Creditação?

Não (a)creditem



      Titulava hoje o jornal Público: «Consultores financeiros lutam pela creditação da profissão» (Anabela Campos, 10.09.2007, p. 31). É um neologismo dispensável, este. A notícia começa por dizer: «Há em Portugal cerca de 1200 pessoas a prestar serviços de aconselhamento financeiro na área do crédito sem certificação, qualquer registo ou supervisão por parte do Banco de Portugal.» Ah, então é disso que se trata: certificação ou reconhecimento da profissão. Ou terá caído um a, na confusão do fecho da edição? Acreditação: reconhecimento oficial de pessoa ou entidade para efeitos legais ou profissionais.


Verbo escalar

Qual peixe

Na sua habitual crónica no Público, Rui Tavares analisa o último vídeo de Bin Laden e escreve: «Por outro lado, Bin Laden ameaçou escalar a violência no Iraque» («No pesadelo do Barba Negra», 10.09.2007, p. 36). Percebe-se, é verdade, mas não está correcto: nenhuma das acepções do verbo escalar corresponde ao significado pretendido. Porque não «aumentar»?

Disputa linguística belga

No país dos Belgas

      Vale a pena ler a síntese da disputa linguística belga feita pela jornalista Isabel Arriaga e Cunha no Público de hoje: «As disputas linguísticas entre flamengos e francófonos são tão velhas quanto o país. Criado em 1830 depois da independência face aos Países Baixos, o novo Estado não tinha inicialmente uma língua oficial: os belgas, que grosso modo trouxeram consigo o latim do Império romano e as línguas germânicas dos “bárbaros”, falavam então sobretudo uma série de dialectos do francês e do holandês. Na prática, no entanto, o francês funcionava como língua oficial, em grande parte para marcar a distância face aos holandeses e como símbolo da coesão nacional. Era, igualmente, a língua falada pelas elites — incluindo na Flandres — deslumbradas pela cultura francesa, enquanto o flamengo, considerado um dialecto rústico, era falado na cozinha e no campo. A humilhação de que se sentiram vítimas por parte dos francófonos suscitou uma forte reacção dos flamengos e a criação de um movimento que, de defensor da língua, se foi transformando ao longo do tempo em nacionalista. O afastamento das duas comunidades ficou consolidado com a criação, em 1963, de uma fronteira linguística que consagrou o unilinguismo flamengo na Flandres, francófono na Valónia e o bilinguismo de Bruxelas (que conta, no entanto, com 80 por cento de francófonos). Em paralelo com a afirmação da língua, a Flandres passou de uma região sobretudo rural a uma das mais dinâmicas da Europa, pioneira numa série de sectores inovadores e com uma grande capacidade exportadora. Ao invés, a Valónia, em tempos rainha da siderurgia e do carvão, continua à procura de uma especialização que lhe permita travar a decadência provocada pelo fim das grandes indústrias pesadas» («Disputas tão velhas quanto o país», p. 14).

Registo linguístico

Anais e menstruais

      No Público de hoje, a jornalista Mariana Oliveira traça «A história do casal McCann»: «Nos entretantos, mais precisamente em 2004, conta o Expresso, viveram em Amesterdão, onde Gerry tirou uma especialização em Imagiologia» (p. 7). Não me parece que escrever «nos entretantos» se adeqúe ao que se espera de um jornal dito de referência. É mais próprio do telenovelesco prefeito Odorico Paraguaçu, no Bem-Amado: «Deixemos de lado os entretantos e vamos directo aos finalmentes!» A continuar assim, ainda vamos ver o Público a escrever que este caso «entrará para os anais e menstruais do País e do mundo».

Léxico: vicário

Sucedâneos seguros

«Só que o cidadão médio fica em casa, longe de qualquer ameaça ou de qualquer perigo, e se treme pela sua segurança, como dizem os jornais, treme com o gozo vicário do amador de soft-porn» («Espectáculos», Vasco Pulido Valente, Público, 9.09.2007, p. 44).

Vicário adj. (do latim vicarius, -a, -um) Que substitui outra coisa ou pessoa.

Gíria: capeador

É bom saber

«Em linguagem de rua, “era um grande capeador”. Um capeador é uma espécie de sinaleiro. Passa a vida junto a uma boca de tráfico de droga, a orientar “clientes” (toxicodependentes) para o seu “patrão” (o traficante). “Vai ao S.! O S. é que é bom!” Acumulava estas funções com as de mensageiro: detectava dois indivíduos, cheirava-lhe a polícia, gritava: “Água! Água!” Luís tinha o seu valor como mensageiro. “Via muito bem a bófia e ver muito bem a bófia é salvar o traficante.”» («Luís era um grande capeador», Ana Cristina Pereira, Público, 9.09.2007, p. 13).

Dalai-lama

Como?

«“Oficialmente, Dalai Lama não é recebido por responsáveis do Governo português, como é óbvio”, declarou a jornalistas o ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, à margem da reunião informal dos chefes das diplomacias dos Vinte e Sete, que ontem terminou em Viana do Castelo» («Governo evasivo sobre visita de Dalai Lama», Público, 9.09.2007, p. 8). O dislate não é, desta vez, do jornalista, mas do ministro. Dito assim, até parece que «dalai-lama» é o nome e não a função da pessoa, neste caso Tenzin Gyatso. Sendo uma função equivalente à de papa, substitua então o ministro um pelo outro e diga, sem se rir: «Oficialmente, Papa não é recebido por responsáveis do Governo português, como é óbvio.» O jornalista, repito, escreveu correctamente: «Instado sobre por que razões considerava óbvia a recusa do Governo de Lisboa em receber oficialmente o Dalai Lama, Luís Amado afirmou: “Pelas razões que são conhecidas.” Apesar de não ser recebido pelo Governo nesta sua segunda visita a Portugal, para uma conferência pública e ensinamentos budistas, o Dalai Lama vai manter encontros com deputados portugueses e com o alto-representante das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações, Jorge Sampaio.»

Ortoépia: transgénico

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Tens a culpa, Eufémia


Não sou, nem pouco mais ou menos, um recta-pronúncia, embora procure sempre falar bem, articulando correctamente as sílabas. Não sou, por isso mesmo, suspeito ao afirmar que estranho muito e condeno que muita gente — e especialmente, que é o que interessa aqui, pelas repercussões, os jornalistas — não pronuncie o s da palavra «transgénico». «Trangénicos», dizem eles. «Crime», digo eu. Se o s está lá, é para se ler, ou não?

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