, há especificidades que deixam um observador europeu atónito. Uma delas é a que leva os jornalistas do audiovisual a tratarem-se por tu nas emissões. E outra é a que faz que tratem um entrevistado por “você” e muitas vezes pelo seu nome próprio (“o professor Marcelo”), o que o entrevistado faz também amiúde (“a Judite”, “o Ricardo”, “o Nicolau”,…). Intimidades que excluem ouvintes e espectadores do círculo restrito dos intervenientes, traduzem conivências e revelam até um desbragamento nas regras de cortesia» («Mal-entendidos que dão jeito…», J.-M. Nobre-Correia, Diário de Notícias, 6.06.2009, p. 63). Mas leia-se outra opinião, como a de João Paulo Meneses, aqui.

Actualização em 7.08.2009

«Do lado da estação, José Carlos Castro, a par de Pedro Pinto o mais completo pivô do canal, fez as perguntas que se impunham. Mesmo a familiaridade do tratamento por tu, sempre desaconselhada, percebe-se neste caso» («A entrevista de Moniz», Nuno Azinheira, Diário de Notícias, 7.08.2009, p. 57).

«Maus-tratos» ou «maus tratos»?

Maltreito?

      «Agora, o Ministério Público de Oeiras, no despacho de acusação, decidiu que Mónica, 26 anos, será julgada pelo crime de maus-tratos por omissão agravada» («Mãe de Daniel no banco dos réus», T. F., Visão, n.º 690, 25 a 31 de Maio de 2006, p. 28). «A suspeita de maus tratos, levantadas por familiares e vizinhos, ou alegada negligência médica da Unidade Local de Saúde (ULS) do Alto Minho estão agora a ser investigadas» («Falta de comunicação ao MP na origem de insólito em Viana», Andrea Cruz, Público, 18.04.2009, p. 18).
      Afinal como se escreve? Rui Gouveia, do Ciberdúvidas, não tem dúvidas: «Maus tratos, sem hífen. Por analogia com mau tratamento.» No mesmíssimo Ciberdúvidas, o consultor F. V. Peixoto da Fonseca acha que é indiferente: «Existe maltreito e maus-tratos (no plural), o primeiro registado por Rebelo Gonçalves e o segundo pelo dicionário Aurélio. É claro que se pode escrever mau trato ou mau tratamento (ambos sem hífen).»
      Num estudo sobre o projecto Disque-Gramática, do Departamento de Letras Vernáculas e Clássicas da Universidade Estadual de Londrina, lê-se: «Aqui também um dicionário bastaria para sanar as dúvidas. No entanto, não raro acontece de haver divergências entre autores. É o caso, por exemplo, de mau-trato (ou mau trato). Enquanto Houaiss (2001) e Ferreira [Aurélio Buarque de Holanda. Aurélio Século XXI: o dicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira] (1999) apresentam a forma com hífen, Michaelis (1998) não trata essa construção como um vocábulo, pois não a apresente. E Almeida [Napoleão M. Dicionário de Questões vernáculas. 3.ª ed., São Paulo: Ática] (1996) assim assevera: “Não existe um composto, uma só palavra; escreve-se analiticamente, o plural é maus tratos, sem hífen” (p. 335)» («Entre a norma e o uso: as dúvidas mais freqüentes de 2007», Fernanda Menezes de Carvalho et al., aqui).
      Luiz Antonio Sacconi, professor de Língua Portuguesa na Universidade de São Paulo e autor de várias obras de divulgação sobre a língua portuguesa, também se debruçou sobre a questão, afirmando que «maus-tratos (com hífen) é termo eminentemente jurídico e significa crime cometido por aquele que põe em risco a vida ou a saúde de pessoa que está sob sua autoridade, guarda ou vigilância», ao passo que «maus tratos (sem hífen) é uma expressão equivalente de sevícias, tormento, flagelo, tortura, mau tratamento», distinção que me parece inteiramente da lavra do autor. Não há dúvida de que o vocábulo provém da área jurídica, e os vulgares dicionários, como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, registam: «maus-tratos. Direito delito praticado por quem põe em risco a vida ou a saúde de uma pessoa que está sob a sua dependência ou guarda, privando-a de alimentos e cuidados indispensáveis, ou exercendo sobre ela qualquer forma de violência (física ou psicológica).» Nas traduções, vêem-se ambas as grafias, mas talvez prepondere, tal como na imprensa, a forma com hífen: «Para muitos dos povos minoritários que se encontravam sob domínio chinês, levou séculos de maus-tratos e opressão» (História da China, Stephen G. Haw. Tradução de Joana Estorninho de Almeida e Rita Graña e revisão de Raquel Mouta. Lisboa: Edições Tinta-da-China, 2008, p. 274). «Depois, ele e a Avó queixaram-se dos jovens malfeitores que andavam a aterrorizar o bairro e a infligir maus tratos e abusos às crianças mais novas» (Filho de Ninguém, Michael Seed. Tradução de Mário Matos e revisão de Luís Milheiro. 3.ª ed. Lisboa: QuidNovi, 2008, p. 112). Eu prefiro, se isso interessa, grafar sempre sem hífen, «maus tratos».


Uma acepção de «embalagem»

Embrulha

      «Mas Irina tinha ganho embalagem e continuava a recitar de olhos fechados algumas páginas do capítulo sobre Literatura Portuguesa do Manual prático do espião soviético que a sua tão prodigiosa quanto bem treinada memória lhe permitia recapitular com uma precisão fotográfica» (Morte no Retrovisor, Vasco Graça Moura. Revisão de Manuela Ramos. Lisboa: Círculo de Leitores, 2009, p. 22). Onde diacho pára esta acepção de «embalagem» nos dicionários mais à mão? Não andarão os nossos caros lexicógrafos um bocadinho distraídos? Sim, vem do francês, e inicialmente apenas se aplicava no âmbito do ciclismo: «Accélération brutale et désordonnée des coureurs au moment du sprint. Le coureur [cycliste] ne devient un homme de premier ordre que lorsqu’il est arrivé à acquérir un emballage final foudroyant (Baudry de Saunier, Cycl., 1892, p. 412)» (in TLFI). Para a generalidade dos dicionários, embalar é somente o acto ou efeito de proteger em pacote e o próprio invólucro usado para conter, proteger, transportar e/ou apresentar mercadorias. Alguns, vá lá, ainda acrescentam que em sentido figurado e na linguagem coloquial, embalagem é a aparência, o aspecto exterior. O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, não perdeu este verbete.

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