«Gerrymandering»

Era escusado

      «“O mapa dos distritos eleitorais pode ser considerado antidemocrático. As suspeitas de gerrymandering são elevadas”, diz Róbert Laszló, especialista em sistemas eleitorais do think tank Political Capital, em Budapeste. Este curioso termo, de origem anglo-saxónica, refere-se à manipulação das fronteiras dos círculos eleitorais para obter vantagens para um dos lados em disputa – e é disso que é acusado o Fidesz de Viktor Orbán» («Uma lei eleitoral desenhada à medida do Fidesz», C. B., Público, 16.01.2012, p. 18).
      Será mesmo necessário o termo inglês? Não é habitual, para exprimir o mesmo, falar-se de engenharia eleitoral? E lá está, no título, outro anglicismo semântico, carinhosamente adoptado pela comunicação social: «desenhada».
[Texto 965]

Léxico: «portilha»

Novidade

      O homem levava para casa tudo o que podia — até cacaréus inúteis como potes e portilhas de ferro. Para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, portilha é apenas «seteira». Ora, uma seteira é uma fresta aberta numa parede. Para a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, é termo desusado e designa uma «grande abertura na parede; seteira». Para o Dicionário Houaiss, é termo obsoleto sinónimo de «seteira». Talvez venha do castelhano portilla.
[Texto 964]

Sobre «água-de-colónia»

Não percebo

      «Nas locuções de qualquer tipo», lê-se na Base XV, 6.º, do Acordo Ortográfico de 1990, «sejam elas substantivas, adjetivas, pronominais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais, não se emprega em geral o hífen, salvo algumas exceções já consagradas pelo uso (como é o caso de água-de-colónia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à queima-roupa).»
      Perfeitamente claro. Consultemos agora o Vocabulário Ortográfico do Português (VOC), onde podemos ler que se escreve «água de Colónia». «Apenas em Portugal», lê-se. Com a variante «água-de-colónia». (E «água de Colônia (apenas em Brasil)», mas esqueçamos o Brasil.) Podemos concluir que o vocábulo tem as grafias água-de-colónia e água de Colónia? Mas se o texto do acordo o inclui entre os que não perdem o hífen, por estarem já consagrados pelo uso!
[Texto 963]

Como se fala na televisão

Naufrágio

      José Rodrigues dos Santos: «Vamos em directo para Roma, onde se encontra o Rui Almeida, um jornalista que estava no navio e sobreviveu ao desastre. Boa noite, Rui. Como foi que viveu esta experiência?» Rui Almeida: «Boa noite, Zé. É daquelas experiências que ninguém conta passar.» E atenção, não estava perturbado: «Eu devo dizer que, da minha parte, procurei utilizar também o instinto jornalístico para manter alguma equidistância, a equidistância possível numa situação destas.»

[Texto 962]

Ilegítimo, irracional, inútil

É uma opinião

      «Ninguém tem o dever de aceitar (e de se habituar a) este AO, que é ilegítimo (na forma e no conteúdo), irracional e inútil. Ele seria inaceitável mesmo que obrigasse a uma verdadeira “uniformização” da ortografia... só que, para cúmulo do ridículo, o “acordo” não só não “uniformiza” como aumenta, por via do acréscimo de novas duplas grafias, o número de palavras “à paisana”! Repare-se: no Brasil continuará a ser “autorizado” escrever, por exemplo, “detectar” e “receptivo”; porém, em Portugal é su- posto passar a escrever-se “detetar” e “recetivo”. E quem é que, honestamente, consegue jurar que, por exemplo, “espectador” e “espetador” se lêem da mesma maneira? Acaso alguém com um mínimo de juízo, de sensatez, irá alinhar nesta anedota? Acaso ainda restam algumas dúvidas quanto à utilidade e à validade (zero em ambos os casos) de todo este processo?» («“Velho do Restelo”, e com muito orgulho!», Octávio dos Santos, Público, 15.01.2012, p. 54).
[Texto 961]

Passageiros descurados

Pelo contrário

      Pelos altifalantes de um aeroporto, chamaram um passageiro à loja de chocolates e outro à relojoaria. Logo: «Muito descurados andavam os passageiros naquele dia. Antes mesmo de descolagem, alguns já estavam com a cabeça no ar. Também os procedimentos de segurança do aeroporto denotavam algum laxismo» («Anomalias aéreas», Ricardo Garcia, Público, 15.01.2012, p. 37).
      Caro Ricardo Garcia: experimente ler agora num dicionário o verbete «descurar». Passe bem.

[Texto 960]

Ortografia: «ecocidade»

Como calha, não é?

      «Engenheiros e técnicos ao serviço do empreendimento turístico de Vilamoura, no Algarve, começaram a deslocar-se de bicicleta, nomeadamente em visita a obras, para dar o exemplo. O maior resort da Europa quer apostar no uso das bicicletas partilhadas no quadro da sua estratégia de afirmação como eco-cidade» («Vilamoura quer ser uma eco-cidade, pessoal do resort já anda de bicicleta», Idálio Revez, Público, 15.01.2012, p. 37).
      E procurou saber como se devia escrever a palavra, caro Idálio Revez? Ou limitou-se, como me palpita, a ler um qualquer folheto publicitário? Se se deve escrever «ecoescola», pense agora como se deverá grafar esse termo.
[Texto 959]

«Guarnecer de alimentos»?

Desguarnecido

      «O mercado municipal de Cascais permanece no vale da Ribeira das Vinhas e, quem quer que já se tenha deslocado pelo centro da vila – no sentido da baía ou no caminho para as praias do Guincho – passou-lhe ao lado. A circulação automóvel às quartas e sábados de manhã processa-se, necessariamente, com maior intensidade, perante o acrescido movimento de quantos se procuram guarnecer de alimentos» («Antes & Agora. Usos saudáveis do passado preservados em Cascais», Luís Filipe Sebastião, Público, 15.01.2012, p. 36).
      Talvez de frutos, legumes e flores, como Arcimboldo. Não passam a redacção a limpo, dá nisto. Só os exércitos é que guarnecem — mas apenas de gente e munições — as praças, os quartéis, as fronteiras. Os submarinos também são guarnecidos, isto é, providos de tripulantes. Como também podemos guarnecer de livros uma biblioteca. Guarnecer, nesta acepção, é prover do necessário. O jornalista deveria ter escrito, por exemplo, «abastecer de alimentos».
[Texto 958]

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