Ora seja?

Id est

Já não há dúvidas: Mário Crespo, ora seja muito bem-vindo de novo a este espaço, julga que ao dizer «ora seja» está a dizer qualquer coisa com o mesmo significado da locução explicativa «ou seja», «isto é». Não está. E seria bom que alguém lhe dissesse, porque Mário Crespo não tem manifestamente conscientia sceleris. A bem dos telespectadores.

Semântica: «mongolismo»

Uma controvérsia


      A leitora M. A., em conversa com um amigo, usou o termo «mongolismo», tendo sido censurada por o ter feito, pois, na opinião desse amigo, era termo «popularucho», querendo com isso significar que era próprio dos ignaros usá-lo. M. A. quer saber a minha opinião. Bem, é verdade que algumas, pouquíssimas, publicações e sites se vêem forçados a explicar que é termo «popular» ou usado pelo «vulgo». Contudo, é bom ver mais longe. Assim, só em 1964 é que a revista médica The Lancet deixou de usar o termo; a Organização Mundial de Saúde (OMS) fê-lo em 1965 e o Index Medicus só em 1975 o expungiu. Aliás, se é pejorativo é para os Mongóis, pois foi a representação da Mongólia junto da OMS a primeira a apresentar um protesto formal pelo uso do termo em medicina. À luz da teoria da evolução, parecia o termo adequado, e a designação síndrome de Down, que é uma homenagem ao médico inglês John Langdon Haydon Down (1828-1896), que em 1866 descreveu algumas crianças com esta síndrome internadas num asilo em Surrey, só mais tarde foi adoptada. Somente em 1958, com a descoberta do Dr. Jérôme Lejeune (1927-1994) de que esta síndrome é provocada pela existência de um cromossoma 21 supranumerário, é que se passou a designar por trissomia 21. Nenhum dos dicionários que consultei dá conta do facto de ser vocábulo pejorativo, excepto o Dicionário Médico de L. Manuila et al., publicado pela Climepsi, que diz que é «termo actualmente rejeitado», embora não se abstenha de, no verbete «síndrome de Down» (e, significativamente, não deixa de ter o verbete «mongolismo»), referir os «Mongóis» e o «fáceis mongólico».

Ortografia: videoconferência

A propósito

      «E-mail e vídeo-conferência no televisor lá de casa» (Nuno Sá Lourenço, Público/Digital, 30.06.07, p. 7). O Público insiste em grafar desta forma a palavra, embora não ignore que o elemento video- se solda sempre ao elemento que se segue: videoalarme, videoamador, videocâmara, videocassete, videofone, videografia, videojornal, videoteca…      Mais à frente: «Uma das soluções que estamos a estudar é receber no televisor as suas mensagens. Ou [,] por exemplo, vídeoconferência no mesmo televisor.» Pelo acento agudo, percebe-se que falta o hífen repetido na linha de baixo. Faltará mesmo? Lembram-se das instruções para as propostas de escrita das provas de aferição de Português? Pois bem, recordem-se que são erros ortográficos, entre outros (e o perigo de esta indicação não ser taxativa está à vista), a «ausência de duplo hífen na translineação de palavras com hífen». Isto é o que toda a gente diz, se bem que as gramáticas e prontuários afirmem algo diverso: «Como se sabe, o hífen usa-se no final de uma linha, se é necessário partir a palavra para continuá-la na linha seguinte. No caso de a palavra já conter em si um hífen e partir por aí no final da linha, é preferível repetir o hífen na linha seguinte, pois a escrita ficará mais clara» (Novo Prontuário Ortográfico, José Manuel de Castro Pinto, 2.ª ed., Plátano Editora, 2002, p. 179). Preferível. Não me parece muito judicioso tornar obrigatório o que sempre foi opcional.

Léxico: «edêntulo»

Assim não morde


      A leitora Ana Correia quer saber o que significa «edêntulo», pois não vê a palavra dicionarizada. Não sei se viu ou ouviu a palavra isolada ou, pelo contrário, inserida numa frase. Se foi isto que aconteceu, estava decerto a qualificar, pois é um adjectivo, uma «mandíbula» ou um «maxilar». É conversa de dentistas, pois o vocábulo pertence ao léxico especializado desta profissão. Edêntulo, que provém do latim edentŭlus,a,um, significa desprovido de dentes, desdentado. Está registado no Dicionário Houaiss.



Topónimos estrangeiros

Imagem: http://www.zingtech.com/

Quente, quente…

«Num artigo sobre a construção do futuro aeroporto, um investigador do Massachussetts Institute of Tecnology (MIT), Richard de Neufville, agradece ao Governo português por este, através da assinatura de um acordo com o departamento de engenharia de sistemas desta universidade norte-americana, estar “a providenciar um importante apoio financeiro para o trabalho [do MIT] em planeamento de sistemas de aeroportos, concepção e gestão” (Público 21/06/07)» («Que modelo de universidade?», São José Almeida, Público, 30.06.07, p. 46). Não é verdade. O investigador é do Massachusetts Institute of Technology. Não está no Livro de Estilo, não é assim? Pois devia estar, já que é topónimo em que raramente se acerta.

Latim

É uma maneira de dizer

«[Correia de Campos] Exaltado, com razão — ali não era o local adequado para aquela questão — deixou vir ao de cima a formação jurídica que possui, ao referir, em latim, que não havia mal pelo facto de em 1989 ter participado num trabalho financiado por aquela multinacional farmacêutica e de ter requisitado um empregado daquela empresa para seu assessor, em tempo que não ficou bem definido» («O ministro da Saúde na Ordem dos Economistas», António Lares dos Santos, Público, 30.07.2007, p. 47). Não há escapatória: ou a frase está mal escrita ou o ministro é muito mais culto do que eu, preconceituosamente porventura, julgava. Só para não desmentir o meu cepticismo, opto pela primeira hipótese. Havia de ser bonito ver o ministro a dizer aquilo tudo em latim… O que o autor do texto queria escrever é que Correia de Campos usou uma frase ou brocardo latinos para repelir a insinuação. Qual, não sei; há milhares. Eu próprio tenho a cabeça cheia de brocardos, para o que der e vier. Talvez o ministro tenha exclamado Malitiis non est indulgendum, tendo depois pespegado um murro atroador na mesa, entornando a água, normalmente do Luso, imprudentemente despejada até ao limite nos copos dos oradores. Ou, sei lá, fiado na ignorância clássica (sem trocadilho…) dos circunstantes e com uma memória pouco colaborante, ter dito Mater sempre certa est.

Ortografia: contrapoder

Do contra

«A universidade é, desde a Idade Média, um espaço de liberdade, de procura de conhecimento e do diverso, de contra-poder até» («Que modelo de universidade?», São José Almeida, Público, 30.06.07, p. 46). De contrapoder será. Ou talvez queiram desmerecer a abonação do Dicionário da Academia: «contrapoder s. m. (De contra + poder). Força, poder que se opõe a uma autoridade estabelecida. “Uma sondagem […] revela que 51 por cento dos franceses deseja que o Presidente fique no Eliseu até 1995, quase como um contrapoder à maioria esmagadora” (Público, 30.3.1993).»

Plural dos apelidos

Os Silvas e os tradutores

      Como a ignorância persiste, volto ao tema. «No one knows this better than author and clinical psychologist Bill Anthony. A third-generation napper, he and his wife, Camille, instilled in their family a healthy appreciation for napping. With grandchildren of their own, the Anthonys have now perpetuated the tradition into the fifth generation.» Como podem ver, até em inglês se pluralizam os apelidos — embora os tradutores não o saibam.
      Vejam então como é em inglês: «When a family name (a proper noun) is pluralized, we almost always simply add an “s.” So we go to visit the Smiths, the Kennedys, the Grays, etc. When a family name ends in s, x, ch, sh, or z, however, we form the plural by added -es, as in the Marches, the Joneses, the Maddoxes, the Bushes, the Rodriguezes. Do not form a family name plural by using an apostrophe; that device is reserved for creating possessive forms.
      When a proper noun ends in an “s” with a hard “z” sound, we don’t add any ending to form the plural: “The Chambers are coming to dinner” (not the Chamberses); “The Hodges used to live here” (not the Hodgeses). There are exceptions even to this: we say “The Joneses are coming over,” and we’d probably write “The Stevenses are coming, too.”»

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