Definição: «co-gestão»

Poupem-me


      Se algum tradutor der de caras com uma codetermination, peço que não a verta à letra. Não se trata de «co-determinação», forma que até aparece por aí, é certo, mas que não é nossa. O termo correcto, claro e consagrado é outro: co-gestão. É assim que surgem os conselhos de empresa, é assim que se fala da presença de representantes dos trabalhadores nos órgãos de gestão, é assim que se traduz há décadas em textos da União Europeia e nas próprias práticas sindicais portuguesas. De caminho, bem podemos pensar numa definição mais ampla e clara do que a da Porto Editora, que acerta no essencial mas fica aquém. Assim, proponho ➜ co-gestão participação formal dos trabalhadores nos órgãos de gestão de uma empresa, especialmente por meio de representação em conselhos de administração ou conselhos de empresa, com graus variáveis de influência sobre as decisões estratégicas e, por vezes, sobre os resultados económicos da actividade empresarial.

[Texto 22 408]

Léxico: «marcha-atrás»

Falta sempre alguma coisa


      «Quando com ele falei, há cerca de um ano, confessou-me que não havia marcha atrás, seria mesmo candidato a Presidente da República» («Seguro», Luís Osório, Diário de Notícias, 6.02.3036, p. 4).

      É marcha-atrás que se escreve. Se houver — e há mesmo — por aí um dicionário que diga o contrário, está errado. Mas este vocábulo, Porto Editora, não significa somente «mudança na caixa de velocidades que permite a um veículo recuar», como indicas. Ora vê este título: «Há marcha-atrás no Acordo Ortográfico?» (Isabel Nery, Visão, 3.05.2016, 16h26). E neste sentido figurado é usado diariamente de norte a sul, tem isso presente.

[Texto 22 407]

Definição: «açorda | açorda alentejana»

Não serve para todas


      Duvido que com a receita da Porto Editora pudéssemos fazer uma ➜ açorda alentejana CULINÁRIA sopa de pão feita com água a ferver, azeite, sal, alho pisado e coentros, ou poejos pisados. Claro, há diversos tipos de açorda, e nem todos são sopas, mas também de nenhuma eu diria que é uma iguaria.

[Texto 22 406]

Duas palavras: «exúrbio» e «exurbano»

Podia ter sido pior


      Devo ter desaprendido também alguma coisa (e perdido um bocadinho a paciência), mas houve uma coisa que hoje fiquei a conhecer: as palavras, de alguma maneira exóticas, «exúrbio» e «exurbano», insuficientemente definidas nos nossos dicionários. Exúrbio é a zona periférica situada para lá dos subúrbios, caracterizada por baixa densidade populacional, fraca oferta de serviços e forte dependência do automóvel; o termo surgiu nos Estados Unidos nas décadas de 1950‑60 para designar áreas residenciais de classes médias e altas fora do tecido urbano contínuo.

[Texto 22 405]

Como se pontua por aí

Não seria barato


      Iam precisar de um revisor só para corrigir a pontuação: «Quando morreu, em 2013, os obituários publicados nos jornais sobre Ewald-Heinrich von Kleist, descreveram-no como o último dos oficiais alemães que estiveram envolvidos na conspiração para matar Adolf Hitler na fase final da Segunda Guerra Mundial» («O mundo visto de Munique», Leonídio Paulo Ferreira, Diário de Notícias, 11.02.2026, p. 2). «A ministra não respeitou esse princípio, o que revelou um lamentável défice de autoconhecimento – como é que alguém que se revelou tão ridiculamente frágil, aceitou ser ministra e logo na pasta da Administração Interna?» («A pobre ministra não será salva por um príncipe», Luís Osório, Diário de Notícias, 11.02.2026, p. 4).

[Texto 22 404]

Extras! Extras! Extras!

Porque não são apenas horas


      «Camas extras não chegam para resolver problema de casos sociais» (Patrícia Carvalho, Público, 20.01.2026, p. 16).

[Texto 22 403]

Como se escreve por aí

E sem revisor para corrigir...


      «Seguro despediu-se ontem de Lisboa, hoje termina a campanha no Porto. Domingo, é preciso que o país saia para votar e essa é a única equação que as sondagens não conseguem responder» («Seguro», Luís Osório, Diário de Notícias, 6.02.3036, p. 4).

      Com construções assim menos óbvias, menos habituais, a probabilidade de as frases estarem correctas não é muito alta. Então não se responde a alguém ou a alguma coisa? Quanto ao conhecimento da regência verbal, estamos conversados.

[Texto 22 402]

O verbo «colocar», consagrado pela ignorância

Voltemos aos temas de sempre


      Batemos no fundo: às 8h00 da manhã de sexta-feira passada, já a repórter Nadine Soares, da Rádio Observador, estava à porta do Pavilhão Municipal de Santarém, onde tinham pernoitado 37 pessoas desalojadas por causa das intempéries. A repórter estava só à espera para poder falar com a enfermeira voluntária Vanessa Domingos, «que colocou férias» para poder estar ali a acompanhar as pessoas, a ajudar. Aliás, não só ela, «outros colegas colocaram férias» para fazer o mesmo. Quando, no caso, até se usam dois verbos, pôr e meter, achou que «colocar» era o verbo mais adequado. Numa rádio que atribui diariamente, a propósito de tudo e de nada, notas de 0 a 20 — e Cristo só escapou porque não é protagonista da actualidade — dou-lhe 0, porque é inadmissível que uma profissional da comunicação social se exprima assim.

[Texto 22 401]

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