Como se escreve por aí

Como assinante o exijo: em português!


      Outra vez a guerra. Mas porque optam no Observador por escrever ayatollahs quando até donas de casa com a 4.ª classe nascidas na década de 30 já escrevem aiatolas? Já agora, deixem de escrever «Supremo Líder», que até parecem fanáticos do regime.

[Texto 22 544]

Léxico: «pentimento»

Vá, um bocadinho de italiano


      «Las pinceladas se funden con las grietas minúsculas de la pared. Incluso se pueden distinguir los pentimenti (arrepentimientos) del maestro: pequeños cambios que dejó visibles, como el talón de uno de los ángeles —a los que dibujaba sin alas— que movió de sitio, lo que revela cómo ajustaba y replanteaba la composición mientras trabajaba directamente sobre el fresco» («La Capilla Sixtina limpia la huella de millones de visitantes», Lorena Pacho, El País, 1.03.2026, p. 57).

      Para começar, porque podem ter-se esquecido, em português é Capela Sistina. Ah, eu sei bem porque o relembro. E agora já podemos entrar na peça principal: ainda que se pudesse usar — e, de facto, usa — o termo traduzido, «arrependimento», a verdade é que está aportuguesado em «pentimento» e vários dicionários o registam. (Ma che cazzo, mezzo straniero non diventa molto più artistico?!) A Porto Editora apenas o promete para breve. Assim, imbuído de toda a boa vontade e outros humores, proponho ➜ pentimento ARTES PLÁSTICAS vestígio de uma composição anterior ou de alterações feitas pelo artista no decurso da execução de uma pintura, tornado visível com o tempo ou por meios técnicos de análise.

[Texto 22 543]

Como se escreve por aí

Desta linda maneira


      Há coisas muito estranhas, e esta é uma delas: «Passou um mês e não sei se já chegou a notícia a Lisboa. Ainda há cerca de duas mil pessoas sem luz e uns milhares, não se sabe bem ao certo, sem internet e comunicações. [...] Esta semana, numa reportagem na CNN Portugal, um casal com mais de 80 anos contava e mostrava como se repara um telhado esventrado pela ventania» («Ainda há gente sem luz», João Fernando Ramos, Nascer do Sol, 1.03.2026, 13h34). 

      Mas porquê o itálico em «internet» e em «CNN Portugal»? Umas linhas mais à frente, contudo: «A imagem de drone é esmagadora mostrando o homem no topo do telhado e a destruição que o envolvia.» Isto são tretas do jornal, mas há erros do jornalista: «A pergunta da jornalista é se ainda não chegou ninguém para ajudar. A resposta foi simples; ‘Pois não menina. Mas nós cá estamos de saúde para resolver isto’.» Pelo menos no que toca à pontuação, estou certo de que o trolha não faria muito pior. E podemos ter a certeza de que não usaria itálico.

[Texto 22 542]

Definição: «bastidor»

Já que aqui está

      Tudo é melhorável, Porto Editora, como a definição disto, aproveitando ter um à minha frente ➜ bastidor armação, geralmente de madeira ou metal e de forma circular, oval ou rectangular, composta por dois aros ajustáveis ou por uma moldura, na qual se prende e estica o tecido destinado a bordar, pintar ou executar outros trabalhos de agulha, a fim de o manter tenso e facilitar a execução do trabalho.

[Texto 22 541]

Topónimos não antecedido de artigo

Um caso paradigmático


      «O Reino Unido está a tomar “medidas ativas” em relação ao conflito no Médio Oriente, declarou o ministro da Defesa John Healey à Sky News. “Ativámos as nossas forças defensivas no Médio Oriente. Estamos a abater dornes [sic] que estão a ameaçar as nossas bases, o nosso pessoal ou os nossos aliados. E isto é uma situação muito séria e que se está a deteriorar”, elaborou, detalhando que Londres mobilizou aviões de guerra no Chipre e no Qatar» («Reino Unido “abateu drones” no Médio Oriente, anuncia ministro da Defesa britânico», Madalena Moreira, Observador, 1.03.2026, 9h57). 

      Um dia, que até pode ser hoje (e só não foi no domingo porque eu tinha outras prioridades), Madalena Moreira vai ficar a saber que não se diz «no Chipre», mas «em Chipre». Em rigor, nenhum nome próprio precisaria de ser antecedido de artigo, mas isso é outra história, que passaria por mostrar porque não é — como ouvimos até escritores, professores universitários, jornalistas — «o Camões» nem «o Helder Guégués», mas pode ser «o Macaco» ou «o Xuxas». Como poderá comprovar em qualquer dicionário decente, Madalena Moreira, cipriota é «referente a Chipre» ou o «natural ou habitante de Chipre». Há muitas vias e oportunidades para aprender.

[Texto 22 540]

Léxico: «in pectore»

Mais latim, pois claro


      «Há ainda a alegada viagem a uma clínica suíça de outro cardeal, Vincent Benítez (Carlos Diehz), destacado primeiro para o Congo e depois para Cabul (Afeganistão). Ali sujeitou-se a suspeitas intervenções médicas, apresentando-se no Vaticano no momento do conclave sem que ninguém o conheça. O Papa desaparecido nomeara-o cardeal in pectore, ou seja, em sigilo. Vemos também cardeais que questionam a sua fé e outros que, como certos políticos atuais, denunciam a islamização do Ocidente» («“Conclave”: o que é realidade e ficção num filme cujo argumento ganhou um Óscar», Rossend Domènech, Expresso, 23.04.2025, 21h09). 

      Alguns dicionários traduzem apenas por «no peito; particularmente», mas, a meu ver, esta tradução ainda é mais adequada. Assim, proponho: in pectore RELIGIÃO (Igreja Católica) expressão latina que significa «no peito» e designa a nomeação de cardeal feita pelo papa em segredo, sem proclamação pública; a nomeação só produz efeitos jurídicos após a sua publicação pelo próprio papa.

[Texto 22 539]

Léxico: «descaroado»

Há, mas no Brasil


      Os nossos dicionários ainda não chegaram a esta parte: «A tia Rita, a quem o escritor nas Coisas Espantosas pôs o véu transparente de D. Leonor, classificada por ele de descaroada e miserável criatura, pleiteando contra os órfãos o direito que tinha aos haveres deixados pelo irmão, apoiava-se nestes artigos da lei, tornados com o tempo ambíguos senão obsoletos» (O Romance de Camilo, Vol. 1, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, pp. 41-42).

[Texto 22 538]

Como se escreve por aí

Falta a cultura do cuidado


      «Os alarmes começaram a soar no dia 2 de fevereiro, quando a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X (FSSPX), o célebre grupo ultra-tradicionalista que vive há várias décadas às margens da Igreja Católica, emitiu um comunicado bombástico, anunciando que, daí a cinco meses, a 1 de julho de 2026, seriam ordenados novos bispos tradicionalistas no seio da organização» («Igreja Católica. Após proposta de diálogo recusada, cisma entre Vaticano e grupo ultra-tradicionalista parece inevitável», João Francisco Gomes, Observador, 22.02.2026, 17h21). 

      Recebem prémios de jornalismo, mas aos de ortografia nunca poderiam aspirar. Então, João Francisco Gomes, não é «ultratradicionalista» que se escreve? E o que é isso de «às margens»?

[Texto 22 537]

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