Como se escreve por aí

Não avançámos nada, nem com a IA


      «Os narcosubmarinos, que na realidade são semissubmersíveis que navegam com a parte superior à tona de água, fazem parte de um modus operandi conhecido há mais de 20 anos na costa americana» («Artur Vaz. “Os narcosubmarinos são uma grande ameaça”», Isabel Laranjo, Nascer do Sol, 5.03.2026, 8h01). 

      O sol da ortografia e da lógica quando nasce não é para todos — nem para o Nascer do Sol, onde também (como no Observador) não sabem escrever «narcossubmarino». Aqui, com a agravante de a jornalista até ter sabido que se escreve «semissubmersível». Sendo assim, reúne as condições mínimas, mas tem de treinar mais.

[Texto 22 560]

Léxico: «cuba»

Alguém se esqueceu do azeite


      «É no lagar de Francisco e do irmão, António Pavão, que se produzem alguns dos melhores azeites do Douro. Há uns anos fui lá e parecia que estava numa adega de vinhos do Porto. Havia várias cubas de azeites e quase todas tinham apostos nomes de quintas durienses famosas, do Vallado à Symington» («Beber azeite pela manhã», Ricardo Dias Felner, «Ideias»/Expresso, 28.11.2025, p. VIII). Há alternativas, mas será melhor, Porto Editora, passar a ser a 4.ª acepção de ➔ cuba 4. depósito, geralmente metálico, usado para armazenar azeite em lagares.

[Texto 22 559]

Como se escreve por aí

Mais uma escolha infeliz


      «Araghchi garantiu que o Irão mantém “uma boa relação” com os países do Golfo e que estes “não têm nenhum problema” com Teerão. “Não estamos a atacar os nossos vizinhos nos Estados do Golfo, mas a presença americana nesses países. Sabemos que os países do Golfo estão chateados com estes ataques, mas eles deviam saber que esta guerra nos foi imposta”, declarou, acrescentando que tem mantido o contacto com os seus pares nestes países» («MNE iraniano: países do Golfo estão “chateados” mas “não podem esperar que Irão fique em silêncio”», Madalena Moreira, Observador, 1.03.2026, 14h35).

      Procurei na versão em inglês das declarações de Abbas Araghchi algum termo que pudesse, ainda que de forma forçada, justificar o coloquial «chateados», mas em vão. As formulações usadas na imprensa anglófona são, como seria expectável em contexto diplomático, do tipo expressed concern, voiced objections ou were dissatisfied. Traduzir esse registo por «chateados» não é apenas uma opção estilística discutível, é uma descida clara de nível, que trivializa o discurso político e aproxima a linguagem jornalística da conversa de café. Nada que não veja, atenção, nos livros que revejo, mas francamente...

[Texto 22 558]

Como se traduz por aí

Alguém e ninguém


      Último episódio de Equipa de Limpeza. Michèle e Solange percorrem parte de França numa muito chamativa carrinha Ford Econoline 150 com a inscrição «God Save The Gouines» na lateral. Vão aos hotéis do Grupo Sargas persuadir as colegas a fazerem greve. Como o dinheiro não abunda, dormem na carrinha. A inscrição merece um breve esclarecimento: gouines é um termo francês tradicionalmente insultuoso dirigido a mulheres lésbicas, mas que foi em parte reapropriado por muitas delas em tom afirmativo ou irónico. A frase pinta assim um slogan provocatório, algo como «Deus salve as lésbicas», que combina bem com o espírito combativo das duas viajantes — embora, diga-se, apenas Michèle seja lésbica. Logo na primeira noite, assistimos ao seguinte diálogo. Michèle: «Estou a bocejar, mas de certeza que não vou conseguir dormir.» Solange: «Espero que não ressones.» Michèle: «Não sei. Há muito tempo que não durmo com alguém. Eu gaguejo.» Ora, esta última frase é simplesmente absurda no contexto. Absurda. Depois de uma pequena confidência, Michèle percebe que se expôs demasiado e põe fim à conversa. O verbo que julgo ouvir no original é dégueuler, num uso coloquial do francês popular (por exemplo, «j’en dégueule»), que significa literalmente «vomitar», mas que figuradamente pode significar «deitar tudo cá para fora», «dizer demasiado», «despejar o que se tem para dizer». A escolha encaixa perfeitamente na personalidade de Michèle: uma mulher brusca, dura, marcada por um passado pesado (cumpriu oito anos de prisão) e cuja linguagem é directa e crua. A legenda «Eu gaguejo» não é apenas uma tradução infeliz: é um erro crasso. Tudo indica que a tradutora/legendadora, Rita Neves, julgou ouvir o verbo bégayer («gaguejar»); mas qualquer tradutor minimamente atento teria percebido de imediato que a frase não faz sentido naquele contexto e teria voltado ao áudio para confirmar o que efectivamente ali é dito.

[Texto 22 557]

Definição: «víscera(s)»

No século XXI, não é assim


      «Devido a questões pragmáticas e uma preferência genuína, culturas de todo o mundo têm longos e famosos historiais de cozinhar vísceras – um termo que inclui todas as partes de um animal que não sejam carne de músculo. No entanto, apesar de todo esse historial, o consumo de vísceras diminuiu em todo o mundo nas últimas décadas, diz o cientista alimentar Carlos Álvarez, investigador no Centro de Investigação Alimentar, em Ashtown, Dublin» («Conheça os estudos em defesa de um maior consumo de carne de órgãos», Mark Hay, National Geographic Portugal, 2.03.2026, 16h14). 

      Aproveitemos para melhorar — na verdade, corrigir — a definição no dicionário da Porto Editora. Há muito por onde pegar, mas falar em «órgão desenvolvido» deixa-nos logo de pé atrás. O que define as vísceras é serem órgãos internos situados nas grandes cavidades do corpo, não o serem «desenvolvidos» ou «importantes» ou seja o que for. Trata-se simplesmente de uma formulação herdada da lexicografia do século XIX e do início do século XX. Hoje, porém, a terminologia anatómica já não reconhece a categoria «órgão desenvolvido». Assim, proponho ➔ 1. víscera ANATOMIA órgão interno situado nas grandes cavidades do corpo, especialmente nas cavidades torácica, abdominal ou pélvica, como o coração, os pulmões, o fígado ou os intestinos; 2. (no plural) conjunto desses órgãos internos; 3. (no plural) interior ou parte mais profunda de algo; entranhas.

[Texto 22 556]

Léxico: «autoconsumo»

Uma acepção específica


      Hoje em dia, escassas vezes é usado sem ser no contexto da energia solar fotovoltaica, e geralmente com conotações de sustentabilidade, transição energética e descarbonização, o que nos obriga a fazer reflectir isso na definição do termo. Assim, proponho ➔ autoconsumo 1. consumo de um bem ou utilização de um serviço por quem o produz; 2. produção e consumo, pelo mesmo agente, de energia em pequena escala, de forma descentralizada e sustentável, como sucede com os sistemas fotovoltaicos domésticos ou empresariais.

[Texto 22 555]

Léxico: «frota-fantasma»

Eu já escolhi


      Assim? «As forças especiais belgas, com apoio de helicópteros militares franceses, abordaram e apreenderam um petroleiro da “frota fantasma” que a Rússia utiliza para contornar as sanções ocidentais devido à guerra na Ucrânia, numa operação anunciada ontem» («Bélgica apreende petroleiro da “frota fantasma” russa», Jornal de Notícias, 2.03.2026, p. 26). No Público, um artigo grande fazia o mesmo, com não menos de dez ocorrências. As aspas não nasceram para isto. Ou assim? As forças especiais da Bélgica intercetaram um navio pertencente à designada frota-fantasma da Rússia no mar do Norte» («Frota-fantasma da Rússia. Bélgica interceta petroleiro», Correio da Manhã, 2.03.2026, p. 30). 

[Texto 22 554]

Definição: «palma»

Na Irlanda sabem


      Lembrei-me de ir ver a definição de «palma» no dicionário da Porto Editora depois de ter lido um artigo no Irish Daily Mail que explicava por que razão a palma das mãos e a planta dos pés não ficam bronzeadas. A resposta, dizia-se, está no tipo de pele dessas zonas: espessa, glabra e adaptada à fricção. A definição do dicionário — «face interna e côncava da mão» — pareceu-me, por comparação, demasiado pobre. Assim, proponho ➔ palma ANATOMIA face interna da mão, entre o punho e a base dos dedos, caracterizada por pele espessa, glabra e com pregas transversais, adaptada à preensão e à resistência à fricção.

[Texto 22 553]

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