«Tragédia humana»

Assim está melhor

      «Horas antes, a notícia era outra: o navio movia-se à razão de 7 a 15 milímetros por hora, o que levou à suspensão das buscas durante a noite. Aumentava o receio de que à tragédia humana que foi o naufrágio se some uma catástrofe ambiental» («Movimentos do Costa Concordia travaram operações de busca durante quase todo o dia», João Manuel Rocha, Público, 21.01.2012, p. 21).
[Texto 990]

Sobre «bonzo»

Bueno, probablemente

      «Tres licenciados marroquíes en paro tratan de quemarse a lo bonzo en Rabat», lia-se na edição de ontem do El País. Bonzo é, como sabem, o sacerdote budista. E como é isso de se queimarem a lo bonzo? «Rociándose de líquido inflamable, y prendiéndose fuego en público, en acción de protesta o solidaridad.» Neste caso, o DRAE diz que provém do japonês. Não faltam, contudo, autores espanhóis (nem portugueses) que dão como provável ou certa a etimologia portuguesa. Parece que foi S. Francisco Xavier que introduziu a palavra na Europa, e foi em Portugal, muito provavelmente, que ela ganhou a nasalização medial. Alguns dicionários também registam a variante bônzio. Dalgado, que dedica uma extensa entrada ao vocábulo no seu Glossário, regista também, como derivado, «bonzaria», a colectividade de bonzos, e, ainda mais curioso, «bonzeiro», o amigo dos bonzos.
[Texto 989]

Como se escreve nos jornais

Para o anedotário

      «Depois do almoço, há-de caminhar, com uma esfregona na mão, um balde na outra, até ao pavilhão da prisão. Faz parte da brigada hergoterapêutica, o grupo que limpa aquele espaço comum em regime de voluntariado, no pressuposto de que mata tempo, faz algo pela comunidade, ganha sentido de responsabilidade» («No Clube K», Ana Cristina Pereira, «P2»/Público, 20.01.2012, p. 4).
      Deve ter sido o recluso que aspirou — e a senhora jornalista, cheia de medo, apontou: hergoterapêutica. Na redacção, nem se lembrou de ir consultar um dicionário. Para quê, não é?

[Texto 988]

Tradução: «cap»

Chapéu

      «Wash your strawberries, and remove their caps», lia-se no original. E o tradutor verteu assim: «Lave os seus morangos e retire os píncaros e folhas.» Reparem bem: «píncaros e folhas» onde estava somente caps. «Pedúnculo de certos frutos»: regionalismo beirão, regista o Dicionário Houaiss. («Como a cereja e a ginja», acrescenta o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.) Dá jeito, mesmo que as folhas fiquem de fora.
[Texto 986]

Sobre «buzo»

Del portugués, segurísimo que sí

      «Las labores de búsqueda de los desaparecidos del crucero Costa Concordia», lia-se na edição de ontem do El País, «se han vuelto a interrumpir esta mañana por movimientos en el buque. Los buzos ya interrumpieron ayer sus trabajos porque la embarcación oscilaba y era peligroso acceder a los camarotes y salones sumergidos.»
      Segundo alguns autores espanhóis, pode ter vindo de uma variante portuguesa; segundo outros, provém seguramente da língua portuguesa. O DRAE, por exemplo, regista: «Del port. búzio, caracol, y este del lat. bucĭna, cuerno de boyero.» Algumas gramáticas escolares do país vizinho também o incluem, a par, por exemplo, de mejillón, entre os galeguismos e os lusismos. De Bluteau e Morais a todos os dicionários actuais, búzio ainda é «o que mergulha bem, ou o pescador de pérolas, coral e outras coisas que estão no mar». Alguns dicionários continuam a registar a variante buzo para designar o molusco gastrópode.
[Texto 985]

«Palavras plenas/palavras instrumentos»

À volta, à volta

      A pergunta era muito singela: «O que são e como identificar num texto palavras plenas e palavras-instrumento?» A pergunta foi feita ao Ciberdúvidas por Eugénia Oliveira. O consultor Miguel Moiteiro Marques, já nosso conhecido, começa por responder desta forma: «Não tendo encontrado outra referência a palavra plena senão no Dicionário Aulete, suponho que a consulente se referirá à oposição entre palavras lexicais e palavras (ou morfemas) funcionais ou gramaticais (conforme terminologia adotada pelo Dicionário Terminológico.») Depois, porém, tudo se embrulha, e em especial com a referência a Evanildo Bechara.
      A terminologia varia, mas, quanto a essa precisa oposição, o consultor podia ter recorrido a dezenas de obras. Este excerto, de uma obra que nem sequer é sobre linguística ou gramática, parece-me bem esclarecedor: «O programa [informático ALCESTE, de análise quantitativa de dados textuais utilizado em representações sociais] faz uma distinção entre as palavras instrumento (artigos, preposições e conjunções, essenciais para a organização do texto), e as palavras analisáveis (substantivos, verbos, adjetivos, aqueles termos que definem os conteúdos representacionais)» («Representações sociais sobre rejuvenescimento: um enfoque psicossocial», Maria Cristina Triguero Veloz Teixeira, in Maturidade e Velhice, Pesquisas e Intervenções Psicológicas, vol. I. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2006, p. 122).
      De forma isolada, aquelas designações podem remeter para outros conceitos. Palavra plena, por exemplo, que já usei diversas vezes no blogue, como neste exemplo: «Por analogia com pág., forma abreviada de “página” e com págs., plural, obtemos Fig. e Figs., singular e plural, respectivamente. Em ambos os casos, a abreviatura é constituída pelas três primeiras letras da palavra plena, seguidas de ponto de abreviatura» (Dúvidas do Falar Português, vol. 4, Edite Estrela. Lisboa: Editorial Notícias, 1991, p. 144).
[Texto 984]

Sobre «bufete»

Por pouco

      «El bufete del abogado Mario Pascual Vives», lia-se na edição de ontem do El País, «que defiende a Urdangarin, ha declinado confirmar si hoy está previsto algún encuentro entre el letrado y el duque.»
      Nesta acepção, é galicismo que não chegou a este extremo da Península Ibérica. Uf, foi por pouco. Chegámos, todavia, muito perto, pois uma das acepções de «bufete», em português, é secretária antiga; papeleira. Ao que parece — e ao contrário da maioria dos galicismos, que, ou foram adoptados nos séculos XIII e XIV ou no século XVIII e depois –, começou a ser usado em castelhano no século XVI. De mesa de escribir con cajones passou, já se percebe por que processo, a designar o estudio o despacho de un abogado e mesmo a própria clientela del abogado.
[Texto 983]

Léxico: «acosso»

Copiaram, mas está bem

      «“Nos últimos dias”, explicou o advogado, “a minha cliente foi perseguida sem descanso, dia e noite.” Haverá ainda uma queixa por “acosso”. “Desde há algum tempo, Charlotte Casiraghi está a ser acossada, mas, desta vez, com risco de perigo”, referiu [Alain] Toucas. “A princesa vive um inferno diário.”» («Charlotte. Medo de morrer como Diana», «P2»/Público, 19.01.2012, p. 15).
      É substantivo que não está registado nos dicionários mais consultados em Portugal. Já que perguntam — sim, o Vocabulário da Língua Portuguesa, de F. Rebelo Gonçalves, regista-o na página 23. Acosso, acossamento. No caso, a fonte terá sido a imprensa espanhola, que usa o termo «acoso». No Diário Digital, lê-se, como em toda a imprensa do país vizinho, «Carlota Casiraghi».
[Texto 982]

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