Léxico: «lei-travão»

Negação da realidade


      Os dicionários, quase todos, continuam a acolher somente «norma-travão», mas a verdade é que o que se lê quase sempre e só é «lei-travão». «Confrontado com a provável “coligação negativa”, o executivo defende que, se os deputados aprovarem a iniciativa, estarão a violar a chamada “lei-travão” — a Constituição não permite que a Assembleia da República aprove medidas que diminuam a receita ou aumentem despesa durante a execução de um determinado Orçamento do Estado» («Governo considera que se o Parlamento aprovar layoff a 100% viola lei-travão», David Santiago, Público, 24.02.2026, p. 14). E até pode acontecer que ambas as palavras convivam pacificamente no mesmo texto: «O PSD pediu “bom senso” à Oposição e que não se queira substituir ao Governo, avisando que alguns dos diplomas que vão ser debatidos hoje no Parlamento, de resposta aos efeitos do mau tempo, podem “colidir com a lei-travão”. [...] Também Isabel Mendes Lopes, do Livre, afirmou que, caso surja alguma questão relacionada com a norma-travão, está disponível para aprovar um orçamento retificativo para a ultrapassar, insistindo que o Parlamento está a “honrar a palavra dada” pelo Governo num primeiro momento, já que inicialmente o Executivo tinha anunciado o pagamento do lay-off a 100% e depois recuou» («PSD avisa que lay-off pago a 100% colide com “lei-travão”», Jornal de Notícias, 25.02.2026, p. 22).

[Texto 22 511]

Léxico: «irano-arménio»

Temos de ir acolhendo tudo isto


      «Entre as vítimas estão “numerosos cristãos”, afiança Fred Petrossian, jornalista e investigador irano-arménio, forçado ao exílio na Europa, “por necessidade, não por opção”, para escapar a uma “ideologia totalitária” que, desde 1979, sujeita as minorias a um sistema de “discriminação institucionalizada”, um “apartheid religioso”» («Cristãos do Irão: à espera que as portas se abram», Margarida Santos Lopes, Além-Mar, Março de 2026, p. 33).

[Texto 22 510]

Léxico: «choque em cadeia»

Para evitar alguns disparates


      Como aqui este tradutor julga, entre outros desconchavos, que se diz «choque-em-série» (pois, logo com hífenes também, para ser ainda mais repulsivo), é melhor dicionarizar choque em cadeia — tanto mais, Porto Editora, que já usas a expressão para explicar o que é o brasílico «engavetamento».

[Texto 22 509]

Definição: «dilapidado | delapidado»

Não é boa ideia


      Então, vejamos, Porto Editora: porque dizes em dilapidado «particípio passado do verbo dilapidar» e em delapidado, já apresentado como adjectivo, «1. que se delapidou; 2. gasto de forma desmedida; 3. arruinado»?

[Texto 22 508]

Definição: «acidente isquémico transitório»

Explicando um pouco mais


      «Joaquim Miranda Sarmento vai estar sob observação no hospital de Santa Maria, em Lisboa, até amanhã de manhã, quando passarem 24 horas do momento em que entrou nas urgências com uma suspeita de AVC, que os exames descartaram: tratou-se sim de um um [sic] Acidente Isquémico Transitório, conhecido como AIT» («Ministro das Finanças tem de ficar em observação no hospital durante 24h. Teve um Acidente Isquémico Transitório: o que é um AIT?», Sâmia Fiates e Luís Rosa, Observador, 25.02.2026, 15h55). 

      Não é com maiúsculas, mas isso é problema dos jornalistas. Como são dois, e até já deve haver teses universitárias sobre isto, a propensão para haver erros aumenta logo. (O título do artigo também é um tudo-nada esquizofrénico, diga-se.) Como agora, durante algum tempo, se passará a dar mais atenção a este problema, sugiro que enriqueçamos a definição de ➜ acidente isquémico transitório (AIT) MEDICINA episódio súbito e transitório de défice neurológico causado por isquemia cerebral, com resolução completa dos sintomas (geralmente em menos de 1 hora e, por definição clássica, até 24 horas) e sem evidência de enfarte cerebral em exames de imagem.

[Texto 22 507]

Definição: «sensação térmica»

Muito longe do subjectivismo


      Já aqui o disse uma vez, mas repito: a definição de «sensação térmica» da Porto Editora labora num grande erro ao afirmar que é uma «percepção subjectiva». Não é. No uso meteorológico actual, «sensação térmica» não designa um estado psicológico individual, variável de pessoa para pessoa, como sugere a definição, mas antes um valor calculado por modelos físico-empíricos que estimam a temperatura equivalente percebida pelo corpo humano em determinadas condições ambientais. Os serviços meteorológicos calculam o chamado «feels like» a partir da temperatura do ar, da velocidade do vento (wind chill) e/ou da humidade relativa (heat index). Trata-se, pois, de um índice objectivo, baseado em fórmulas padronizadas. É certo que o fenómeno fisiológico subjacente, a percepção do frio ou do calor, envolve a experiência humana, mas o que a meteorologia divulga não é a «sensação» individual de cada pessoa, e sim uma estimativa normalizada do efeito térmico no corpo humano médio, em condições padrão (pele exposta, ausência de esforço físico, etc.). Assim, proponho ➜ sensação térmica METEOROLOGIA temperatura aparente calculada com base na temperatura do ar e em outros factores atmosféricos, como o vento e a humidade, destinada a representar o efeito térmico dessas condições no corpo humano.

[Texto 22 506]

Como se inventa por aí

Ora, não vale a pena


      «Muçulmanos caxemires rezam após concluírem a oração do Asr (tarde) durante o mês sagrado de jejum do Ramadão no Santuário Dargah Hazratbal, em Srinagar», era a legenda de uma imagem no Público de ontem. Pois, era uma boa ideia, mas os gentílicos de que dispomos são dois, não três: caxemirense e caxemiriano.

[Texto 22 505]

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