Definição: «arena»

Pedro e o lobo


      «Passos Coelho não exclui regresso à arena política» (Jornal de Notícias, 1.03.2026, p. 52). A definição desta «arena» em sentido figurado podia e devia estar mais bem formulada nos dicionários. A meu ver, qualquer definição devia omitir a palavra «espaço», como vejo em alguns dicionários, ou «terreno», como no caso da Porto Editora. É justamente por ser simbólico que não devia mencionar-se. Há alternativas, como esta ➜ arena figurado envolvimento em confronto ou competição pública, sobretudo na esfera política; participação directa em debates, polémicas ou disputas de poder. E o que há em certas arenas? Desde logo, é o que primeiro nos ocorre, toureio. Combates, lutas, pelejas. Curiosamente, na polissemia de lide os dicionários não apontam sentidos figurados. «Vai por aí uma grande excitação com o regresso de Passos Coelho às lides» («O projeto de transformação de Passos», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 3.03.2026, p. 17).

[Texto 22 552]

Como se traduz por aí

Nunca leu um anúncio imobiliário


      No 8.º episódio da série francesa Extra, na RTP2, Antoine vai falar com o cunhado, não apenas para tentar tirar nabos da púcara, mas para lhe pedir desculpa, o que faz anunciando-lhe que vai ampliar e remodelar o anexo onde Xav vive. Puxa do telemóvel e diz: «Olha, fiz uns planos.» Quer dizer, isto segundo a tradutora, Teresa Silva Ribeiro, que se esqueceu de que, neste sentido, dizemos «plantas». («Tu vois, j’ai fait des plans.») Corrigindo: «Olha, fiz umas plantas.» Xavier replica: «É a tua cena agora, não é?» Antoine sorri e prossegue, na versão da tradutora: «Sim. Então, como vês, é tudo térreo, com duas exposições.» Duas exposições... Aquilo vai ser o quê, um museu no anexo? («Alors, je te montre. Là, tu vois, tout est de plain-pied. C’est traversant.») Corrigindo: «Então, deixa-me mostrar-te. Aqui, como vês, é tudo no mesmo piso. Tem duas frentes.» Tudo isto nos primeiros cinco minutos do episódio. Não sei, talvez um breve estágio na ERA ou na Remax resolvesse o problema.

[Texto 22 551]

Léxico: «cantautoria»

Ele anda por aí


      «Que à semana de São Valentim não falte o festival abençoado pelo padroeiro dos apaixonados. O Montepio Às Vezes o Amor aí está, pronto a cortejar diferentes gostos musicais, em tons de pop, fado, cantautoria e outros» («Dez anos a espalhar amor», Sílvia Pereira, Público, 9.02.2025, p. 18).

[Texto 22 550]

Erram, pagam

Entretanto, no Brasil


      Uma ideia bem-intencionada, mas estúpida: «O procurador Cléber Eustáquio Neves, do MPF-MG, ingressou com ação civil pública contra a Rede Globo por suposto erro reiterado na pronúncia da palavra “recorde”. O parquet cobra da emissora uma indenização não inferior a R$ 10 milhões por alegada lesão ao patrimônio cultural imaterial da língua portuguesa. No entender do fiscal da lei, a prosódia “correta” do termo é “reCOrde” (paroxítona) e não poucos locutores da Globo pronunciam “REcorde” (proparoxítona)» («O anarquismo que funciona», Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo, 21.02.2026, p. A3).

[Texto 22 549]

Léxico: «ciberética | ciberético»

Antes que o estraguem mais


      «Segundo Rafe Pilling da empresa de cibersegurança Sophos, essa retaliação pode passar por reutilizar antigas fugas de dados e apresentá-las como novas, tentar infiltrar sistemas industriais expostos à Internet e até lançar ofensivas cibernéticas directas. Já a Anomali, outra empresa de segurança ciberética, revelou, numa análise partilhada com a Reuters, que hackers iranianos apoiados pelo Estado terão realizado ataques do tipo “wiper” — projectados para destruir dados permanentemente, tornando os sistemas infectados inutilizáveis — contra alvos israelitas mesmo antes dos bombardeamentos» («Irão está sem acesso à Internet há mais de 48 horas», Laura Ferreira, Público, 2.03.2026, 18h42).

      O vocábulo «ciberética», que a Porto Editora também já sabe que existe, encontra-se consolidado na literatura académica como designação da ética aplicada ao ciberespaço e às tecnologias digitais. Trata-se de termo transparente e semanticamente motivado (ciber- + ética), com uso estável em contextos filosóficos e deontológicos. Justifica-se, por isso, a sua inclusão no dicionário nesse sentido clássico. Regista-se, em artigos recentes na imprensa, como é o caso do artigo acima do Público, o emprego de «segurança ciberética» como equivalente de «cibersegurança»; contudo, tratando-se de extensão semântica ainda pontual e potencialmente ambígua, devemos aguardar confirmação de uso reiterado antes de eventual autonomização lexicográfica. Assim, proponho ➜ ciberética FILOSOFIA, INFORMÁTICA ramo da ética aplicada que estuda os princípios morais e as normas de conduta relativos ao uso do ciberespaço, das tecnologias digitais, dos sistemas informáticos e das redes; inclui questões como privacidade, protecção de dados, responsabilidade algorítmica, segurança digital e conduta de Estados e organizações no ambiente em linha.

[Texto 22 548]

Léxico: «zoroastra»

Em todo o lado, menos nos dicionários


      «“Quando falamos de minorias religiosas, é importante distinguir entre as que são reconhecidas pela Constituição – zoroastras, judeus e cristãos, como os arménios e os assírios – e as que não são de todo reconhecidas”, esclarece Petrossian» («Cristãos do Irão: à espera que as portas se abram», Margarida Santos Lopes, Além-Mar, Março de 2026, p. 35).

[Texto 22 547]

Definição: «narciso-trombeta»

Nem se fica a saber que é um narciso


      «Le Narcissus pseudonarcissus est donc véritablement un narcisse. Malgré son air avenant, il cache un dangereux secret: ses fleurs et son bulbe contiennent des alcaloïdes, une substance toxique qui peut provoquer maux de ventre, nausées ou vomissements» («À Eclépens, les jonquilles annoncent le printemps», Marle Maurisse, 24 heures, 2.03.2026, p. 5). 

      Uma boa reportagem. Sim, reportagem, a jornalista calçou mesmo as galochas e foi para o campo. Para começar, Porto Editora, ficamos a saber que, pese embora o nome científico, é um narciso. Mas a informação sobre a toxicidade não deixa também de ser relevante. Assim, proponho ➜ narciso-trombeta BOTÂNICA (Narcissus pseudonarcissus) espécie de narciso da família das Amarilidáceas, planta herbácea vivaz e bolbosa, espontânea em prados e bosques húmidos; apresenta folhas lineares basais e escapo erecto com uma flor solitária, constituída por seis tépalas patentes, geralmente amarelas, e por uma coroa central alongada, em forma de trombeta; floresce no fim do Inverno ou no início da Primavera; o bolbo e as flores contêm alcalóides tóxicos.

[Texto 22 546]

Como se escreve por aí

Tudo amarradinho


      «Na quinta-feira, o cônsul polaco no Porto atribuiu louvores ao chefe-principal João Cunha e ao agente-principal Rui Medeiros “pelo profissionalismo, dedicação e humanidade demonstrados na ajuda e proteção de um cidadão polaco”» («Polícia encontra jovem desaparecido havia nove meses», Alexandra Inácio, Jornal de Notícias, 1.03.2026, p. 10). Com hífenes, só se for em polaco, Alexandra Inácio. Vamos lançar um apelo, pode ser que algum linguista polaco nos ajude: Szanowni językoznawcy polscy, czy macie tam za dużo łączników?

[Texto 22 545]

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