Tradução: «breech birth»

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Assim já percebo

O que é breech birth, em português? Será caso para dizer, como Santo Agostinho a propósito do tempo, se não mo perguntarem, sei? Talvez não, mas o certo é que em pouco tempo o vi traduzido de duas formas: «parto de nádegas» e «parto pélvico». E até, mas já numa pesquisa na Internet, «parto falhado». Estarão todos correctos? Apenas dois? Somente um? Nenhum?
Comecemos por este último. «Cerca de 97% dos bebés nascem saindo primeiro a sua cabeça. O esqueleto do feto é suave e flexível, o que ajuda a cabeça a passar pelo canal vaginal. No entanto, 2,4% dos bebés nascem primeiro pelos pés; isto é chamado de nascimento falhado (breech birth)» (Ver aqui.) Não se me afigura um termo técnico, e até o reputo equívoco. Em relação à primeira locução, «parto de nádegas», precisamos de ver a definição inglesa para a aferirmos. «Before birth, most babies are in a head-down position in the mother’s uterus. That’s why most babies are born headfirst. Sometimes the part of the baby that is head down is not the head, but the buttocks or the feet. When a baby is in that position before birth, it’s called a breech birth or breech baby» (in Familydoctor.org). Logo, se é «the buttocks or the feet», «parto de nádegas» não é correcto, pois só contempla metade da definição.
Finalmente, «parto pélvico». Foi num laudo médico, subsumido num acórdão, que encontrei, claríssima, a definição: «A referida parturiente compareceu no serviço de urgência, a conselho do seu médico assistente que lhe recomendara que o fizesse quando sentisse o momento do parto: o que fez levando consigo os exames que fizera anteriormente, tendo sido logo constatado pela enfermeira de turno de que tipo de parto se tratava (parto pélvico). O parto pélvico é um parto de risco e o médico tem que decidir, em primeiro lugar, se vai proceder a cesariana, que se apresenta como recomendada em situações como tais. E, respondida negativamente a esta primeira questão, necessariamente precedendo observação feita pelo médico, este, tendo em atenção que a apresentação se pode dar de “nádegas” ou de “de pés”, mas sempre com a “cabeça última”, com as dificuldades inerentes, com eventuais problemas com o cordão umbilical, dada a posição da apresentação, tem de acompanhar cuidadosamente a evolução da situação» (Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, n.º SJ199301070427473, de 7 de Janeiro de 1993).
Só conhecia, e há muitos anos, um termo relacionado com a questão e que nos veio directamente do latim: «Agripa, adj. 2 gén. (do lat. agrippa). Diz-se da criança que, ao nascer, apresenta primeiro os pés» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado). Entre os Romanos, alguns nomes comuns transformaram-se em prænomina, como este agrippa: veja-se, por exemplo, o general e político romano Marcus Vipsanius Agrippa (63-12 a. C.). Por circunstâncias ligadas ao nascimento, outros prænomina tiveram a mesma génese, como Caeso, que significava «cortado do útero», Posthumus, «nascido depois da morte do pai», Spurius, «protegido» (e depois, numa cambalhota semântica, «ilegítimo»), e muitos outros. Voltarei aos prænomina romanos, se os meus leitores acharem útil.

Léxico: «celíaco»

Glutão?

      Actualmente, a maioria dos pais está familiarizada com a palavra «glúten» (embora uma parte a possa confundir com o glutão do Presto). Até os pedófobos que preferiam ver as criancinhas fora dos locais públicos a conhecerão. Contudo, já será uma minoria a conhecer a palavra «celíaco», com a qual se designa aquele que é intolerante ao glúten. Parece ter sido um médico grego do século II, Aretaeus da Capadócia, quem descreveu a doença e lhe deu nome: koiliakos (κοιλιακος) → coeliacus → celíaco. «Aquele que sofre do intestino». Isto porque um dos possíveis sintomas (sendo que também pode ser assintomática) é a diarreia. É curioso ver como a doença tem uma entrada própria (com remissão para «Fluxo do Ventre») no Novo Ministro dos Enfermos, um «Opúsculo Canónico, Moral e Apologético, em Defesa da Doutrina do Sumo Pontífice Bento XIV, Sobre a Repetição do Sagrado Viático», publicado pelos padres da Congregação de S. Camilo de Lelis em Lisboa, em 1817. «Fluxo do Ventre — Dejecção frequente de humores, ou materias liquidas pelo ano. Tem differentes nomes segundo a differença dos liquidos, ou materias: Quando são estercorosas, chamase Diarrhêa; sendo cruas, e indigestas, e sahem logo depois de comer, ou beber, chama-se Lienteria; se são chilosas, cinzentas, ou albicantes, Celiaco; sendo sanguinolentas, Fluxo de sangue, que he de especies, Dysenteria, Fluxo hemorroidal, e Fluxo hepatico

Plural dos apelidos

Imagem: http://www.allocine.fr/

Os Simpsons e os Silvas

      Os colegas do Le Monde (excelente blogue, excelente serviço. Propus algo semelhante a um jornal português em Maio de 2006. Ainda não me responderam) publicaram um post sobre a pluralização dos apelidos, matéria já aqui tratada em duas ocasiões. Embora a regra não seja inteiramente coincidente com a portuguesa, creio que vale a pena conhecer o texto. Aqui fica.

«Le beignet des Simpson n’est pas une couronne

      Même si des considérations artistico-financières entrent en jeu pour donner une suite aux Simpson, cette famille moyenne(ment tranquille) n’est pas encore une dynastie : on écrit donc son nom sans “s” final. Mais chez les Bourbons, les Stuarts, les Tudors, les Gracques, les Curiaces (inséparables des Horaces)……, en voilà de l’illustre, du princier, de la suite dans les royales idées. Avec des histoires de famille tout aussi rock’n’roll.»

Glossário: compostos de «self»

Self

Só temos um problema com os compostos ingleses de self: muitas vezes, não encontramos o próprio pospositivo nos dicionários. E nem sempre o termo é auto-explicativo, pese o self. Nos nossos hábitos linguísticos apenas está, e desnecessariamente, o self-service, que alguns julgam superior ao auto-serviço, prestando assim um desserviço à língua. Com este glossário, somente de termos que vou encontrando nas traduções, pretendo ajudar na tarefa de tradução dos vários profissionais da escrita. De caminho, mostro como se deve usar o antepositivo auto. À semelhança de muitos outros glossários que tenho publicado, começará por ser pequeno, mas crescerá ao longo do tempo.

self-absorbed: ensimesmado; autocentrado
self-absorption: introspecção; auto-absorção
self-advancement: desenvolvimento pessoal
self-affirmation: auto-afirmação
self-aggrandizement: auto-enaltecimento
self-analysis: auto-análise
self-anointed: autonomeado, autodeclarado
self-appointed: autonomeado
self-appraisal: auto-avaliação
self-assembled: automontado
self-assertive: autoritário
self-assured: seguro
self-assuredness: segurança
self-aware: autoconsciente
self-awareness: autoconsciência
self-centred: egocêntrico
self-concentration: autoconcentração
self-concocted: autoforjado
self-confidence: autoconfiança
self-congratulatory: presunçoso
self-conscious: autoconsciente
self-control: autocontrolo
self-correcting: autocorrecção
self-corrective: autocorrectivo
self-damaging: autolesivo
self-deception: auto-engano
self-definition: autodefinição
self-delusion: auto-ilusão
self-denial: despojamento
self-depiction: representação
self-depreciation: autocomiseração
self-described: autodesignado
self-description: autodescrição
self-destructive: autodestrutivo
self-determination: autodeterminação
self-diffusion: autodifusão
self-discipline: autodisciplina
self-discovery: autodescoberta
self-doubt: insegurança
self-dramatisation: autodramatização
self-dramatiser: autodramatizador
self-enhance: montar-se a si próprio
self-esteem: amor-próprio (esqueçam a «auto-estima»)
self-estimate: auto-apreciação
self-evidence: auto-evidência; evidência implícita
self-evolving: auto-evolutivo
self-executing: de aplicabilidade imediata
self-existent: auto-existente
self-explanatory: auto-explicativo; evidente
self-expression: auto-expressão
self-expressive: auto-expressivo
self-fulfilling: auto-realizador; auto-realizável; autovalidado
self-generation: autogerador
self-giving: abnegação
self-governance: autodeterminação
self-harm: automutilação
self-heal: autocura
self-healing: autocura
self-help: auto-ajuda
self-image: auto-imagem
self-importance: auto-importância
self-important: cheio de si; presunçoso
self-imposed: auto-imposto
self-indulgence: autocompaixão
self-indulgent: autocomplacente; auto-indulgente
self-injury: ferimentos auto-infligidos
self-interest: egoísmo, interesse pessoal
self-justifying: autojustificativo
self-knowledge: autoconhecimento
self-learning: auto-aprendizagem
self-mockery: auto-ironia
self-mutilation: automutilação
self-pity: autocomiseração
self-pitying: autocompadecido
self-possessed: seguro de si
self-preoccupied: egocêntrico
self-presentation: auto-exibição
self-preservation: autopreservação
self-proclaimed: autoproclamado
self-proclaiming: auto-afirmação
self-promotion: autopromoção
auto-propelling: autopropulsor
self-protection: autoprotecção
self-punishment: autopunição
self-quotation: autocitação
self-rating: auto-avaliação
self-recrimination: auto-recriminação
self-referential: auto-referente, auto-referencial
self-reflective: introspectivo
self-regarding: amor-próprio
self-regulation: auto-regulação
self-regulatory: auto-regulador
self-reinvention: auto-reinvenção
self-reliance: autoconfiança
self-reliant: autoconfiante
self-replicating: auto-replicante
self-replication: auto-replicação
self-reporting: auto-avaliação
self-reproach: autocrítica
self-reproducing: auto-reprodutivo
self-reproduction: auto-reprodução
self-respect: amor-próprio
self-restraint: autocontenção
self-righteous: sobranceiro; arrogante
self-rule: autogoverno
self-sacrifice: auto-sacrifício
self-sacrificing: abnegado
self-satisfaction: auto-satisfação
self-seeking: egoísta
self-serving: interesseiro, egoísta
self-shaping: automodelação
self-similarity: auto-semelhança
self-styled: original
self-sufficiency: auto-suficiência
self-sufficient: auto-suficiente
self-taught: autodidacta
self-torture: autoflagelação
self-understanding: autocompreensão
self-voiding: autocontraditório
self-worth: autoconfiança

[Em construção: 119 entradas.]

Balcãs

Cosmopolitismo

Talvez por estar, anacronicamente, na Sociedade das Nações, Nuno Rogeiro diz sempre «Balkans». Ora, sendo notoriamente a pessoa que em Portugal mais usa a palavra, convinha que a dissesse em português, porque — já reparou? — na nossa língua também existe. O termo «Balcãs», de um étimo turco que significa «viscoso de sangue», começou a ser usado na Europa Ocidental no século XVIII.
Esta cadeia montanhosa, parte dos Cárpatos, tinha, na Antiguidade, o nome de Haemus mons, que agora só existe na Lua. Os (supostos, supostos) habitantes da Lua são os selenitas. Lunáticos e nefelibatas, só na Terra. Camilo Pessanha. O efidro (Ctesíbio!) é o recipiente superior da clepsidra. Gnómon. Os erros d’O Código Da Vinci. Cloux. Clos. Natália Correia. Ary dos Santos. Outra vez em casa. Sim, associação de ideias. Policiário. É do calor, estão 40 ºC em Lisboa.

Rio Tamisa ou Thames?

Livre de Estilo

Não deixo de lamentar os nove mortos causados pelas cheias no Reino Unido. Mas, para já, preferia que Anabela Mota Ribeiro, correspondente da Antena 1 em Londres, dissesse «Tamisa». Diz «Thames», o que pode ser uma escolha. Mais surpreendente ainda: certa vez, uma professora de Inglês ergueu as sobrancelhas quando eu disse «Tamisa». Ignorava, confessou. Contudo, até os dicionários etimológicos ingleses registam: «The Thames is first mentioned in English around 893 in King Alfred the Great’s Orosius. At the time it was called the Temese, a form believed to come from an earlier, unrecorded English *Tamisa.» Noé Monteiro, enviado especial da RTP ao Reino Unido, diz «Tamisa». Bem podemos dar-lhe os parabéns: noe.monteiro@rtp.pt. Tanto a um como ao outro, ouvi-os na Antena 1. E ainda que assim não fosse: afinal, trata-se da Rádio e Televisão de Portugal. Diz-se agora que o «processo de discussão» do Livro de Estilo da redacção da RDP se inicia até ao fim do ano.

Etimologia: quórum


The truth is not a matter of majority opinion, even of near-unanimity. On contrary.
George Steiner

Depois de uma reunião


E já que usei o vocábulo «quórum» no penúltimo texto, aproveito para dizer donde vem. Nos corpos colegiais da antiga Roma, cada novo membro era recebido mediante a fórmula «quorum vos unum esse volemus» — dos quais queremos que tu sejas um. Por vezes, na verdade, não queremos tal, e até preferíamos que o indivíduo pertencesse a outra associação, a outro condomínio, a outra assembleia. A outro país, a outro continente. A outro universo. «Pensa mal das pessoas, não te enganarás», recomendou Cesare Pavese. Em italiano soa melhor: Pensa mal, non ti sbaglierai.

Semântica: trovador

Procura e achar-me-ás

O que é um poeta senão um achador? Achador de modos de expressão, de ideias originais. Pois os trovadores provençais e galego-portugueses faziam isso mesmo e o nome reflectia-o, já que «trovador» vem do provençal trobador, achador, do verbo trobar. Aliás, em catalão (assim como nos vários dialectos do aragonês, mas não no galego, e em castelhano somente como termo antigo) ainda hoje o verbo trobar significa também «descobrir una cosa que hom cercava». Vol vendre’s la casa, però no troba comprador. O vocábulo passou a fazer parte do catalão no século XII e, segundo o Gran Diccionari de la LLengua Catalana, terá vindo do latim vulgar *tropare, variante reduzida do latim tardio contropare, «falar figuradamente, comparar», derivado do latim tropus, e este, do grego tropos, «figura retórica»(1). De «criar, inventar formas poéticas» passou a «inventar, descobrir», em geral. Em termos semânticos, é próximo do latino invenire, que também significa encontrar algo e criar literariamente.



(1) Entre nós, Rodrigues Lapa afirma o mesmo, discordando assim dos que vêem o étimo em turbare. Contudo, até do ponto de vista fonético *tropare se afigura mais provável. Tem sido desde sempre questão muito controversa.

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