Léxico: engrotar

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O nome e a coisa

Claro que não há uma correspondência perfeita entre coisa e nome, além de que existe uma interferência negativa que é a polissemia. Contudo, numa língua rica, a aproximação é maior. Pensemos numa ampulheta ou relógio de areia. Quando o monge Luitprand, seu suposto inventor, a concebeu no século VIII, decerto que não pensou — não era essa a sua preocupação — como designar o acto de o orifício de passagem da ampulheta se obstruir. A língua portuguesa, porém, regista esse vocábulo: engrotar. A ampulheta engrotou. Na realidade, nem sempre nas ampulhetas se usou areia, tendo-se recorrido a outros materiais como pó de mármore, cascas de ovo moídas, etc., o que a tornava mais susceptível de se obstruir.

Léxico: terródromo

Pistas

Não fora a acção da benemérita ASAE (Autoridade de Segurança Alimentar e Económica), que conhecemos sobretudo das fiscalizações espectaculares em que atemoriza ciganos e chineses, e muitos de nós não saberiam que existe a palavra «terródromo». Um terródromo é uma pista de terra. Esta em concreto, a fiscalizada pela ASAE, situa-se no concelho de Arraiolos e tem 13 quilómetros de extensão.

Gentílicos e topónimos

Quem diria

Dá que pensar a importância que as palavras têm. Quando o imperador Gia Long (1762-1820) optou por denominar o seu país unificado de Nam Viêt, não sabia que o imperador da China não iria permitir tal designação, pois, em sua imperial e celeste opinião, evocava — ó sacrilégio! — o reino chinês do século III a. C. Nam Viêt Dong. Gia Long, que foi decerto um monarca inteligente, resolveu inverter os termos: Viêt-Nam. Oficialmente, agora, Cộng hoà Xã hội Chủ nghĩa Việt Nam.
No campo dos gentílicos, o termo «polaco» é paradigmático do peso cultural dos vocábulos. Tido entre nós, Portugueses, como mais uma mera idiossincrasia brasileira, a variante «polonês» explica-se pelo facto de, no começo do século XX, o proprietário do Cas(s)ino da Urca (onde Carmen Miranda usou pela primeira vez, em 1938, o traje de baiana), no Rio de Janeiro, ter levado prostitutas europeias para trabalhar no seu estabelecimento. Como estas mulheres eram, na sua maioria, loiras como as «polacas» do Sul do Brasil, a população começou a chamar-lhes polacas. «Filho da polaca» passou a ser o mesmo que «filho da puta». Em 1927, o embaixador da França no Brasil terá sugerido ao cônsul-geral da Polónia em Curitiba o uso do termo «polonês» (do francês polonais) para designar o natural da Polónia, evitando assim o pejorativo «polaco».

[Para um estudo aprofundado desta questão, ver
aqui.]

Glossário: sapateiro

Alma m. Peça de couro colocada entre a palmilha e a sola do calçado para a reforçar.
Alargadeiras f. pl. Formas de pau para alargar calçado; encóspias.
Aquentador m. Utensílio de folha para aquecer ferros de sapateiro.
Bisegre m. Instrumento de sapateiro, feito de buxo, e que serve para brunir os saltos e bordas da sola do calçado.
Brocho m. Prego curto, sem cabeça, para calçado.
Bucha f. Peça de madeira roliça, com que os sapateiros brunem as solas do calçado.
Cerol m. Mistura de sebo, pez e cera, com que os sapateiros enceram as linhas.
Chanqueta f. Calçado sem contraforte no calcanhar ou com o contraforte acalcanhado.│Dobra no talão do sapato.
Costa f. Pequeno utensílio de pau, também chamado alisador, com que o sapateiro brune a sola do calçado.
Empenha Ant. s. O couro necessário para o rosto e lados de um sapato.│Remendo lateral de um sapato.
Encospiar v. Meter as encóspias no calçado; enformar.
Encóspias f. pl. Peças que os sapateiros metem no calçado para o alargar.
Enfranque m. A parte côncava do calçado, correspondente aos dois selados laterais do pé.
Entressola f. Peça entre a sola e a palmilha do sapato.
Entretação f. Cada uma das capas que constituem o salto do calçado.
Floreta f. A parte do rosto da bota que pega com o cano.
Francalete m. Peça, constituída por alguns pedaços de sola, que se coloca no enfranque para lhe dar rijeza e compor o feitio da sola.
Gáspea f. Parte dianteira do calçado.
Gogo m. Prov. tras. Pedra lisa, sobre a qual os sapateiros batem sola.
Linhol m. O fio untado de cerol com que os sapateiros cosem o calçado e que também serve para coser lona e várias coisas.
Malhana f. Provinc. alent. Martelo usado pelos sapateiros.
Manica f. Espécie de luva de couro que usam os sapateiros e os correeiros para não se cortarem com o fio; manícula.
Orelha f. A ponta de cabedal que num sapato fica sobre o peito do pé e pela qual se puxa ao calçá-los.
Parinho m. Trabalho manual de sapataria.
Poupa-solas m. Nome vulgar e popular de certo preparado para aumentar a duração da sola do calçado, dando-lhe mais resistência e menos facilidade de absorção de água, tapando-lhe os poros.
Puia f. Pequeno prego ou tacha usada pelos sapateiros.
Remonte m. Renovação ou substituição do rosto ou parte anterior do calçado, quando já está deteriorado, por outro de cabedal novo.
Revirão m. A vira de trás do calçado ou a vira de entranhar; também se chama virola.
Rocedão m. Fio com que o sapateiro liga o cabedal em volta das formas.
Roedura f. Ferimento nos pés, feito pelo atrito do calçado.
Solagem f. Operação que consiste em assentar a sola no calçado.
Sovela f. Instrumento constituído por uma espécie de agulha direita ou curva e encavada com que os sapateiros e os correeiros furam o cabedal para coser.
Sovelão m. Grande sovela.
Tala f. Tenaz de madeira, usada pelos sapateiros.
Tanseira f. Cada uma das peças laterais e posteriores da bota, colocadas acima da gáspea, e nas quais se prende a presilha.
Tirapé m. Correia de couro, com que os sapateiros seguram a obra sobre a forma.
Trincafio m. Linha de sapateiro.
Trinchete m. Faca de sapateiro terminada em faceta e mais ou menos curva.
Tripeça f. Fig. Ofício de sapateiro.
Vira f. Tira estreita de couro que se cose ou se prega entre as solas do calçado, junto às bordas destas.
Virola f. A primeira peça do salto do calçado, também chamada, em algumas oficinas, revirão.

[Glossário em construção: 40 entradas]

Círculo e ciclo

Viciosos e virtuosos

«Ciclo de amigos»? Já bastou ter de aturar alguém a resmungar que não se diz, «que estupidez», «círculo vicioso». Mas diz, é esta a expressão consagrada. E, argumento de analogia, é assim em várias línguas. «Após a divulgação nos media de que a criança poderia ter sido morta na casa onde passavam férias e a viatura dos MacCann* ser submetida a uma perícia, juntamente com as do seu ciclo de amigos, as suspeitas atingiram também os pais de Maddie» («Pais de Maddie mais reservados em relação à PJ», Idálio Revez, Público, 9.8.2007, p. 8).

* «Dos MacCann»? Em que língua é que isto está escrito? Em português não é, certamente, e em inglês a regra também é pluralizar os apelidos. Basta ver: «Truth, lies and the smearing of the McCanns» (The Independent); «100 days on, and the agony sharpens for the McCanns» (The Observer); «Emotional Farewell For The McCanns» (Sky News).

Léxico: «brontocrata»

Olha quem fala

Ao que parece, foi o actual presidente do Senegal, Abdulaye Wade, quem cunhou o termo «brontocrata», em referência aos dirigentes que estão há muitos anos no poder: Robert Mugabe, Félix Houphouet-Boigny, Yoweri Museveni… E ele sabe do que fala, não tanto por estar há muitos anos na presidência (embora esteja na política desde 1974), mas por ter sido reeleito, em Fevereiro, para o cargo, que ocupa desde 2000, tendo 80 anos. Só falta ceder à última tentação: alterar a constituição para poder concorrer a um novo mandato, prática a que são atreitos muitos líderes africanos.

Tradução: «scarlet letter»

Falemos de cores e não de cor

A locução scarlet letter, encontrável no corpus legal anglo-saxónico, tem origem no título homónimo da obra de Nathaniel Hawthorne. Nos EUA, vigora actualmente uma lei que impõe uma scarlet letter: «a license plate that indicates the automobile’s owner has been convicted of driving while drunk». Num dicionário online, pode ler-se: «Etymological Note: This is a more specific sense of scarlet letter ‘a badge or symbol worn to indicate the bearer has committed a crime,’ often used figuratively. It originated in Nathaniel Hawthorne’s 1850 book The Scarlet Letter, in which a scarlet-colored A was worn as punishment for adultery.» Para o leitor português, tal locução pouco significará, mesmo que se lhe acrescente o qualificativo «internacional». (Claro que não ajudará nada que, entre nós, o título da obra-prima de Hawthorne tenha sido traduzido por «A Letra Escarlate» e «A Letra Encarnada». Como traduzirão scarlet fever? «Encarnadina»?) Um exemplo: se o Conselho de Segurança das Nações Unidas congela os bens e proíbe alguém (habitualmente um ditador ou um criminoso de guerra) de viajar, isso é o equivalente a uma «international scarlet letter». Equivalente, ou seja, a locução não faz parte da linguagem jurídica internacional. A scarlet letter é um estigma.

Etimologia: «pelouro»

À lei da bala



      «Pelouro» é, convenhamos, uma boa palavra, de sabor antigo. Inicialmente, um pelouro era apenas uma bala de pedra ou de metal usada nas antigas peças de artilharia. Nem mais. Leia-se Camões n’Os Lusíadas: «Com toda hũa coxa fora, que em pedaços/Lhe leva um cego tiro que passara,/Se serve inda dos animosos braços/E do grão coração que lhe ficara;/Até que outro pelouro quebra os laços/Com que co alma o corpo se liara:/Ela, solta, voou da prisão fora/Onde súbito se acha vencedora.» Estes eram pelouros que os vereadores desdenhariam, ou, quando muito, apenas apreciariam como pesa-papéis, nunca como meio de verearem fosse onde fosse. Como é que então de uma bala de pedra ou de metal se passou para a designação dos sectores da administração de um concelho ou freguesia? Pois muito simplesmente porque os pelouros também eram bolas de cera ocas em que se introduziam os votos para a eleição do juiz ordinário e vereadores da governação local. Estes pelouros eram depois guardados na arca dos pelouros.

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