Chegar, verbo pessoal

Chega-me aí uma gramática

Mário Crespo perguntou anteontem, no Jornal das Nove (Sic Notícias), ao deputado social-democrata Miguel Relvas: «Chega dois candidatos?» A resposta não interessa nada; a pergunta, muito. Está mal formulada, enferma de um erro comum. O verbo chegar concorda com «dois candidatos», porque não é impessoal. Pode variar em pessoa e número concordando sempre com o sujeito. Aquilo que chega ou não é o sujeito sintáctico do verbo. Erro a fazer lembrar outro, o do verbo faltar, já aqui duas vezes referido. Estes dois e ainda o verbo bastar, todos grandes vítimas de atropelos, são verbos pessoais. Bastavam mais uns votos para o candidato ser eleito. Basta um candidato. Faltam cinco meses para o fim do ano. Falta um condómino para termos quórum. Chega um pacote. Chegam dois candidatos?

Etimologia: gaforina, marrafa

Retrato de Elisabetta Gafforini: http://purl.pt/

Pilosidades


É interessante ver como a partir de certa altura a moda passou a consagrar o nome de certas figuras da sociedade. Quando hoje usamos o termo «gaforina», a quem ocorre logo que provém do nome de uma soprano italiana, Elisabetta Gafforini, que passou no início do século XIX pelo Teatro de S. Carlos? Tirando o penteado espalhafatoso, só sabemos que era senhora de uma voz límpida, ressonante e dúctil. Eça de Queirós, nas Cartas de Paris (II), usa o termo: «A sua aparência era hoffmânica; duas longas pernas de cegonha triste, olhos rutilantes numa face ascética e uma gaforina descomunal, crespa, revolta e cor de estopa.» E, antes, já António Feliciano de Castilho o fizera: «— Acabou-se a tua enfiada de despropósitos? — perguntou D. Luís, dando em face do espelho o último toque de pente à gaforina e ao bigode» (Mil e Um Mistérios, Capítulo XXII).
Nos cortes masculinos, foi o dançarino italiano Marraffi, que também passou pelo Teatro de S. Carlos, ainda no final do século XVIII, que deu o nome à marrafa. Antes, para as mulheres, os penteados à Pompadour tinham estado em voga. Mas ainda o cabelo. À escovinha, à garçonne, à inglesa, à máquina zero, à tigela, afro, carapinha, carrapito, grenha, guedelhas, juba, madeixa, mecha, melena, poupa, rabo-de-cavalo, repas. Rente. E as tranças, os totós e os bandós. Intonso. As cãs, os caracóis e as ondas. E o cabelo de Medusa transformado, por castigo, em serpentes. E o cabelo de Sansão. E os capachinhos e chinós. E o peyos dos judeus. E o sendi dos hindus. E dos iogues o xendi. E o chindim no alto da cabeça. E o rabicho dos antigos chineses. E os bigoudis («“Papelotes”, vizinha, diz-se “papelotes”!»). E o contrário disso: os calvos. Glabros. Glabriúsculos. Glabérrimos. E a tonsura. Para ficarmos ainda em França, foi lá que nasceu o general Louis-Eugène Cavaignac (1802-1857), que deu nome ao cavanhaque, agora quase esquecido. E as peras, a barba passa-piolho (como a do presidente do Sindicato dos Jornalistas, Alfredo Maia), as suíças, a costeleta, as favoritas e as patilhas. E o bigode calamistrado. E as guias enceradas. E Hanun, que rapou metade da barba dos servos de David. E os leigos ou conversos barbati. Nome feminino a condizer com este texto é Madalena, que vem do hebraico e significa «a dos cabelos penteados». Mas não vale a pena chorar nem ficar pelos cabelos.

Ortografia: cardiorrespiratório

Da falência do tojo

«Isabel sofreu queimaduras de segundo e terceiro graus em 55 por cento da superfície corporal, que foram determinantes de um quadro de choque séptico, com falência multiorgânica, que lhe provocaram uma paragem cardio-respiratória e a sua morte, nos Hospitais da Universidade de Coimbra» («Vinte anos de prisão para professor que regou ex-namorada com gasolina e ateou o fogo», António Arnaldo Mesquita, Público, 19.07.2007, p. 13). Todos os dicionários que consultei registam «cardiorrespiratório». A «falência multiorgânica» é escusado jargão médico. Por mim, e suponho que por todos os leitores, trocava-o de bom grado pela correcção da grafia. E, já agora, se não fosse pedir demasiado, também teria sido bom que não se dissesse um disparate como este: «O acórdão salienta que, inconformado com a renitência da ex-namorada em manter o relacionamento amoroso, o professor atirou Isabel para cima de uns arbustos e tojos.» O que julga o jornalista que são tojos? Fósseis? Tojo e arbustos é tudo arbustos — não é preciso ser-se licenciado em Botânica para o saber. É só, pergunta o leitor? Não, não é: a começar pela diferença de regência do verbo atear no título e no corpo da notícia, passando pela «superfície corporal» (que qualquer médico-legista não enjeitaria), muito havia a alterar.

Regência do verbo «atender»

Realmente

      «01h25 — Ambulância chamada ao clube Tiger Tiger, em Haymarket, para atender a uma pessoa doente. Os tripulantes vêem fumo sair de um Mercedes estacionado próximo» («Cronologia da investigação», Susana Moreira Marques, Público, 30.06.2007, p. 16). Na escrita jornalística, não é muito vulgar esta regência, correctíssima, do verbo atender — no sentido de prestar apoio, cuidar de —, em que surge como transitivo indirecto.

Bordões da linguagem

Magister sic dixit


      Quantas vezes é que Telmo Correia diz «oiça» no decorrer de uma entrevista? Oiça, nem eu sei, e ele não tem consciência, oiça. Parece ser, oiça, uma marca de pertença à fina-flor, à nata da sociedade, oiça. Sobretudo, parece imitação da linguagem fática de Paulo Portas, oiça. E o discurso segmentado, a ênfase em certas palavras, o uso de certos vocábulos é modo mui portiano de falar. Mais do que Magister dixit, é magister sic dixit. Se me faltassem objectos de estudo, diria que foi pena ter perdido. Claramente.

Português fundamental

A esmo

«Não afiançou, em Cuba, Otelo Saraiva de Carvalho que as Forças Armadas Portuguesas iriam participar no desenvolvimento do Norte do país onde, segundo ele, existiriam localidades cujos “habitantes têm um vocabulário inferior a 500 palavras”?» («ATL», Helena Matos, Público, 19.07.2007, p. 44). Estimativa ou caricatura? Quinhentas palavras — ou seja, aproximadamente um quarto do designado «Português Fundamental», de que dez anos mais tarde comecei a ler na imprensa. Lemos em Fernando Venâncio ecos desta, hoje esquecida, questão: «Foi ainda em 1984 que cometi o meu segundo grande erro por confiar na humanidade. Dera eu tempo, durante meses, a que se atentasse criticamente num projecto linguístico de que saíam os primeiros frutos, e que eu, e por certo muita gente, longos anos acalentara: aquele que vinha estabelecer o “Português Fundamental”. Se hoje não se sabe já o que isso era, a culpa em parte é minha. Mas o próprio acontecimento — e dizer que ele era de importância suma — a quase ninguém ocupou. Recordo apenas Afonso Praça e Luiz Fagundes Duarte.
Tomei, pois, várias e preciosas páginas de jornal para mostrar, desolado, a inanidade dos resultados dessa investigação já longeva e porventura cara. Pretendera-se nela (e isso era apenas um começo) apurar os cerca de dois mil vocábulos mais frequentes no nosso português, operação decerto quantitativa, mas destinada a demonstrar, no plano da qualidade, marcados méritos, ao facilitar a planificação do ensino da língua e permitir a elaboração de textos em grau variável de dificuldade» («Autobiografia», in Maquinações e Bons Sentimentos. Campo das Letras, 1.ª ed., 2002, pp. 231-32).

Redundâncias

Cuidado

«Nenhuma das candidaturas quis enfrentar de frente o problema dos milhares de empregos, da multiplicação das empresas municipais ou da progressiva transformação da autarquia num vazio político absoluto, com a conivência de quase todos os partidos nacionais» («Perdidos em Lisboa», Miguel Gaspar, Público/P2, 19.07.2007, p. 3). E como é que Miguel Gaspar pretende que se enfrentem os problemas? Pelas costas? Pelos flancos? Em certa medida, é muito mais surpreendente que um jornalista experiente e com mérito caia nestas redundâncias do que pontue mal. E ele também o faz: «Toda essa indústria que oferece a cura indolor e alegre dos vícios do quotidiano, acaba por nos desumanizar, por reduzir a nossa capacidade de agir a uma outra dependência» («Eu, pós-fumador, não me estou de todo a rir», Miguel Gaspar, Público/P2, 7.07.2007, p. 4). «E, ao fim de duas semanas, o não-fumador em crise de resistência, perguntar-se-á: mas porque é que eu não estou a sorrir como o outro?» («Eu, pós-fumador, não me estou de todo a rir», Miguel Gaspar, Público/P2, 7.07.2007, p. 4). Se, apesar da gravidade, a virgulação incorrecta é atribuível à pressa, para as redundâncias deveria ter já apurado um automatismo.

Sinédoque

Figuras: de estilo e outras

«“O Terreiro do Paço [Governo] não tem noção do valor que a cortiça já tem hoje em dia e do que poderá vir a ter”, acusa» («Confraria quer mais sobreiros», Diário de Notícias, 30.04.2007, p. 35). A tal ponto chegou — ou o jornalista julga ter chegado — a cultura que é necessário explicar o que significa, no contexto, «Terreiro do Paço», não vá a sinédoque perder-se irremissivelmente. Isto faz-me lembrar aquela senhora de que fala Pedro da Fonseca, que, viajando, logo após o 25 de Abril, num autocarro da Carris, vai ufana com o seu passe social na mão. A certa altura, aparece um revisor, que lhe pergunta para onde vai. «Para o Têrreiro do Passe!» E ontem, na Antena 1, 13.04: «Em Lisboa, a Avenida Infante Dom Henrique, sentido Praça do Comércio-Santa Apolónia, em frente ao parque da Marinha, na zona do Torreiro do Paço, houve um despiste de um veículo.» Lapsus linguae ou lapsus calami? Cálamo. Cala-m’o bico. Será lapsus digiti.

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