Léxico: «anilina»

Vamos lá aprender com eles


      Agora a pergunta 4: «By the 1850s, chemists were turning coal-tar benzene into vivid purple and red dyes whose molecules imparted bright colours to writing fluids. What’s this family of dyes called that transformed 19th century ink colours? Hint: the answer is also what the ‘A’ in the chemical company ‘BASF’ stands for» («What makes the pen mightier?», Vasudevan Mukunth, «Science»/The Hindu, 4.12.2025, p. II). 

      Isso mesmo: anilina. Ora, como lhe falta uma acepção no dicionário da Porto Editora e a nota etimológica é melhorável, proponho ➔ anilina 1. QUÍMICA composto orgânico aromático (C₆H₅NH₂), obtido a partir do benzeno por substituição de um átomo de hidrogénio por um grupo amino, usado como intermediário na síntese de corantes, fármacos e plásticos; 2. HISTÓRIA, TECNOLOGIA designação dada aos primeiros corantes sintéticos derivados da anilina, como a mauveína, que revolucionaram a indústria tintureira no século XIX. A etimologia: de anil (do árabe al-nīl, e este do persa nīl, «índigo») + sufixo químico -ina.

[Texto 22 520]

Tradução: «sous-traitante»

Fica para a próxima


      Na série francesa Equipa de Limpeza (Frotter-Frotter, no original), exibida na RTP2, uma das camareiras, ao comprovar que não lhe foram pagas horas extraordinárias, afirma: «Vou falar com o Roullet.» Roullet é o gerente do hotel. A supervisora, Solange, corrige-a: não é com o hotel que devem tratar do assunto, mas com a empresa que as contratou e que lhes paga o salário, a Clean Up. A primeira insiste: «Não me importo de ir desancar o subempreiteiro.» 

      O problema é terminológico e é duplo. Em primeiro lugar, «subempreiteiro» é termo técnico próprio do âmbito da construção civil, relativo à subempreitada. Num contexto de prestação de serviços de limpeza hoteleira, a figura jurídica pertinente não é a subempreitada, mas a subcontratação ou a externalização de serviços. Em segundo lugar, mesmo no plano da subcontratação, o hotel não é o subcontratado. Pelo contrário: a Clean Up é que presta o serviço ao hotel, paga os salários e organiza o trabalho; ela é que corresponde, em francês, à sous-traitante, isto é, à empresa subcontratada. O hotel é a entidade contratante (donneur d’ordre), não o subcontratado. Há ainda um elemento interno que torna a opção da legenda particularmente infeliz. Num almoço do pessoal, o próprio gerente explica que o serviço de limpeza é «externalizado» — no original, ouve-se on l’externalise. A legenda traduz, e bem, por «subcontratado». Estamos, portanto, claramente perante um serviço que o hotel decide externalizar, confiando-o a uma empresa terceira. Não há aqui nenhuma lógica de empreitada. 

    A tradução e legendagem portuguesa, da responsabilidade de Rita Neves, ao optar por «subempreiteiros», desloca o enquadramento para o domínio errado e agrava a confusão, tanto mais que a própria série fornece, noutra cena, a chave terminológica correcta. Num registo rigoroso, a réplica poderia ter sido algo como: «Não me importo de ir falar com os do hotel», «Não me importo de ir falar com a direcção» ou, querendo manter alguma precisão técnica, e já que a personagem parece especialista em mopas e normas, «Não me importo de ir falar com a entidade contratante.»

[Texto 22 519]


Como se escreve por aí

Ainda há dicionários


      «Num período de catástrofe, como o iniciado a pelo mega-ciclone de 28 de Janeiro e seguido pelas ondas e inundações, essa função exacerba-se de parte a parte: por um lado, a TV dá voz a queixas, que são notícia, por outro os chamados ‘populares’, cidadãos sem poder na terra, só na TV, procuram ou são procurados pelas câmaras para dar conta dos seus estragos, perdas e desgaste. Fazem-no individualmente, em família, em grupo de moradores ou trabalhadores, o que for necessário, mas amiúde sem se enquadrarem institucionalmente debaixo da asa de sindicatos, patrões ou de autarcas. Fazem como que micro-movimentos sociais instantâneos» («O povo reivindica pela televisão», Eduardo Cintra Torres, Correio da Manhã, 22.02.2026, p. 37). 

      Eduardo Cintra Torres também é dos tais que não perde tempo com minudências como a ortografia. Para quê, não é? Aliás, o afinco com que se empenha a desancar a torto e a direito não lhe deixa tempo nem espírito para olhar para si mesmo.

[Texto 22 518]

Definição: «bioaerossol»

Ampliemos um pouco


      «O céu ficou mais esbatido e a qualidade do ar degradou-se, mas o que chega não é apenas “poeira”. Trata-se de bioaerossóis: partículas finas de terra levantadas em zonas áridas de África que entram na atmosfera e são transportadas pelos ventos para outros continentes. Chamam-se aerossóis porque viajam em suspensão e “bio” porque podem levar consigo vida microscópica, como vírus e bactérias» («Poeiras do Chade chegam a Portugal e trazem consigo microrganismos, mas chuva atenua riscos», Alexandra Tavares-Teles, Diário de Notícias, 25.02.2026, 18h42). 

      O mesmo é dizer que não bate inteiramente certo com a definição da Porto Editora: «BIOLOGIA partícula sólida ou gotícula de origem biológica (esporo fúngico, bactéria, vírus, etc.) que se mantém em suspensão num ambiente gasoso». Assim, proponho ➔ bioaerossol BIOLOGIA partícula sólida ou gotícula em suspensão num meio gasoso que contém ou transporta organismos vivos ou material de origem biológica, como esporos fúngicos, bactérias, vírus ou fragmentos celulares.

[Texto 22 517]

Léxico: «bioenergia»

A que mais interessa, hoje


      «Actualmente, regista-se um aumento contínuo da produção de energia renovável, liderada pela energia solar fotovoltaica, e crescimentos robustos nas eólicas, hidroeléctricas, bioenergias e geotérmicas, e por melhorias na eficiência energética» («A era da electricidade verde», Carlos Reis, Além-Mar, Março de 2026, p. 18). 

      Só a registas, Porto Editora, como sinónimo de «bioenergética» (e, ainda assim, a precisar de melhor definição), mas aqui é ➔ bioenergia energia obtida de matéria orgânica (biomassa vegetal, animal ou resíduos), por processos de combustão, gaseificação, pirólise, digestão anaeróbia, fermentação, entre outros, empregada na produção de calor, electricidade ou biocombustíveis.

[Texto 22 516]

Léxico: «atazagorafobia»

Tenham medo, muito medo


      «Adorant la langue française, il n’est pas rare qu’il [José Barrense-Dias, guitarrista de origem brasileira radicado na Suíça] sorte dans une discussion le mot “athazagoraphobie”, la peur intense et irrationnelle d’être oublié, ignoré, ou de ne pas être reconnu par les autres. Cela fait sourire ce coureur décidément pas comme les autres, qui va couvrir les 9,2 kilomètres de l’Escalade avec sa fille Jany et sa petite-fille Yara, criminologue» («Le plus vieux participant à la Course de l’Escalade est un Vaudois de 93 ans», Christian Maillard, 24 heures, 8.12.2025, p. 6). 

      Sim, sim, ainda não é uma fobia clinicamente reconhecida nos manuais diagnósticos como o DSM-5 ou a CID-10/11, e por vezes usa-se num tom humorístico, mas também já há psicólogos que usam o termo, e a imprensa, pois claro, logo ➔ atazagorafobia PSICOLOGIA medo intenso e irracional de ser esquecido, ignorado ou de não ser reconhecido pelos outros. 

      Quanto à etimologia, veio do inglês athazagoraphobia, formado do grego phobos («medo») e de um elemento inicial que remete para a ideia de ser ignorado ou esquecido (azētētos, «não procurado», «ignorado»).

[Texto 22 515]

Léxico: «privatístico»

Faltaria sempre uma


      «O Ministério da Justiça apontou que Blandina Soares tem um mestrado em Direito, com especialização em Ciências Jurídico-Privatísticas pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto e “é uma jurista com mais de duas décadas de experiência na Administração Pública, no âmbito dos registos e do notariado”» («Mudança no Instituto dos Registos e Notariado após presidente pedir para sair», Público, 24.02.2026, 16h43). 

      Quanto à definição da única acepção que acolhias até recentemente (!), Porto Editora, pouco mais se podia dizer, mas, ainda assim, proponho ➜ privatístico 1. que pertence à esfera privada ou pessoal; relativo ao âmbito íntimo ou não público; 2. DIREITO relativo ao direito privado; que respeita às normas e institutos que regulam as relações entre particulares em plano de igualdade jurídica, sem exercício de poderes de autoridade pública.

[Texto 22 514]

Léxico: «pichelaria»

Parados no tempo


      E por piche... Se a língua evolui, também nós temos de evoluir. No verbete «pichelaria» do dicionário da Porto Editora, nada ficamos a saber: «oficina, obra ou ofício de picheleiro». No verbete «picheleiro», só na segunda acepção se diz que é sinónimo de «canalizador». Aliás, não faz bem isto, remete para «canalizador». Há largos meses que passo por uma obra aqui em Cascais, um condomínio de luxo, e nas imediações há sempre uma ou duas carrinhas da Pichelaria Roriz.

[Texto 22 513]

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