Plural: «cabra-montês»

Não é a melhor escolha


      «Estas, nestas alturas, tendem a assumir as dores do povo, afastando as suas próprias responsabilidades em anos ou décadas de relaxe, de autorização de construção em leitos de ribeiras e até de rios, como no Mondego, construção sob ou sobre arribas e na linha de costa, como em Almada, falta de obras em estradas municipais que mais parecem caminhos de cabras-monteses e noutras construções da responsabilidade autárquica, como edifícios de serviços públicos» («O povo reivindica pela televisão», Eduardo Cintra Torres, Correio da Manhã, 22.02.2026, p. 37).

      Não será a mim que me vão apanhar a usar «cabra-montês». Regular e com plural inequívoco é «cabra-montesa». Bem podia a Porto Editora indicar o plural de «cabra-montês», sempre contribuiria para haver menos erros.

[Texto 22 488]

Léxico: «filoguiado»

Mais pontas soltas


      No Jornal de Domingo na SIC Notícias, o jornalista Rui Cardoso, a propósito da guerra na Ucrânia, falou nos «drones filoguiados russos». Ora, em textos de apoio da Infopédia encontramos o adjectivo, mas não nos dicionários.

[Texto 22 487]

Léxico: «coiote»

Vamos lá pôr-nos a par


      «Grupos de WhatsApp administrados por aliciadores e coiotes são comuns em Cuba. Nos grupos, é possível encontrar ofertas de agências de viagem irregulares que ajudam os moradores a sair do país sem precisar de vistos de viagem, missão quase impossível para os cubanos» («Coiotes se transformam na principal forma de entrada de imigrantes cubanos no Brasil», Mayara Paixão, Folha de S. Paulo, 23.02.2026, p. A24).

      Os nossos dicionários não estão preparados para nos ajudarem. Só o Houaiss: «indivíduo que cruza fronteiras de países com clandestinos».

[Texto 22 486]

Léxico: «prescricionista»

Esqueceram-se dela


      Conhecida desde sempre e nunca dicionarizada: «Por mais que me esforce não consigo ver méritos jurídicos nem linguísticos na empreitada. Mesmo reconhecendo que a Carta impõe a concessionários de TV aberta certas obrigações relativas ao conteúdo da programação, não vislumbro no arcabouço legal brasileiro nada remotamente semelhante a um dever de obedecer a gramáticos prescricionistas» («O anarquismo que funciona», Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo, 21.02.2026, p. A3).

[Texto 22 485]

Léxico: «motonormatividade»

Por serem normais


      «As questões sobre fumo e trabalho não são apenas uma hipótese. Estas e outras perguntas foram feitas a 2157 pessoas, no Reino Unido, para um estudo que o agora o professor da Universidade de Swansea realizou com os académicos Alan Tapp e Adrian Davis (“Motonormativity: how social norms hide a major public health hazard”, publicado em 2023, no International Journal of Environment and Health). As respostas mostram que normalizamos um problema quando ele envolve um carro, e isso passou a ter um nome: motonormatividade» («Ian Walker explica como desvalorizamos o impacto dos carros», Camilo Soldado, Público, 25.10.2025, p. 26). 

      E assim também motonormativo, claro. O que me trouxe à mente que já este ano revi uma obra em que se falava nos superdotados e nos... normodotados. Estes, a maioria, ainda não foram levados para o dicionário, coitados. Como são normais, não conseguem.

[Texto 22 484]

Definição: «bistre»

Retomando a ciência


      Fiquem com a pergunta 1: «This historical ink was made by boiling soot from burned beechwood, yielding a warm brown, transparent pigment that faded faster than carbon black in old drawings. Name this ink, which architects and artists once favoured (but especially Rembrandt) for its light-sensitive nature» («What makes the pen mightier?», Vasudevan Mukunth, «Science»/The Hindu, 4.12.2025, p. II). 

      Ah, muito bem, a resposta é mesmo bistre. Define-o assim a Porto Editora: «1. cor entre o castanho e o amarelo; 2. substância corante de coloração entre o castanho e o amarelo, obtida pela fervura de fuligem em água e usada sobretudo em pinturas de aguarela». Proponho assim ➔ bistre 1. cor entre o castanho e o amarelo, com tonalidade quente e translúcida; 2. substância corante de coloração castanha, obtida tradicionalmente pela fervura da fuligem resultante da queima de madeira de faia (Fagus sylvatica), usada sobretudo em desenhos e aguarelas; menos estável do que o negro de fumo por ser sensível à luz, e amplamente utilizada por arquitectos e artistas, como Rembrandt, até ao século XIX. 

      Quanto à etimologia, vem de facto do francês bistre (século XVII), de origem obscura.

[Texto 22 483]

Definição: «barão»

Problemas na embraiagem?


      «Los barones del PP aconsejan a Guardiola hacer una campaña regional» (La Vanguardia, 9.12.2025, p. 22). A Porto Editora precisa (?) de duas ou três acepções para definir o que são estes barões: «3. figurado personalidade poderosa e influente na sua área de actividade; 4. figurado figura de destaque em determinada área de negócio; 5. figurado magnata». O dicionário da Real Academia Espanhola di-lo numa só bem estruturada e abrangente acepção: «Persona que tiene gran influencia y poder dentro de un partido político, una institución, una empresa, etc.»

[Texto 22 482]

Léxico: «videovigilante»

Tinha de haver


      «A música há-de desacelerar, baixo e bateria repentinamente a volume reduzido e em câmara lenta. “Vivemos numa selva sem árvores, banhada pela chuva ácida dos rios que envenenámos”, sussurram Manuel Molarinho e a convidada especial Evaya. “Somos videovigilantes do mundo, para que não pegue fogo/ mas aproveitamos o calor para fazer pipocas e vê-lo arder”, prosseguem, como se nos segredassem ao ouvido, como se dançassem nas ruínas» («Baleia Baleia Baleia vs. o retrocesso: “Gostava de não caminhar para a Idade Média de novo”», Daniel Dias, Público, 19.02.2026, 14h33).

[Texto 22 481]

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