Erros de sempre e para sempre

Com dois segredos


      «Envelhecera na companhia da casa – incrível como os lugares que habitamos nos acompanham –, e na presença do Castanheiro-da-Índia que já era adulto quando ele veio ao mundo» («A árvore que teve medo de ‘Kristin’», Luís Osório, Diário de Notícias, 19.02.2026, p. 4). 
      Boa parte dos tradutores fazem o mesmo. Bem, das duas uma: ou puxam pela cabeça ou puxam pelo dicionário. Eu sei que Luís Osório — e todos os que dão estes erros irritantes — sabe que se escreve «alface», «figueira», «laranjeira», «brócolos» (bem, neste caso não sei, que aparece demasiadas vezes mal escrito), «cenoura», «pinheiro», etc. Só que depois vêem ali o que julgam ser um topónimo e todas essas certezas se desmoronam. Então iam agora escrever «Índia» com minúscula!? Isto aprenderem eles bem na escola. Sendo assim, para equilibrar, grafam também o primeiro elemento com maiúscula. Vou contar-lhe um segredo, Luís Osório: aí não é topónimo, é um elemento de uma palavra composta, logo: castanheiro-da-índia. Segundo segredo: aplica-se a todas as palavras da mesma natureza ou composição.
[Texto 22 464]

Definição: «contrapisa»

Não é bem isso


      Aqui um tradutor usou o termo «contrapisa», e bem, com propriedade. Menos bem está a Porto Editora, que o define assim: «forro na parte inferior dos vestidos». Não sou alfaiate nem costureiro, mas vejo que está mal, já que não se trata de um forro. Assim, proponho ➜ contrapisa debrum de fita de algodão na parte inferior da saia das mulheres para evitar que com o roçar no chão se rompa.

[Texto 22 463]

Definição: «tinta-da-china»

Vamos lá pintar isto melhor


      E outra, a pergunta 2: «The first half of the name of this classic ink, long used in comics, is linked to the country that traded it with China. It’s a black ink in which carbon particles are suspended in water, sometimes with shellac, so the ink is waterproof once it dries on paper. Name the ink» («What makes the pen mightier?», Vasudevan Mukunth, «Science»/The Hindu, 4.12.2025, p. II). 

      Demasiado simples: tinta-da-china. É mais do que dizem os nossos dicionários e por isso proponho ➔ tinta-da-china tinta preta feita à base de negro de fumo e aglutinantes como goma-arábica ou goma-laca, utilizada em desenho, caligrafia e aguarela, podendo ser solúvel ou resistente à água depois de seca, consoante a composição; por vezes chamada tinta-da-índia ou tinta-de-nanquim, embora o nome reflicta apenas a rota comercial que a trouxe para a Europa.

[Texto 22 462] 

Léxico: «Criogénico | Neoproterozóico»

Como é que não estão nos dicionários?!


      «In the Cryogenian Period (720-635 million years ago), some scientists believe the earth went through episodes when ice covered even the tropical latitudes, and the world was called ‘snowball earth’. If the oceans were mostly frozen, it was also believed that the usual interactions between the ocean, atmosphere, sunlight, and climate patterns would have been greatly weakened» («Snowball earth: not quite still», Vasudevan Mukunth, The Hindu, 18.02.2026, p. II). 

      Nos nossos dicionários, nada de nada. Assim, proponho ➔ Criogénico GEOLOGIA período do Neoproterozóico que se iniciou há, aproximadamente, 720 milhões de anos e terminou há, aproximadamente, 635 milhões de anos, caracterizado por intensas glaciações planetárias; Criogénio. 

      Para o que precisamos igualmente de acolher ➔ Neoproterozóico GEOLOGIA era mais recente do éon Proterozóico, que se iniciou há, aproximadamente, 1000 milhões de anos e terminou há, aproximadamente, 541 milhões de anos, subdividida nos períodos Toniano, Criogénico e Ediacarano, antecedendo o Paleozóico.

[Texto 22 461]

Léxico: «segurabilidade»

Também faz falta


      «Algumas situações são mais difíceis de segurar. Devemos trabalhar cada vez mais com os clientes a componente de prevenção, de consciencialização, para que a possibilidade de segurabilidade seja maior. Tem de pensar muito bem onde é que se compra uma casa, onde é que se constrói uma casa, com que materiais de construção, isso vai ao longo do tempo determinar se se pode fazer um seguro ou não» [diz, em entrevista, José Coutinho, director de subscrição da Zurich]» («“Nos próximos anos, o preço dos seguros irá aumentar para fazer face à probabilidade de catástrofes”», Rosa Soares, Público, 18.02.2026, 7h05).

[Texto 22 460]

Definição: «borregar»

Devíamos ser nós a fazê-lo


      Entrevistado no Jornal Nacional da TVI, na terça-feira, a propósito do incidente do avião da TAP a caminho do aeroporto de Praga, José Correia Guedes, ex-comandante da TAP, usou a palavra «borregar», que até já pastores e trolhas conhecem, o problema não é esse. Desceram abaixo da altitude de segurança, não se sabe ainda porquê. «Imediatamente», disse José Correia Guedes, «fizeram aquilo que, em gíria aeronáutica, chamamos borregar, ou seja, subiram para uma altitude muito superior.» Então um simples cidadão tem o cuidado de dizer que é da gíria, e até acrescentar o domínio, e os dicionários não o indicam?

[Texto 22 459]

Definição: «tromba»

Não estamos de trombas, mas


      «A sensibilidade quase sobrenatural das trombas dos elefantes depende, em parte, de um componente inesperado: a presença de uma densa rede de vibrissas ou “bigodes”, muito semelhantes aos que estão presentes em gatos ou ratos, de acordo com uma nova pesquisa. Os cerca de mil “fios de bigode”, analisados por pesquisadores na Alemanha em elefantes-asiáticos (Elephas maximus) bebês e adultos, possuem variações funcionais em sua estrutura dependendo da posição em que se encontram na tromba e também da proximidade em relação ao corpo do animal (na ponta ou na base)» («Supersensível, ‘bigode’ em tromba de elefante funciona como espécie de sensor tátil», Reinaldo José Lopes, Folha de S. Paulo, 15.02.2026, p. A32). 

      A Porto Editora consegue a nada elogiável proeza de, ao definir «tromba», não se referir ao elefante. Deve ser dos poucos dicionários que o fazem. Ora, só em relação à tromba do elefante podíamos ter um verbete inteiro. Mas que seja acepção ➔ tromba ANATOMIA, ZOOLOGIA órgão muscular alongado, tubular, extremamente flexível e preênsil que resulta do prolongamento e fusão do nariz com o lábio superior dos elefantes (família Elephantidae), constituído por cerca de 90 mil feixes musculares e ricamente inervado; apresenta numerosas vibrissas (à volta de mil), distribuídas ao longo da superfície, que reforçam a sensibilidade táctil; desempenha funções de respiração, olfacto, tacto fino, manipulação de objectos, sucção e projecção de água, comunicação e expressão comportamental; probóscide.

[Texto 22 458]

Léxico: «skiathlon»

Eu perguntei primeiro


      Depois do muro-cortina, vamos para Milão-Cortina: «Na prova de skiathlon terminou em 64.º lugar, cruzando a meta... em festa» («Stevenson, o carpinteiro do Haiti que está nos Jogos Olímpicos de Inverno», Diogo Cardoso Oliveira, Público, 10.02.2026, p. 38). 

      Como é que o nome de um desporto não está no dicionário? Pois, mas não está, pelo que proponho ➔ skiathlon DESPORTO (esqui de fundo) prova de esqui de fundo disputada com partida em massa, em que metade do percurso é feita em técnica clássica e a outra metade em técnica livre, com mudança de esquis a meio.

[Texto 22 457]

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