Léxico: «rectifloro»

Nuno, está feito


      A pedido do meu primo botânico, Porto Editora, peço-te que admitas ao convívio dos vocábulos respeitáveis este ➜ rectifloro BOTÂNICA que tem flores erectas, dispostas ao longo do eixo principal da inflorescência.

[Texto 22 424]

Léxico: «sinedóquico»

Entre ignorância e omissão


      Há quem tenha descoberto anteontem que, afinal, «já» não se diz Holanda, mas sim Países Baixos. Aprenderam metade, felizmente e decerto por acaso, a mais importante. A outra metade é que só por um curto período, de 1806 a 1810, o país se chamou oficialmente Reino da Holanda (Koninkrijk Holland), com Luís Bonaparte, irmão de Napoleão, como rei. Em 1810, Napoleão anexou directamente o território ao Império Francês. Desde 1815, após a derrota de Napoleão em Waterloo, o nome do país é Reino dos Países Baixos (Koninkrijk der Nederlanden). Pelas minhas contas, ainda nenhum de vocês tinha nascido. Dito isto, Porto Editora, parece-me difícil justificar que em «holandês» continues a afirmar que é a «língua falada na Holanda». Ainda por cima sem nenhuma nota que explique o uso sinedóquico (Holanda é somente o nome de duas das doze províncias do país — era como chamar Alentejo a todo o Portugal) nem referência ao termo mais correcto: neerlandês.

[Texto 22 423]

Conversa da treta

Nunca mais acaba esta merda


      «Aos 79 anos, Trump é o Presidente mais velho a entrar na Casa Branca e deverá ser o mais idoso a sair, roubando o recorde a Joe Biden. O antecessor saiu com nítidos sinais de declínio físico e combate agora um cancro da próstata avançado. O secretismo em torno da sua saúde foi amplamente criticado» («De Washington a Bruxelas pergunta-se se Donald Trump está bem», Pedro Guerreiro, Público, 2.02.2026, p. 20). 

      Cá estão eles com a linguagem bélica em relação ao cancro. Talvez queiram que se conclua que só morrem os fracos, os que, maus soldados, não souberam combater. Oh, por favor, acabem com esta conversa.

[Texto 22 422]

Léxico: «antiespecismo | antiespecista»

Nem os dicionários lá chegam


      «Uma alegoria de contornos ecológicos e antiespecistas, também: onde Elliott — que passa a partilhar telepaticamente do mesmo estado físico-emocional de E.T., o que o faz coibir-se de dissecar os sapos na escola e libertá-los — respeita a vontade de E.T., os adultos procuram obsessivamente capturá-lo, explorá-lo, enfim, extrair dele alguma coisa. Elliott cumpre a vontade de E.T., em vez de impor a sua» («Nós, os aliens — descobrindo E.T., alegoria para os nossos dias», Francisco Noronha, Público, 6.02.2026, 12h33).

[Texto 22 421]

Léxico: «aríete»

A DIC em acção


      «Arrombamento. Os polícias da DIC usaram arietes [sic] para arrombar as portas de entrada dos prédios e dos apartamentos alvos de busca» («Traficantes detidos após ameaças a moradores do Pinheiro Torres», Roberto Bessa Moreira, Jornal de Notícias, 13.02.2026, p. 4). 

      Os aríetes da Porto Editora ainda são os da Antiguidade e Idade Média, isto quando aparecem na imprensa há décadas como equipamento da PSP. Além de que há outra acepção relativa à Marinha. Tudo visto, proponho ➜ aríete 1. MILITAR engenho de guerra usado na Antiguidade e na Idade Média, constituído por uma viga grossa e comprida, geralmente suspensa por cordas ou correntes numa armação móvel, que era impelida contra portas, portões ou muralhas para os derrubar por impacto repetido; 2. MILITAR dispositivo moderno de arrombamento, de corpo maciço, geralmente cilíndrico e metálico, por vezes com reforço frontal e pegas laterais, portátil ou montado, destinado a concentrar força de embate sobre pontos estruturais vulneráveis, como fechaduras, dobradiças ou batentes, a fim de forçar portas ou acessos; 3. MARINHA saliência reforçada na roda de proa de certos navios de guerra da Antiguidade e do século XIX, destinada a abalroar e danificar o casco de embarcações inimigas; esporão; 4. MARINHA navio de guerra dotado de aríete, concebido para abalroar embarcações inimigas; navio-aríete. 

      Quanto à etimologia, vem do latim aries, arietis, «carneiro»; por analogia com o modo de investir do animal, designou já no latim clássico o engenho militar de embate.

[Texto 22 420]

Definição: «bestiário»

Lembrem-se das iluminuras


      Um excelente artigo no La Razón sobre os bestiários leva-me a propor algumas alterações, assim ➜ bestiário 3. LITERATURA, HISTÓRIA tratado medieval, em prosa ou em verso, transmitido em manuscritos geralmente ilustrados com iluminuras, em que se descrevem as características físicas e os costumes de animais reais ou fantásticos, usando-os para explicar a criação, o mundo e a condição humana através de significados simbólicos, alegóricos ou morais; 4. [por extensão] obra descritiva, em geral ilustrada, acerca de animais reais ou fantásticos, inspirada nos bestiários medievais ou que explora de modo análogo o valor simbólico dessas criaturas.

[Texto 22 419]

Léxico: «grilhagem»

Cadeia de elos metálicos...


      «“Ficaram danificadas grilhagens [pedra rendilhada] de remate decorativo do século XIX. Como são elementos finos, delicados, são menos resistentes”, diz a historiadora de arte [Clara Moura Soares], explicando que, tendo ficado em zonas de passagem, as árvores impedem a circulação e, assim sendo, a reabertura do monumento [Mosteiro de Santa Maria da Vitória, na Batalha]. “O problema vai ser remover as árvores — pela sua dimensão e porque, neste momento, não há recursos, não há maquinaria. A prioridade agora não é esta e bem. Primeiro estão as pessoas”» («Árvores caídas, gárgulas e vitrais partidos: a tempestade em três edifícios património mundial», Lucinda Canelas, Público, 2.02.2026, 20h07). 

      Nos nossos dicionários, nada. Assim, proponho ➜ grilhagem ARQUITECTURA trabalho decorativo em pedra, recortado e perfurado em padrões geométricos ou vegetalistas, formando grelhas ou rendilhados aplicados em janelas, divisórias, balaustradas ou outros elementos construtivos, sobretudo em edifícios religiosos medievais; permite a passagem de luz e ar, combinando função e ornamentação. 

      Como bónus, ainda acrescento que corresponde ao termo inglês tracery. (Os tradutores e os revisores e até os editores deviam era beijar-me as mãos — ou mesmo os pés, estão limpinhos, sem fungos e enfiados nuns Fluchos acabados de comprar (nem sempre posso ajudar a indústria nacional).)

[Texto 22 418]

Léxico: «disco de Secchi»

O mesmo direito


      Estava aqui a pensar: se os dicionários registam «caixa de Petri», porque não registam também «disco de Secchi»? Acabei de o encontrar num romance. Num romance! Bem, tem de ser ➜ disco de Secchi OCEANOGRAFIA, LIMNOLOGIA disco branco (ou branco-e-preto) com cerca de 30 cm de diâmetro, fixo numa corda graduada e usado para medir a transparência da água; é submerso até desaparecer da vista, sendo essa profundidade tomada como valor de referência.

[Texto 22 417]

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