Léxico: «preguiça | atafona»

Antes que seja tarde


      «A minha definição preferida da palavra “preguiça” no dicionário é, desde há uns minutos, “pau grosso em que estão pregadas as cangalhas da moega da atafona”. [...] Entretanto, dei-me ao trabalho de ir ao dicionário perceber o que são as cangalhas: são a “peça em que assenta a moega da atafona”. A moega é uma “peça de moinho, em forma de pirâmide invertida, onde se coloca o grão para ser moído”. E a atafona é um “moinho manual ou movido por força animal” ou uma “azenha”. Pode ser que isto um dia dê jeito se começar a fazer palavras cruzadas» («Cangalhas, moega e atafona», João Pedro Pereira, «P2»/Público, 6.07.2025, p. 22). 

      Só ficamos a saber que não consultou o dicionário da Porto Editora. Podemos deduzir, mas não ter a certeza, qual consultou, isto porque estou a ver quatro dicionários que, nessa acepção, dizem, quase ipsis verbis, o mesmo. Sim, tem de ir para o dicionário: já não vivemos no Portugal rural, atrasado, coitadinho, analfabeto, mas as palavras é para se manterem: porque são conhecimento e chave para compreender textos que lemos, escritos em qualquer época. Assim, proponho: preguiça peça de madeira robusta que sustenta as cangalhas da moega, numa atafona (pequeno moinho manual ou animal). 

      Uma adenda teria de explicar que a atafona é um tipo de moinho rudimentar, geralmente accionado por força humana ou animal, utilizado para moer cereais ou, nalgumas regiões, para ralar mandioca, accionar engenhos de açúcar, bombear água ou operar teares. O termo provém do árabe al-ṭāḥūna, que significa «moinho». Há ainda atafonas preservadas ou em funcionamento no interior de Portugal continental e nos arquipélagos, e com o equipamento subsiste o termo, mesmo que já pouco usado no falar comum. A moega é um recipiente em forma de pirâmide invertida, colocado sobre as mós, onde se deposita o grão a moer. É sustentada por cangalhas, fixas na preguiça.

[Texto 22 568]

Definição e etimologia: «jâmbico/iâmbico»

Eis a questão


      Não é totalmente descabida a crença de que os contemporâneos de Shakespeare falavam como as suas personagens. Afinal, ele escrevia para um público vivo, presente, e os seus diálogos tinham de parecer verosímeis aos ouvidos elisabetanos. Mas também é verdade que, só por si, Shakespeare terá introduzido mais de 1700 palavras novas na língua inglesa, entre elas assassination, eyeball, lonely ou swagger. Fê-lo não por capricho, mas por necessidade expressiva: os seus versos exigiam precisão, ritmo e impacto. E sim, disse «versos». Grande parte do que hoje associamos ao estilo de Shakespeare decorre de ele escrever, não em prosa, mas em verso branco, mais precisamente, em pentâmetro iâmbico. Esta forma métrica organiza cada verso em cinco pares de sílabas, com o acento rítmico a cair na segunda de cada par. O exemplo mais célebre é: to BE | or NOT | to BE | that IS | the QUEST | ion. A alternância fraca/forte, repetida cinco vezes (de algum lado havia de vir o penta), dá ao texto uma musicalidade discreta mas marcante, que ajuda tanto à memorização como à elevação do tom. Não é por acaso que as personagens mais nobres e importantes falam em verso, enquanto os criados, os rústicos ou os patifes falam em prosa. E, mesmo dentro da métrica, Shakespeare não hesita em dobrar as regras: se for preciso, transforma flower em monossílabo só para não quebrar o ritmo. O resultado é uma linguagem que soa simultaneamente natural e lapidar, nunca exactamente como as pessoas falavam, mas talvez como gostariam de falar. Se hoje Shakespeare nos parece difícil, não é por ter inventado um idioma novo. É porque o seu inglês é, por assim dizer, música. Para reconduzir isto, ou uma pequena fracção, cá ao nosso modesto cantinho, proponho uma clarificação de «jâmbico» e, muito mais urgente, emergente, o melhoramento da etimologia. Assim, proponho ➔ jâmbico 1. (métrica) relativo a iambo, pé métrico constituído por uma sílaba breve seguida de uma longa (na métrica quantitativa) ou por uma sílaba átona seguida de uma tónica (na métrica acentual); 2. (métrica) composto de iambos.

      Quanto à etimologia, vem do latim iambĭcus, por sua vez do grego ἰαμβικός (iambikós), derivado de ἴαμβος (íambos, «iambo», pé de verso usado sobretudo em poesia satírica e invectiva); de origem possivelmente pré-grega, ligada a formas rítmicas populares e jocosas.

[Texto 22 567]

As opções dos nossos jornais

Qual respeita mais a língua?


      Eles nem sabem muito bem: «Em causa estão os ataques conduzidos pelo grupo de combatentes islâmicos paquistaneses TTP (os chamados taliban paquistaneses), que operam a partir de território afegão, e que Islamabad diz ter apoio financeiro, logístico e operacional de Cabul» («Paquistão garante que matou 415 talibans afegãos», Ana Brito, Público, 2.03.2026, p. 21). Estes sabem: «Segundo Islamabade, 331 soldados afegãos foram mortos e mais de 500 ficaram feridos desde o início dos combates, na quinta-feira. O Afeganistão rejeitou estes números, considerando-os falsos. Os talibãs falam em 52 mortos, a maioria mulheres e crianças, e 66 feridos» («Islamabade anuncia novos ataques a instalações militares afegãs», Jornal de Notícias, 1.03.2026, p. 33).

[Texto 22 566]

Definição: «ogiva»

Superando confusões e omissões


      «Falamos do Sejil-2 que atinge os 2.000 quilómetros e que tem uma ogiva, ou seja poder explosivo, de 1.500 kg. Mas Teerão tem ainda, embora se desconheça em que quantidades, o Shabab-3, que atinge os 1.000 quilómetros, e o Ghadr-1, que atinge os 1.600 quilómetros» («Qual o alcance dos mísseis iranianos e quais os países em (maior) risco», Carlos Mendes Dias, SIC Notícias, 2.03.2026, 16h20).

      Está errado o artigo no que respeita ao conceito de ogiva, já que a ogiva não é a potência nem a carga explosiva em si; é a parte anterior do míssil ou projéctil que contém a carga (explosiva, nuclear, química, etc.), como estão errados os nossos dicionários. Aliás, estes é apenas porque ficaram parados no tempo. Assim, e omitindo todos os argumentos, proponho ➔ ogiva 1. BALÍSTICA parte anterior de uma bala, projéctil ou míssil, geralmente de forma cónica ou arredondada, que constitui a cabeça do projéctil; 2. ARMAMENTO parte anterior de um projéctil, míssil, foguete ou torpedo que contém a carga útil destinada a actuar sobre o alvo, podendo consistir em carga explosiva convencional, nuclear, química, biológica ou em submunições; por extensão, a própria carga de combate (a massa ou o poder explosivo transportado nessa parte).

[Texto 22 565]

Léxico: «cantineira | coito danado»

Nem com dicionários


      Na quarta-feira, vi na RTP2 o primeiro episódio da série francesa A Rebelde: as Aventuras da Jovem George Sand. Num diálogo pós-coito entre o marido de Aurore Dupin (nome real da escritora), o barão Dudevant, e a sua amante, esta diz, com menosprezo, que a mãe da baronesa era cantineira. Ora, hoje em dia nem os lexicógrafos têm presente o que significava exactamente o termo naquele tempo. É essa acepção histórica que está ausente dos dicionários e, afinal, faz falta, ou não se conseguirá interpretar um simples filme. Assim, proponho ➔ cantineira HISTÓRIA mulher autorizada a manter a cantina de um regimento e a acompanhá-lo nas suas deslocações, vendendo aos soldados vinho, aguardente, tabaco e pequenos alimentos; integrava o séquito civil que seguia os exércitos em campanha, sendo frequentemente esposa ou viúva de militar.

[Texto 22 564]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Mais ou menos (mais, na verdade) a propósito: até isto falta nos dicionários, e, contudo, de quando em quando (ainda que em sentido figurado) usa-se ➔ coito danado HISTÓRIA (direito canónico e direito civil antigos) união carnal considerada ilícita por envolver pessoa vinculada por votos religiosos, especialmente relação sexual entre sacerdote ou religioso e mulher, de que podia resultar descendência ilegítima.


Léxico: «conceptividade»

Não é por mal


      Outra palavra que nos larapiaram foi... ora deixa cá ver a lista com centenas... foi conceptividade, característica ou propriedade do que é conceptivo.

[Texto 22 563]

Léxico: «braquioplastia | cruroplastia | cervicofacial»

Nem sequer um tens


      «Os cirurgiões plásticos contactados pela Ímpar concordam que são estas as cirurgias mais comuns: abdominoplastia, para remover o excesso de pele no abdómen; mastopexia, para corrigir o tecido mamário, levantando e remodelando a glândula mamária (recorrendo a próteses para aumentar o volume, ou não); braquioplastia, para remover o excesso de pele nos braços; cruroplastia, que tem o mesmo efeito, mas na face interna das coxas; e facelift cervicofacial, para retirar o excesso de pele da cara e pescoço» («Quando a pele estica e já não encolhe», Madalena Haderer, Público, 8.12.2025, 16h56).

[Texto 22 562]

Léxico: «moliceiro»

Nem mencionas Aveiro!


      «Estas embarcações permitiam a apanha do moliço, uma planta aquática colhida para fins de agricultura» («Barco Moliceiro é o novo Património Cultural Imaterial da Humanidade português», Catarina Magalhães, Rádio Renascença, 9.12.2025, 17h04). 

      Exactamente, para a apanha, não apenas para o transporte. E se é assim, Porto Editora, temos de o dizer ➔ moliceiro NÁUTICA designativo do barco tradicional da ria de Aveiro, com proa elevada e fundo chato, usado na apanha e transporte do moliço. 

[Texto 22 561]

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