Léxico contrastivo: «rabiola»

A rabiola da pipa

      Ainda a propósito dos papagaios de papel — pipas, no português do Brasil —, regressemos à notícia. «Voar com os pés no chão. Como? Soltando pipa. Ontem, no fim da tarde, no aterro da Praia de Iracema, centenas enfeitavam o céu. Foram mil distribuídas pela organização não governamental Mediando Saberes, que encerrava uma série de oficinas realizadas com 30 educadores numa parceria com a Fundação de Cultura, Esporte e Turismo (Funcet). Antônio Rodrigues, 12, dispensou a ajuda dos monitores para montar a pipa. Envergou uma das varas, emendou a linha, colocou a rabiola e num instante a pipa estava lá no alto, longe mesmo» («Pipas enfeitam céu da Praia de Iracema», Mariana Toniatti, O Povo, 22.10.2007, p. 3). 
      Rabiola?... Um português não sabe. Rabiola é a cauda dos nossos papagaios de papel.

Uma palavra por dia: «amagar»

O Irão vai amargá-las

      «George Bush amaga con una “Tercera Guerra Mundial” para meter miedo sobre Irán» («Cómo se fabrica la próxima guerra», Iñigo Sáenz de Ugarte, Público, 28.10.2007, p. 16). Talvez do gótico af-maga, «desamparar», e este derivado de magan, «ter força», segundo o Diccionario de la Real Academia, amagar é, no contexto, ameaçar alguém com algum mal ou mostrar intenção de fazê-lo.
      Também temos, é verdade, o verbo amagar — mas não tem qualquer relação, pelo menos estabelecida, com este. Uma das acepções do nosso amagar é um brasileirismo que está registado no meu glossário do cavalo: levar (o corpo) à frente, quando montado a cavalo, para dar impulso à montaria. (Como vemos também, e dobramo-nos de riso, certos condutores fazerem.) Já o substantivo português «amago» deriva deste «amagar» espanhol: ameaça com fins de extorsão.

Palestino/palestiniano

De Palestina…

      «El primer ministro israelí, Ehud Olmert, sugirió ayer en la Kneset (Parlamento) que Israel podría hacer “concesiones” en el tema de Jerusalén y traspasar a los palestinos el control de ciertos barrios árabes de la ciudad santa» («Olmert plantea dejar zonas de Jerusalén a los palestinos», Eugenio García Gascón, Público, 16.10.2007, p. 15). O Diccionario de la Real Academia nem sequer regista «palestiniano». «Palestino», de palaestīnus, como já aqui vimos.

Léxico contrastivo: «caçamba»

Imagem: http://www.brasilcaminhoes.com.br/
A caçamba do caminhão

      «Três pessoas morreram, ontem de madrugada, no capotamento de um caminhão Mercedes Benz, na altura do Km 52 da BR-304, no município de Aracati, a 159 quilômetros de Fortaleza. O veículo dirigido pelo motorista Everardo da Silva, seguia de Aracati com destino a Mossoró, no Rio Grande do Norte, conduzindo uma carga de cajus. […] “Uma outra pessoa que também vinha na caçamba teve mais sorte e os cajus não caíram sobre ela”, completa Félix. Os corpos deles foram trazidos para o Instituto Médico Legal» («Caminhão capota e mata três pessoas», O Povo, 28.10.2007, p. 3). 
      Caçamba, segundo o Dicionário Houaiss, vem do quimbundo kisambu, «cesta, cesto grande», e significa «receptáculo de camiões, guindastes, escavadeiras, dragas, etc.». Em Portugal, dizemos «caixa». Camião de caixa aberta, no caso da imagem. Camião, caminhão… Escrevia o Prof. Vasco Botelho de Amaral em 1947: «Ora, eu também, no Novo Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa, insisti em defender camião, mas, se nos fôssemos a guiar por grande parte do povo (tal como faz Aquilino Ribeiro para camionete), teríamos ambos de preferir camiom» (in Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1947, p. 19). Passados mais de cinquenta anos, isto continua a ser verdade.

Uma palavra por dia: «borrador»

Esborratadelas

      «Los implicados (asociaciones empresariales y gestoras de derechos) ya han recibido el borrador de la norma, aunque sin las cifras definitivas» («El canon digital ya se cobrará en las tiendas esta Navidad», Ana Tudela, Público, 17.10.2007, p. 34). É um rascunho, um borrão — um projecto. «Escrito provisional en que pueden hacerse modificaciones.» O nosso «borrão» tem o mesmo étimo latino: burra. Aliás, até temos em português o vocábulo «borrador» com o mesmo significado: «Caderno ou papel em que se faz rascunho, para depois passar a limpo» (in Aulete Digital).

Léxico contrastivo: «oficina»

Artes e ofícios

      «Com o tema “Caju: novos rumos, desafios e oportunidades”, começa amanhã a 4.ª edição do Caju Nordeste, no município de Aracati, a 159 quilômetros de Fortaleza. O evento se estende até o próximo sábado, 27, e é aberto ao público. Além de palestras e seminários, realizados nos auditórios dos Colégios Marista e Salesianas, haverá, na praça da Comunicação, oficinas sobre como aproveitar o caju em receitas de hambúrguer, sopa, pudim e arroz, entre outros. […] «De acordo com Araripe [Francisco Araripe Costa, coordenador-geral do Caju Nordeste 2007] cerca de 85% dos pedúnculos de caju (a parte da polpa) são desperdiçados» («Caju Nordeste 2007 começa amanhã na cidade de Aracati», O Povo, 24.10.2007, p. 10). Neste contexto, um jornalista português não hesitaria: só com um workshop é que o leitor vai perceber isto.

Léxico contrastivo: «carroçável»

Carroças do século XXI

      «Genilson de Sena Monteiro, 10, acorda por volta das 5 horas da manhã e às 6 horas já está na estrada com o irmão Gerson, 14, esperando o transporte escolar que vai levá-los à Escola Municipal Raul Barbosa, no distrito de Itapeim, em Beberibe. A escola fica a cerca de 20 quilômetros de distância da localidade onde os meninos moram, Lagoa Achada, e o percurso é feito em carro que tem tração porque a estrada é carroçável» («Professores sem instrumentos pedagógicos nas salas de aula», Fátima Guimarães, O Povo, 24.10.2007, p. 10). 
      Não estou a imaginar um jornalista português usar tal termo. No entanto, «carroçável» — «próprio para o tráfego de carros, carroças e outros veículos (estrada carroçável)», na definição do Aulete Digital — é um vocábulo de fácil compreensão. E, trate-se de uma charrete ou de um BMW X5 Security, tem rodas e anda nas estradas. Sim, claro, a jornalista também podia ter usado os vocábulos «praticável», «transitável» ou «viável». E até, se quisesse aborrecer a maioria dos leitores, «pérvio». O Brasil é o último reduto do bom léxico português.

Arquivo do blogue