Como se escreve nos jornais

«Seria aqui que seria»?

      «Seria aqui que Carlsen seria “descoberto” por Simen Agdenstein, o seleccionador norueguês, que na sua época chegara a integrar o top 50 mundial e que, curiosamente, também pertencera à selecção principal de futebol» («Aos 22 anos, Magnus Carlsen é o novo campeão mundial», Jorge Guimarães, Público, 23.11.2013, p. 49).
[Texto 3574]

Avaliação dos professores

Zeros na composição

      «Aquela é também a posição do presidente da Associação Nacional dos Professores Contratados (ANVPC), César Israel Paulo. Diz que é uma prova que consta de “rasteiras”, “baseada numa lógica matemática que não é dominada por excelentes professores”. Também teme que a obrigatoriedade de respeitar o novo acordo ortográfico resulte em zeros na composição» («Modelo da prova de avaliação para professores causa indignação», Bárbara Wong e Graça Barbosa Ribeiro, Público, 23.11.2013, p. 7).
      É também a minha previsão. Mas Paulo Guinote tem uma estratégia: «“Um conselho: na composição não usem palavras difíceis, nada que levante dúvidas em relação à forma como se escreve segundo o Acordo”, oferece Paulo Guinote, autor do blogue Educação do Meu Umbigo e professor de História. Diz que aquela é a única dificuldade que a prova, “completamente apatetada”, pode levantar. Sobre o exemplo da composição, garante que já pediu “coisas mais difíceis aos alunos do 9.º ano”; em relação a algumas questões de escolha múltipla afirma que está em causa “um nível de literacia funcional exigível a crianças do 6.º ano”.» Não usar palavras difíceis... Isso é se os professores soubessem quais são essas palavras difíceis. Aquela professora, com vinte anos de ensino, que numa acção de formação sobre o novo acordo ortográfico escreveu, segura de si, «adatando-os», não superaria essa prova elementar.
[Texto 3573]

«Decisão sobre a sorte»

Cá está

      O Presidente da República sobre a demissão do director nacional da PSP: «Já hoje de manhã tive ocasião de falar sobre esse assunto. É uma competência exclusiva do Governo a decisão sobre a sorte do Sr. director nacional da PSP.» Cá está um claro sinal dos tempos de pré-ditadura denunciada ontem. É como se pertencesse ao Governo o poder discricionário de degredar o director nacional da PSP para as Berlengas (coitadas das lagartixas-de-bocage) ou pendurá-lo pelos pés do Arco da Rua Augusta.
[Texto 3572]

Auto-retrato de Chateaubriand

Ainda para lá dos Pirenéus

      «Propre à tout pour les autres; bon à rien pour moi: me voilà.» Não é um enigma, é antes o auto-retrato de Chateaubriand. Parece uma frase muito simples, compreensível. Será igualmente fácil de traduzir? É o desafio que lanço aos bons leitores do Linguagista.
[Texto 3571]

Sobre «vernissage»

Mais francês

      Este caso faz lembrar o que aconteceu com a expressão «a partir de». Trata-se da inauguração de uma livraria. No original, é a vernissage, extensão de sentido de um sentido figurado. O tradutor optou por não encontrar uma equivalência em português. Se formos consultar o Dicionário de Francês-Português da Porto Editora, não regista esta extensão de sentido, limitando-se ao sentido figurado: «dia de abertura de uma exposição; inauguração de uma exposição».
[Texto 3570]

Tradução: «plat à emporter»

Pois é

      Estava tudo emporcalhado, com «les boîtes de plats à emporter» a juncar o chão. E agora, como traduzir? Para muitos tradutores, o melhor é traduzir para inglês, até porque quase ninguém reclama nem acha inconcebível. «Comida comprada no takeaway»! No entanto, vou até à Estrada de Benfica e encontro meia dúzia (fecharam muitos, ultimamente) de restaurantezinhos com um letreiro na montra em que se lê «Comida para fora». E os donos serão, tenho a certeza, semianalfabetos.
[Texto 3569]

Tradução: «plat surgelé»

Tudo simples, mas depois...

      Se fosse a tradução para inglês, havia mais gente a saber. Talvez «frozen ready meal», não? Mas em português, qual será a melhor tradução? «Refeição pré-cozinhada»?
[Texto 3568]

«Massachusetts», só com um esse

Miudezas

      «“Kennedy foi o primeiro a usar, de uma forma brilhante e inédita, os meios de comunicação social e de propaganda para criar uma imagem que não correspondia à verdade”, diz o historiador Tiago Moreira de Sá, professor na Universidade Nova de Lisboa e investigador do Instituto Português de Relações Internacionais. Kennedy mostrava-se como homem novo, bonito e dinâmico, que ficava bem de fato escuro e gravata, mas também de pólo e caquis a jogar futebol com os irmãos ou a velejar nas águas do Massachussetts» («JFK, o príncipe imperfeito», Ana Gomes Ferreira, Público, 22.11.2013, p. 24).
      Porquê o plural «caquis» e o itálico? Já muita gente errou a ortografia do nome do Estado norte-americano. São muitos ss. É Massachusetts, só com um s.
[Texto 3567]

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