Léxico: «arquiavô»

Os nossos arquiavôs merecem melhor

      «Mas, por entre as estantes, espreitavam com afectuosa curiosidade retratos de família — desde o retrato a óleo de um arquiavô até o retrato a pastel de uma menina de seus onze anos, com as faces magras sumidas entre catadupas de cabelos louros» (Cinza do Lar, João de Araújo Correia. Régua: Imprensa do Douro Editora, 1970, p. 118).
      Arquiavô: ascendente, antepassado, antigo. Falta, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Não falta na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.
[Texto 2982]

Infeliz verbo «haver»

Nem queremos acreditar

      Sílvia Machado, engenheira da DECO, responsável pela área alimentar, a propósito do bacalhau com natas que afinal tem peixe-caracol: «Nós temos, enquanto DECO, alguma preocupação nesse sentido, dado que, com a crise que se vive, provavelmente haverão mais casos que irão acontecer.»
[Texto 2981]

«Estadio»!

Imitar maus modelos

      Jornalista Carla Costa, no noticiário das 10h00 na Antena 1: «Um estudo revelou recentemente que no primeiro estadio da doença, em 60 % dos casos o Tamafidis é totalmente eficaz; em 40 % das situações, atrasa o desenvolvimento da paramiloidose [doença dos pezinhos].» Como os médicos, vá-se lá saber porquê, falam assim, os jornalistas acham que os devem imitar.
[Texto 2980]

Depois do «ayatollah» o «hodjatolislam»

Quase um curso de Teologia

      «Nascido numa família de opositores ao Xá, Rouhani estudou Teologia em Qom, mas fez o doutoramento em Direito na universidade de Glasgow, na Escócia. Grande apoiante do ayatollah Khomeini, o hodjatolislam – abaixo de ayatollah na hierarquia do clero xiita – chegou a ser preso por criticar o xá e defender os ideias da Revolução Islâmica em 1979» («Um ‘xeque diplomata’ para levar moderação ao Irão», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 16.06.2013, p. 33).
      Hodjatolislam. Esta é nova, pelo menos para mim. Quanto ao mais, a jornalista não sabe bem onde há-de usar as maiúsculas, e por isso nem sempre acerta.
[Texto 2979]

Como fala o PR

Segundo o cínico Alberto

      «Votei em Cavaco Silva para a presidência. Duas vezes. Dadas as alternativas, ainda não me arrependi. Convinha era que o prof. Cavaco não forçasse a nota. Mesmo que os seus antecessores não fossem estetas da língua, as recentes inovações lexicais do “fazerei” e dos “cidadões” confundem» («Ninguém ensina os professores?», Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 16.06.2013, p. 55).
[Texto 2978]

Léxico: «amansardado»

Mas não o verbo

      «O hotel então viabilizado terá seis pisos acima do solo (como tinha o projecto de Cassiano Branco), mais o piso amansardado na zona da cobertura e três pisos subterrâneos» («Prédio de Cassiano Branco demolido em violação do projecto aprovado», José António Cerejo, Público, 15.06.2013, p. 12).
      Sim, eu sei que «mansarda» vem do francês, mas não é disso que vou tratar. «Amansardado» pressupõe o verbo «amansardar»? Talvez, mas deste nem rasto.
      «Elas tinham vivido perto uma da outra e contemplado juntas a cena de Judite e Holofernes. Miss Cossart, à noite, no dormitório amansardado, tinha medo de Judite e dos seus olhos cheios de fogo» (A Corte do Norte, Agustina Bessa-Luís. Lisboa: Guimarães Editores, 1987, p. 99).

[Texto 2977]

Sobre «isolacionismo»

Está ligado, mas não é o mesmo

      «O candidato oficial desta vez é Saeed Jalili, o chefe dos negociadores iranianos para o nuclear e partidário do isolacionismo e da rota do regresso ao purismo dos princípios da Revolução Islâmica» («Governo iraniano pediu ao povo para ir votar contra o “inimigo”», Público, 15.06.2013, p. 23).
      O problema, mais uma vez, está nos dicionários. Ora queiram ver. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista o termo e define-o assim: «doutrina política de não ingerência na política de outros países». Não me parece. Para o Houaiss, é a «doutrina que preconiza o isolamento de um país do cenário internacional, mediante recusa a formar alianças, assumir compromissos económicos externos e assinar acordos bilaterais». E agora a definição no Trésor de la Langue Française: «Doctrine, politique d’isolement d’une nation et, particulièrement, des États-Unis à l’égard de l’Europe à certains moments de son histoire.» Claro que um país que prossiga uma política isolacionista é, ao mesmo tempo, um empenhado adepto da não-ingerência.

[Texto 2976]

Ortografia: «xis-acto»

Exacto, também

      «A dado momento, um homem aproximou-se, sorrateiro, e atacou Rupert Murdoch. Foi para lhe esfregar uma tarte na cara, mas durante aquele segundo não se sabia, podia ser um xis-ato a procurar carótida» («Colher rosas no meio do pântano», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 14.06.2013, p. 56).
      Não quero falar da transfiguração causada pelo Acordo Ortográfico de 1990, mas da variante. Muito mais habitual é a grafia x-acto. Tanto assim é que continua a ser a única registada na maioria dos dicionários.
[Texto 2975]

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