Clareza e precisão

Não percebo

      Lê-se no editorial, assinado por Nuno Pacheco, do Público de hoje: «Agora que Kate e Gerry McCann, pais de Madeleine, foram constituídos arguidos (o que não quer dizer culpados ou réus, distingam-se os conceitos) por, diz a PJ, suspeita de envolvimento num crime de ocultação de cadáver (são estes os termos usados), é mais do que nunca necessária uma atitude prudente e distanciada da imprensa, tal como é fundamental que a polícia cumpra o que lhe é exigido desde o início neste caso, que exige respostas claras e pistas seguras e não bodes expiatórios para proveito mediático» («O caso Maddie e os riscos que ainda se corre», 8.09.2007, p. 36). Porquê a oração parentética «são estes os termos usados»? Como se os referidos termos — que suponho serem somente os últimos dois: «ocultação de cadáver» — fossem algo abstruso, de tão incomum, incompreensível para o leitor. São, quem escreve sabe-o bem, os termos da lei, o artigo 254.º («Profanação de cadáver ou de lugar fúnebre») do Código Penal. Nem a recentíssima, de 4 do corrente, vigésima terceira alteração (Lei n.º 59/2007) ao Código Penal, que é de 1982, buliu nos termos deste artigo. Logo num tempo, e esta edição do Público é particularmente ilustrativa da tendência, em que se verifica uma judicialização extrema da sociedade e dos meios de comunicação, estranha-se a estranheza.

Uso do hífen

Simples, por favor

Atenção: o jornal Público começou hoje a escrever o conjunto «casa de banho» com hífenes! «Um apito e uma lanterna para obrigar indianos a ir à casa-de-banho» (Público/P2, 8.09.2007, p. 5). Parece ser uma convicção firme, pois escreve assim onze vezes, mas recentíssima: no dia 2 do corrente, por exemplo, punha o senador Larry Craig a instar por sexo contranatura numa casa de banho convenientemente desifenizada: «Não havia outra saída para Larry Craig, um ultraconservador do Estado conservador de Idaho, após terem surgido notícias de que o senador se tinha declarado culpado de conduta lasciva por ter solicitado sexualmente um homem numa casa de banho pública de um aeroporto» («O senador anti-gay demitiu-se», Maria João Guimarães, P2, 2.09.2007, p. 7). E dois dias depois, ainda, como não, a propósito do picolho hipócrita, lá estava uma latrina do mesmo género, igualmente desataviada de hífenes: «Então não é que um senador do Partido Republicano dos EUA, conservador e puritano, anti-gay, foi preso por conduta obscena numa casa de banho de um aeroporto do Minnesota?» («A conduta obscena da lei americana», José Vítor Malheiros, 4.09.2007, p. 33). Como é que em quatro dias se esqueceram de que nas locuções substantivas o hífen é dispensável?

Estrangeirismos

Take guilt

Um leitor, Júlio Alves, avisa-me: «Já temos um chief nursing officer, por despacho do Ministro António Correia de Campos (DR, 2.ª série, 31/08/2007). Aguarda-se a nomeação do xerife (não na sua etimologia árabe…).» Fui confirmar para lamentar. De facto, na 2.ª série do Diário da República, n.º 168, lá está o Despacho n.º 19 816/2007: «Considerando a importância que tem para o País a função de chief nursing officer, no âmbito da política de enfermagem, que providencia um aconselhamento especializado nas matérias desta área da prestação de cuidados, com relevância específica no que concerne a medidas de intervenção na actuação dos enfermeiros; Considerando as qualidades pessoais e experiência profissional do enfermeiro Sérgio Gomes, mestre em Ciências de Enfermagem, designadamente o seu trabalho como representante da Direcção-Geral da Saúde nas reuniões do Chief Nursing Officers desde 2005; Considerando que o enfermeiro Sérgio Gomes se encontra actualmente a coordenar a organização da próxima Reunião Internacional para os dias 15 e 16 de Novembro de 2007, no âmbito da presidência portuguesa da União Europeia: Designo o enfermeiro Sérgio David Lourenço Gomes para chief nursing officer, competindo-lhe desenvolver as seguintes atribuições: […].»
É assim que os governantes defendem a língua portuguesa? Pergunto: não saía da cachimónia de nenhum assessor uma designação legitimamente portuguesa? O Inglês obrigatório é para isto? Na página 3 da edição n.º 13, de Julho de 2004, da revista da Ordem dos Enfermeiros, leio a seguinte nota do tradutor em relação à locução chief nursing officer: «A tradução literal “chief nurse” e “chief nursing officer” não se adequam à realidade nacional [,] pelo que optamos por adaptar a tradução à função desempenhada por estes enfermeiros na maioria dos estados-membros [sic].» A designação encontrada foi «assessor ministerial de enfermagem».

Antropónimos gregos

Clássico mas pouco

      Da recensão da obra A Civilização Grega, de André Bonnard (Edições 70), publicada por José Pedro Serra no Público/Ípsilon de hoje, extraio o seguinte parágrafo final, com interesse para tradutores e revisores: «A tradução de José Saramago é fluente e agradável, mas é inaceitável o modo descuidado como foram vertidos para português os nomes próprios gregos. De entre os muitos casos, indico apenas alguns exemplos mais flagrantes: Fénis (31) por Fénix; Nannô (88) por Nano; Árete e Cibele (130) por Arete e Cíbele; “Orésteia” (156, 168, 169, 179) por “Oresteia”; Átridas (168, 170, 171) por Atridas. No caso presente, não se trata de gralhas. Quanto aos nomes, a confusão é grande: Pártenon, ora aparece nesta grafia correcta (7, 195…), ora na incorrecta forma Parténon (193ss — ao contrário do que ocorria na tradução publicada em 1966); Eurípides, não poucas vezes, é mencionado como Eurípedes (97, 128, 134, 160…), e Erecteu aparece na grafia Erectêione (193) e Erecteion (231). Os mapas apresentam inúmeros erros, além de neles constarem designações em francês. É este mesmo descuido na edição que faz com que as poucas citações em grego estejam cheias de erros (466, 705). Esta obra justificava uma revisão cuidada dos nomes — e bastaria consultar F. Rebelo Gonçalves, “Vocabulário da Língua Portuguesa” ou Maria Helena Prieto, “Índices de Nomes Próprios Gregos e Latinos”» («A herança grega», José Pedro Serra, Público/Ípsilon, 7.09.2007, p. 39).

Neologismo: cíbrido

Misturas

«Numa decisão histórica, as autoridades britânicas tornaram-se as primeiras no mundo a aprovar o princípio da criação de embriões híbridos para fins terapêuticos. Chamados “cíbridos”, estes embriões são um misto animal-humano, com 99,9 por cento de ADN humano e 0,1 por cento de ADN animal. São obtidos introduzindo o ADN humano em ovócitos de vacas ou coelhos previamente esvaziados do seu núcleo» («Aprovada criação de embriões híbridos animal-humano», Ana Gerschenfeld, Público, 7.09.2007, p. 24). O termo vem do inglês cybrid, e é uma amálgama de cytoplasmic e hybrid.

Tratar-se de

Agora é que é

Eu sei: não podemos melhorar em tudo da noite para o dia. Iríamos assustar-nos e corríamos mesmo o risco de não nos reconhecermos. Tem de ser a pouco e pouco. Por isso, se trato pela terceira vez deste tema, não é por os jornalistas não serem seres docíveis, mas por não me lerem. Embora me assegurem do contrário. «Para Armindo Vaz e Jacinto de Farias não há qualquer dúvida: não houve quebras de segredo de confissão pois tratam-se de cartas que são “documentos fundamentais e de grande densidade”, diz o padre jesuíta» («O que é ter dúvidas quando se é a Madre Teresa», Bárbara Wong, Público/P2, 5.09.2007, p. 5). A construção tratar-se de é impessoal, pelo que apenas se conjuga na terceira pessoa do singular.

Unidade semântica

Foge, que é Portugal!

Afinal, os ratos do campo espanhóis, os simpáticos topillos, não nos invadiram. A cem quilómetros de território raiano, talvez tenham sido informados, como brincava Vasco Pulido Valente, de que em Portugal teriam de pagar impostos, que Sócrates não perdoa. Ou não teve nada que ver com isso, mas sim com as suas capacidades. Afinal, o seu nome comum é rato-cego-mediterrânico* (Microtus arvalis para os íntimos), e tal designação não se deverá certamente à excelente acuidade visual com que foram agraciados. A estas horas estarão alguns a atravessar penosamente, arrastadamente, e já lá vêm as primeiras neves, os Pirenéus, para se juntarem a Remy.

* Ah, sim, é uma unidade semântica.

Ortografia: «enviusado»

Não de viés, mas a direito

      Ontem, Jamie Oliver fez umas suculentas espetadas de tamboril. Todavia, o melhor, para mim, que não as pude provar, foi a tradutora, Isabel Caçorino, ter usado duas vezes a variante «enviusado». E ainda existe, e tão aparentemente desaparentada da palavra primitiva como aquela, a variante antiga «enviasado». Aqueles que estão sempre a falar da riqueza do léxico inglês (claro, é verdade, mas não é a nossa língua) deviam atentar nestes exemplos comezinhos mas expressivos.

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