Definição e etimologia: «policrise»

Pois se o importámos


      Ora ainda bem que me apareceu aqui o termo «policrise». Porto Editora, o termo tem pai, e pai conhecido: assim, na nota etimológica dir-se-á algo como ➜ do ingl. polycrisis, termo cunhado por Adam Tooze (2022), de poly- + crisis. Quanto ao próprio conceito, é francamente mais complexo, assim ➜ policrise situação caracterizada pela sobreposição e interacção de múltiplas crises sistémicas (económicas, financeiras, sanitárias, ambientais, geopolíticas, etc.), cujos efeitos combinados se reforçam mutuamente e produzem um impacto global superior ao que resultaria da sua simples soma.
[Texto 22 504]

Léxico: «cidade-berço»

Temos de lhe dar o aval


      A tradutora escreveu que aquelas duas eram as «cidades-berço do tecno». Bem, sempre evitei usar esta palavra composta, mas são cá coisas minhas, porque tenho de admitir que circula por aí há largas décadas e — aviso a mim próprio — nem sempre referido a Guimarães, terra dos nossos antepassados façanhudos. Neste caso é Guimarães, cidade-berço da nacionalidade. Não, nada disso: referida a outras cidades, noutros continentes, a outras realidades. Por isso, sim, deve ser dicionarizada. Não desperdicemos recursos, munições.

[Texto 22 503]

Léxico: «primum movens»

Latim que ainda faz falta


      O tradutor achou que a tinha de explicar numa nota de rodapé, e se calhar tem razão, já que não está em todos os dicionários. Assim, proponho ➜ primum movens 1. FILOSOFIA (lat. «primeiro motor») princípio ou causa primeira que dá origem ao movimento ou à mudança sem ser, ele próprio, movido ou causado por outro; na metafísica aristotélica, acto puro e fundamento último da ordem do mundo, posteriormente identificado, na tradição escolástica, com Deus; 2. [por extensão] factor decisivo, elemento impulsionador ou força determinante que está na origem de uma acção, projecto ou processo.

[Texto 22 502]

Definição: «rio atmosférico»

Pode ficar melhor


      «Rios atmosféricos são um fenômeno que ocorre quando uma corrente de umidade em alta altitude flui das regiões oceânicas tropicais, potencialmente levando a precipitações muito mais intensas por onde passam. Os rios atmosféricos do oceano Pacífico estão se tornando mais úmidos e quentes e podem levar a fortes nevascas em elevações montanhosas mais altas, mesmo com a diminuição do número de dias com neve, de acordo com um estudo revisado por pares publicado em 2023 na revista Climate Dynamics» («Crise climática aumenta risco de avalanches, mostram estudos», Eric Niiler, Folha de S. Paulo, 21.02.2026, p. A35, itálicos meus). 

      Menciona aspectos que podem contribuir e muito para melhorar a definição de ➔ rio atmosférico METEOROLOGIA faixa longa e estreita de ar húmido em altitude (até vários quilómetros) que transporta grandes quantidades de vapor de água desde regiões oceânicas tropicais ou subtropicais para latitudes médias; ao interagir com relevo ou frentes frias, pode provocar precipitação muito intensa, incluindo fortes nevadas em zonas montanhosas; Brasil rio voador.

[Texto 22 501]

Definição: «calão»

Isso é muito poucochinho


      Viram bem: no texto que citei em que se mencionava a andaina (e aquela 2.ª acepção que continua a misturar vestuário — que vestuário?, da tripulação? — e velas...) também se referia o calão, outra embarcação tradicional, sobre a qual a Porto Editora apenas diz que é o «barco empregado na pesca do atum». Assim, proponho ➜ calão NÁUTICA/PESCA embarcação tradicional de boca aberta, utilizada sobretudo no Sotavento Algarvio como barco utilitário de apoio às antigas armações do atum, desempenhando funções de transporte de homens, aprestos e pescado, bem como de auxílio nas manobras da faina; mede cerca de 7,5 m de comprimento por 2,6 m de boca, é de borda rasa, proa redonda e popa ogival, podendo operar com tripulação numerosa, até uma dezena de homens.

[Texto 22 500]

Léxico: «persa»

Falar persa


      Nesta acepção, a Porto Editora diz que é a «língua oficial do Irão». Só!? Mas sabemos que também tem o nome de farsi — não que o falante fique a saber, porque o dicionário omite a sinonímia —, e neste caso já se espraia: «LINGUÍSTICA língua oficial do Irão, pertencente ao ramo indo-iraniano do indo-europeu e escrita em alfabeto árabe; persa moderno; parse, pársi». Não apenas a definição deve ser única, como pode ser mais rica em pormenores. Assim, proponho ➜ persa LINGUÍSTICA designação comum da língua iraniana ocidental do ramo indo-iraniano da família indo-europeia, falada principalmente no Irão (onde é língua oficial sob a denominação farsi), no Afeganistão (como dari) e no Tajiquistão (como tajique), escrita tradicionalmente em alfabeto árabe adaptado no Irão e no Afeganistão e em alfabeto cirílico no Tajiquistão.

[Texto 22 499]

Como se escreve por aí

Nada que se recomende


      «Seguro está a formar a sua equipa, Ventura voltou ao parlamento, Marques Mendes percorre o deserto, o almirante faz contas de cabeça e Cotrim provou não ser adepto de travessias ou de médios ou longos silêncios. Depois das presidenciais cada um foi à sua vida, uns com mais estardalhaço, outros com mais discrição, mas todos se fizeram ao caminho» («Ele acredita mesmo que o país precisa de si», Luís Osório, Diário de Notícias, 20.02.2026, p. 4). 

      Como é que escrevem o nome de uma instituição com minúscula? Nas traduções, estou sempre a ver isto. Mas são os mesmos que depois escrevem «Castanheiro-da-Índia». Decorre do défice de reflexão sobre a língua, simplesmente.

[Texto 22 498]

Léxico: «listado»

Pois faz muita falta


      Espera lá, as crias do javali não são bacorinhos. Até aos 3 meses, apresentam listas longitudinais alternadamente de cor mais escura e clara, e por isso dá-se-lhes o nome de listados. Bem bonitos, por sinal. Então, para não se escreverem bacoradas, sugiro que vá para o dicionário. Que, já agora, não dormem em ninhos, mas em camas e, até mais propriamente, em encames.

[Texto 22 497]

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