Léxico: «papável»

Não percebo

      «Luis Antonio Tagle. Filipino, 55 anos, arcebispo de Manila, é um dos mais novos cardeais, apontado como papabile, pelo dinamismo da Igreja na Ásia» («Quem é quem», Diário de Notícias, 25.11.2012, p. 26).
      Se temos o adjectivo papável — que pode ser eleito papa —, para quê usar um termo estrangeiro, italiano no caso? E porque dirá o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora que é um termo coloquial?
[Texto 2361]

Parece uma brincadeira

Com muita pedagogia

      Já fiz, mais do que uma vez, sugestões para o Prontuário Sonoro, do portal da RTP. Não sei, nem isso agora interessa, se as aceitaram ou não. Convém que aceitem esta: corrijam «uxorcida», que não existe. Se o radical é uxori, que fizeram do i? É uxoricida. A transcrição também está mal, mas é coerente com o primeiro erro: /ukssurssida/. E, por fim, alguém pronuncia a palavra que não existe. Não estiveram envolvidas menos de quatro pessoas — e tudo para tamanho erro. E estão a ensinar os colegas...

[Texto 2356]

Sobre «iúca»

Com que então, uma árvore...

      Aqui a nossa protagonista está em casa a comer «cold yuca with hot oil». «Iúca», verte o tradutor, e bem. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, porém, iúca é apenas a «árvore da família das Liliáceas (género Yucca), própria das regiões da América, cultivada em Portugal com fins ornamentais». Incompleto, pelo menos. A iúca tanto pode ser um arbusto como uma árvore. A iúca comestível é uma raiz tuberculosa (tadinha... poor thing!), extraída do arbusto, e usada para fazer pão e tapioca. Os dicionários têm muito por onde melhorar e nós estamos cá para ajudar.
[Texto 2299]

Tradução: «cocoa pañyol»

Ou não?

      A rapariga, nascida em Trindade, era «cocoa pañyol». Está bem, mas podemos saber o que significa em português? O conceito em inglês: «someone of mixed race». Ah, mestiço, então.
[Texto 2298]

Tradução: «pussy»

Coño

      «And I have to touch her pussy...» «E eu levo-lhe a mão ao chocho...» Nunca tinha ouvido ou lido tal. Em português, digo, porque isto é vulgarismo espanhol: cona, rata. Vá lá perceber-se o que leva a estas opções descabeladas...
[Texto 2297]

Sobre «livre-arbítrio»

Qual a vossa preferida?

      Há algum problema com o livre-arbítrio? Talvez haja dois: não é raro vê-lo escrito — mesmo por professores universitários, tradutores, escritores — sem hífen. O outro problema é o da definição. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é o «poder de escolher ou não escolher um acto ou uma atitude, quando não se tem razão para se inclinar mais para um lado do que para o outro». Para o Dicionário Houaiss, é a «possibilidade de decidir, escolher em função da própria vontade, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante». Com mais quatro caracteres, é a minha preferida. E agora leio outra, quase lapidar, com 58 caracteres, de um livro em edição: capacidade de actuar sobre as coisas do mundo por iniciativa própria. Mais breve do que esta, em inglês, do Merriam-Webster: «freedom of humans to make choices that are not determined by prior causes or by divine intervention».
[Texto 2296]

«Dedo auricular»

Onde se fala da digitoagnosia

      Ao ler, agora mesmo, a palavra «digitoagnosia» (sim, talvez demasiado técnica para estar nos dicionários comuns — mas estão lá outras igualmente técnicas), lembrei-me de outro caso recente de tradução do inglês. Havia uma personagem, e não era pirata, que tinha um diamante... onde? No auricular. Pobre leitor... «Dedo auricular, o mínimo, porque é o que acode aos ouvidos», escreveu Madureira Feijó. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o, e remete para «mendinho». Como podia remeter para mínimo, mindinho, minguinho, meiminho...
[Texto 2295]

«Hiperceratose/hiperqueratose»

Essa muleta

      «Oitenta e cinco por cento dos portugueses sofre de doenças dos pés», disse o jornalista João Tomé de Carvalho na edição de ontem do Bom Dia Portugal. Não falta quem afirme que, nestes casos, é indiferente que o verbo fique no singular ou no plural. Não é assim para mim. Não está tudo no plural? Então, o predicado deve ir para o plural, concordando com o sujeito, que também está no plural. Este foi apenas o intróito para a entrada do podologista Pedro Lopes, que tinha um bordão da linguagem menos ouvido agora: usou, em dois minutos, oito «portantos». (Agora espero que, lá por ser podologista, não me queira pisar os calos...) E, por fim, usou, e bem, a palavra «hiperqueratose». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só regista a variante «hiperceratose».
[Texto 2294]

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