Léxico: cecograma

Chega uma carta

A leitora Luísa Pinto pergunta-me o que são cecogramas. O termo (do latim caecus, «cego», e do grego γράμμα, «carácter») foi adoptado pelo Congresso de Viena de 1964 e é um neologismo que designa as impressões em relevo para uso dos cegos e a própria remessa da correspondência que usa esse tipo de impressão. Os cecogramas, que podem ter até 7 quilogramas, estão isentos de taxas postais.

Glossário: dos muçulmanos

Almacave m. Ant. Cemitério dos mouros.
Almádena f. Torre alta das mesquitas.
Almançor m. Ant. Epíteto muçulmano; vitorioso, invencível.
Almuadem m. Mouro que, no alto das almádenas, chama os muçulmanos à oração. (Ver muezim.)
Alquibia f. Ponto do horizonte para onde os muçulmanos se voltam quando rezam.
Axá m. Oração que os muçulmanos fazem antes de se deitarem.
Bismela f. Cerimónia árabe, invocação de Alá antes de se empreender algum acto, ou de matar um animal para comer.
Cádi m. Magistrado civil e religioso entre os muçulmanos.
Dadá m. Prelado do convento, entre os muçulmanos.
Daroês m. Religioso muçulmano que faz parte de uma comunidade.
Faqui m. Jurisconsulto muçulmano.
Hacer m. Oração que os muçulmanos fazem a Deus antes do nascer do Sol.
Hafiz m. Entre os muçulmanos, título dado aos teólogos que sabem o Alcorão de cor.
Hagi m. O muçulmano que fez uma peregrinação a Meca, cidade santa do Islão — acto religioso que cada verdadeiro crente deve realizar ao menos uma vez na vida, a não ser que seja menor, louco, ou escravo.
Hanifita m. Membro de uma das quatro seitas, consideradas ortodoxas, da religião muçulmana.
Háquimo m. Médico entre os muçulmanos.
Hatama m. Lugar do Inferno, onde, segundo o Alcorão, capítulo 104, são lançados os difamadores.
Huri f. Mulher formosa do paraíso de Mafoma, destinada na vida futura a desposar o muçulmano fiel ao culto.
Imã m. Um dos títulos que os califas se atribuíram como chefes supremos dos povos muçulmanos.│Cada um dos chefes das quatro seitas ortodoxas do islamismo.│Oficiante das orações diárias na mesquita.
Mirabe f. Pequeno compartimento ou edícula sem imagem, dentro de uma mesquita, destinado a orientar os crentes na direcção de Meca.
Moade m. Sacerdote muçulmano.│O m. q. moádi.
Moçafe ou moçafo m. O m. q. Alcorão.│Torre de onde os muçulmanos chamam os fiéis à oração.
Mocamo m. Entre os mouros, mesquita ou lugar sagrado.
Muezim m. Gal. O m. q. almuadem.
Mufti m. Nome dado aos doutores principais da lei do Alcorão, no Próximo e Médio Oriente.
Namaz ou namazi m. Oração que os muçulmanos são obrigados a fazer cinco vezes ao dia.
Salaio m. Imposto indirecto sobre o pão cozido a que eram obrigados os mouros, depois da conquista de Lisboa pelos Portugueses.
Tabi m. Nome dado, na literatura muçulmana, aos transmissores de tradições que viveram imediatamente depois dos companheiros do profeta.
Zebil f. Fonte nas mesquitas onde os muçulmanos fazem as suas abluções.
Zecate f. Esmola que todo o muçulmano é obrigado a dar.
Zeilis m. pl. Seita religiosa árabe, contrária ao islamismo, cuja lei, diz, será abolida com a vinda de um novo profeta, escolhido por Deus entre os Persas.
Zemis m. pl. Indivíduos não muçulmanos submetidos à autoridade osmanli e às leis civis e penais do islamismo.
Zendique m. Ímpio, homem sem fé religiosa, na linguagem dos muçulmanos.

[Glossário em construção] [33 entradas]

Nomes de plantas

Na serra de Sintra, com o dicionário

Apesar de termos várias serras em Portugal, sempre achei espantoso, m’espanto às vezes, como os dicionários — não, certamente, o Dicionário da Academia, m’avergonho — registam o nome de espécies vegetais que são exclusivas da serra de Sintra. Abro o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, e é ver: arre-dom-macho, bom-pastor, casceta, laboreira, marcavala, morcos-diabo, nuticana, ourovale, opática, opitimo, roça-marinha, sataria, tauncho, turvi, zenepro…

Léxico: vestição religiosa

Olhai também, Senhor...

Um leitor pergunta-me o que significa o vocábulo «vestição» no âmbito da religião, pois não o encontra em nenhum dicionário. De facto, não está em qualquer dicionário, e naqueles em que está registado não é aparece referido à religião, como sucede com o Dicionário Houaiss. A vestição religiosa é uma cerimónia, também designada vestidura e tomada de hábito, em que o postulante (ou seja, aquele que deseja entrar em determinada ordem) veste o hábito que usará durante o seu noviciado, que é o período probatório antes de pronunciar os votos, simples ou solenes, religiosos. Aproveito para informar os meus leitores de que publicarei brevemente um glossário de termos relacionados com a religião com cerca de 500 entradas.

Etimologia: Benfica e malária

Anófeles fora de Benfica

Moro em Benfica, isso já toda a gente sabe. O que muitos desconhecerão é a etimologia deste topónimo. Ao que parece, vem de bem + fica, pois o território era antigamente um vale fértil atravessado por um curso de água. Era, pois, um local aprazível, onde se ficava bem. Os ares eram bons. Exactamente o contrário da malária. Até ao final do século XIX, acreditava-se que a malária era transmitida pelo ar, daí a designação, que provém do italiano mal aria, «mau ar». Aliás, outro nome da doença, paludismo, também dava a entender tratar-se de algo relacionado com o ar: palus significa, em latim, lagoa, pântano, e o termo referia-se ao ar miasmático que neles se respirava. Uma terceira designação, sezão, não está muito longe destas crenças: provém do vocábulo latino accessione, «acesso de febre intermitente», cruzado com sazão (satione-), «estação do ano».

As palavras e a lei

Isto e aquilo

Não é raro falar-se nas faculdades de Direito da deficiente técnica legislativa, censurando-se muitas vezes que a redacção das leis seja entregue a pessoas formadas, se formadas são, noutras áreas do saber. De facto, pôr engenheiros a fazer leis é tão mau e perigoso como pôr advogados a construir pontes. Infelizmente, esta comparação somente servirá de lição quando virmos pontes concebidas por advogados, o que até hoje ainda não aconteceu. A propósito de técnicas legislativas, trago hoje um exemplo de falta de clareza do texto da lei, mas aqui intencional, atribuível à pudicícia carminada dos tempos. Trata-se da Portaria n.º 69 035, datada de 1953, da Câmara Municipal de Lisboa, a propósito dos bons costumes em locais públicos. Eis o texto:
«Verificando-se o aumento de actos atentatórios à moral e aos bons costumes, que dia a dia se vêm verificando nos logradouros públicos e jardins e, em especial, nas zonas florestais Montes Claros, Parque Silva Porto, Mata da Trafaria, Jardim Botânico, Tapada da Ajuda e outros, determina-se à Polícia e Guarda Florestais uma permanente vigilância sobre as pessoas que procurem frondosas vegetações para a prática de actos que atentem contra a moral e os bons costumes. Assim, e em aditamento àquela Postura n.º 69035, estabelece-se e determina-se que o art.º 48.º tenha o cumprimento seguinte:

1.º Mão na mão...............................2$50
2.º Mão naquilo..............................15$00
3.º Aquilo na mão...........................30$00
4.º Aquilo naquilo...........................50$00
5.º Aquilo atrás daquilo...................100$00

Parágrafo único
Com a língua naquilo, 150$00 de multa, preso e fotografado.»

Topónimo: Goreia

A ilha dos escravos

      Os topónimos estrangeiros por vezes dão a volta à cabeça das pessoas. Sobretudo dos revisores. Há certo tempo, um autor insistia em escrever «Gorée», a pequeníssima ilha ao largo de Dacar que foi entreposto de escravos e é actualmente Património Mundial da Humanidade. Descoberta em 1444 pelos Portugueses, o nome foi-lhe dado pelos Franceses, que se assenhorearam dela no final do século XVII. De então para cá, decorreu tempo suficiente para o topónimo ter sido, como foi, aportuguesado para Goreia. Em Fevereiro de 1992, o Papa João Paulo II visitou a ilha, pedindo então, em nome dos Europeus, perdão por todo o mal causado a África ao longo dos séculos. Também George W. Bush esteve, em 2003, na Goreia, assim como, antes dele, Bill Clinton. Durante a visita de Bush, as autoridades de Dacar decidiram limpar as ruas de vendedores e de outras personagens igualmente conspícuas, concentrando-as num campo de futebol. Que ironia. Como acto simbólico, a visita é muito comovedora, sim, mas o pior é o que os Estados Unidos fizeram e continuam a fazer em África. O Darfur é um exemplo bem claro.

Pele e casca

Cascas de alhos

Há muito anos, vi o cozinheiro basco Karlos Arguiñano, o mais criativo que alguma vez conheci, explicar a diferença entre pele e casca nos alimentos. Uma amêndoa, por exemplo, tem casca; o pêssego, pele. Porquê? Bem, explicava ele, «casca»* tem origem onomatopaica: se faz cás, cás, o alimento tem casca e não pele. Na verdade, a casca da banana, por exemplo, não é suficientemente dura para produzir esse som. Nem a casca da laranja. Nem a da batata (aliás, as batatas também se depelam). Mas o ovo tem, em conformidade com a teoria e na prática, casca, como a têm os amendoins, o caju, as nozes, os pistácios… Os alhos e as cebolas também têm casca. Às línguas, é um facto consabido, falta lógica.


* Alguns dicionários indicam como presumível étimo o latino *quassicāre, de quassāre, golpear.

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