Léxico: «burundanga»

Bagatelas jornalísticas

      «Depois de estacionar o carro, a pessoa era abordada por um homem que, com um cartão de crédito na mãe [sic] e um papel com um telefone na outra, pede a essa pessoa que faça a ligação telefonica [sic] por ele. Poucos segundo [sic] depois, a pessoa começa a sentir-se dormente. Consegue fugir, vai ao hospital e o médico diz-lhe que teve muita sorte. Foi drogada com burundanga e que noutros casos pessoas foram encontradas mortas sem um órgão. A história é contada em vários países e não há sinais de que tenha sido real em algum deles. Esta é uma droga proveniente de uma flor. Tudo indica que o termo é afro-cubano e usado por feiticeiros para designar bebidas usados em rituais» («PSP tem equipas para ‘caçar’ mitos urbanos», Ana Maia, Diário de Notícias, 23.06.2013, p. 17).
      Quanto a mim, inverosímil é apenas o médico descobrir do que se tratava, mas está bem. Burundanga está em qualquer dicionário e significa «palavreado confuso; algaravia» (a descrição perfeita do texto acima); «mixórdia» e, no plural, «bagatelas». Na acepção de alcalóide, ainda não se encontra dicionarizado.
[Texto 3014]

«Riviera Francesa»

É assim que recomendo

      «Uma paixão que nasceu quando [Hans Hass (1919-2013)] tinha 18 anos durante uma viagem à Riviera Francesa, depois de ter terminado o liceu. Foi nesta viagem que desistiu da carreira de advogado» («O último grande explorador da natureza do século XX», Diário de Notícias, 23.06.2013, p. 43).
      «É que o Estoril, gema no anel da Costa do Sol, disputa hoje primazias a qualquer estância da Riviera Francesa. Não lhe faltam balneários, bons hotéis, um bom Casino e um belo parque recamado de flores, campos de golfe e ténis, praias de fina areia, o macio regaço dum mar afável, e os bares, mirantes e terraços, salpicados de umbelas — tudo enfim que dá conforto a sibaritas exigentes» (Portugal, a Terra e o Homem, Jaime Cortesão. Lisboa: INCM, 1987, p. 203).

[Texto 3013]

Como escrevem os professores

Assim tão más?

      «Desde a crónica da semana passada, recebi por vias diversas algumas cartas de pessoas que se intitulam professores a insultar-me com toda a consideração. As minhas dúvidas sobre a real profissão dessa gente prendem-se com o domínio da língua portuguesa evidenciado nas ditas cartas, manifestamente incompatível com a sabedoria de quem, nos dias em que não faz greve, assegura a prodigiosa educação das crianças deste país» («Ordem, mentiras e progresso», Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 23.06.2013, p. 55).
[Texto 3012]

«Prujedicar»!

O exagerado Alberto

      «“O comportamento do investimento é muito preocupante sendo no entanto que o investimento no primeiro trimestre deste ano é adversamente influenciado pelas condições meteorológicas nos primeiros três meses do ano que ‘prujedicaram’ a actividade da construção.”
      O conteúdo desta afirmação recente do ministro das Finanças causou farta indignação e galhofa. Infelizmente, a forma passou incólume. Nem falo da sintaxe atabalhoada e das redundâncias. Mas o recurso ao misterioso verbo “prujedicar” mexe comigo. O verbo está longe de ser uma especificidade de Vítor Gaspar: pelo menos no radioso universo televisivo a coisa tornou-se, ignoro desde quando ou porquê, omnipresente. O clima “prujedica”, as políticas “prujedicam”, as greves “prujedicam”, a austeridade “prujedica”. Tudo isto perante a indiferença geral e, o que é um bocadinho pior, a participação geral no disparate. Governantes, oposicionistas, romancistas, jornalistas, académicos e personalidades diversas convergem no acto de “prujedicar” o léxico sem piedade» («Ordem, mentiras e progresso», Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 23.06.2013, p. 55).
[Texto 3011]

Outrora português

Agora fala-se e escreve-se assim

      «O facto de haver sistematicamente promoções alterou o padrão de consumo. Temos que equacionar dois dados: por um lado, esta oferta, por outro lado, o facto de as pessoas estarem cada vez mais focadas no preço. As opções do consumidor têm a ver com a variável preço» (Mafalda Ferreira, investigadora do IPAM, Instituto Português de Administração de Marketing, no Telejornal, 22.06.2013).
[Texto 3010]

«Statu quo»

O mesmo e o outro

      «Seara garante não estar a afrontar o poder judicial, mas anunciou o recurso para o Tribunal Constitucional. Diz que não tem dúvidas, como jurista e como professor de Direito, de que tem legitimidade para ser candidato» («Fernando Seara confirmou candidatura à Câmara de Lisboa», Pedro Benevides, Telejornal, 22.06.2013).
      Entre muitos gestos teatrais, foi perorando o candidato: «Quem pretender manter o status quo da ineficiência, do partidarismo, da instrumentalização do município para outros fins, designadamente para a construção de pequenos e grandes percursos políticos, aplaudem [sic] este acórdão e desejam [sic] que o mesmo seja mantido pelo Tribunal Constitucional.»
      Deve ser também como jurista e como professor de Direito que erra na expressão latina. E claro que não podia faltar o grande esteio do discurso actual, «o mesmo». Só costuma variar em género e número.

[Texto 3009]

«Por arrasto»

Acho eu

      «Na altura, falou-se da necessidade de não aceitar um “estado de chantagem assumida” e temeu-se que a Rússia se aproveitasse da inércia dos EUA e, por arrastamento, dos seus aliados. Foi neste contexto que Kennedy, a 26 de Junho de 1963, disse em alemão que também ele era um cidadão de Berlim. Porque, quando a liberdade é ameaçada nalgum lugar do globo, é-o também em todo o mundo e, por isso, ninguém está salvo» («“Ich bin ein berliner”», Gonçalo Portocarrero de Almada, Público, 22.06.2013, p. 54).
      Só conheço e apenas vejo dicionarizada a expressão «por arrasto», que, aliás, não deve ser muito antiga. E não seria melhor escrever-se «ninguém está a salvo»?
      «Carlota estava a salvo da perseguição; sozinha com o seu amor, que ninguém lhe impugnava; nutrindo-o com saudades na solidão do claustro» (Carlota Ângela, Camilo Castelo Branco, 1858).

[Texto 3008]

Tradução: «paddock»

Querem ver que não tem tradução?

      «Junto às cavalariças foi construído um paddock para aquecimento dos cavalos» («Já se fazem passeios a cavalo junto do Chalet da Condessa d’Elba», Alexandra Prado Coelho, Público, 22.06.2013, p. 34).
[Texto 3007]

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