«Baptizar um navio»

Ainda não deixou de ser

      «A duquesa de Cambridge cumpriu a tradição e inaugurou em Southampton o Royal Princess. Grávida de oito meses, Kate Middleton lançou uma garrafa de Moët&Chandon, no valor de 1400 euros, contra o casco do navio de cruzeiros, para dar sorte» («Kate inaugura navio a um mês do parto», Diário de Notícias, 14.06.2013, p. 53).
      Em relação a navios não se usa o verbo «baptizar»? Usa, pois. Até nesta notícia em inglês: «Kate Middleton christened the new ‘Royal Princess’ cruise ship in a ceremony in Southampton.»

[Texto 2974]

«Ítalo-americano», «ítalo-congolesa»

Não lhes chegou a notícia

      «A máfia “convence” o patrão de um grande estúdio de Hollywood a dar um papel importante na fita que está a preparar a um cantor italo-americano na mó de baixo, pondo na cama daquele a cabeça ensanguentada do seu cavalo favorito» («O filme que relançou a carreira de Frank Sinatra», Eurico de Barros, Diário de Notícias, 14.06.2013, p. 46).
      «Uma deputada regional da Liga Norte apelou ontem à violação da ministra da Integração italiana, a italo-congolesa Cécile Kyenge, causando a indignação entre a classe política do país e levando à sua expulsão do partido anti-imigração» («Eleita da Liga Norte apela a “violar” ministra», Eurico de Barros, Diário de Notícias, 14.06.2013, p. 27).
[Texto 2973]

Tradução: «stamp»

Explique isso melhor

      «Só no século XVIII é que um grupo de arqueólogos reencontrou estes objetos que se julgavam perdidos. Foram assim descobertas peças de joalharia, escultura, mosaicos, equipamento de cozinha, mobiliário de madeira (como um berço de bebé ou um banco de jardim) e até mesmo comida, nomeadamente um pão intacto ainda com o selo da padaria» («Visitar Pompeia e Herculano numa sala de cinema», João Moço, Diário de Notícias, 13.06.2013, p. 48).
      «Um pão intacto ainda com o selo da padaria»... Desconfiamos logo da tradução, porque já estamos escaldados de outras vezes. Aqui vemos a imagem do pão, um pão de forma, com a marca, em relevo — espécie de selo branco —, da padaria. A imprensa em língua inglesa usa o termo «stamp», pois claro: «Items were crisped and carbonised, so amazingly we’re able for instance to see a loaf of bread from Herculaneum, and even the stamp of the baker on a loaf of bread.» E, nos dicionários de inglês-português, «selo» é a primeira acepção de «stamp». Se o jornalista dissesse que era um pão de forma, já se percebia melhor porquê o selo.
[Texto 2972]

Léxico: «supercentenário»

Ficamos a saber

      «Com o aumento da esperança média de vida, os centenários e supercentenários (110 anos) são cada vez mais. Segundo o Grupo de Pesquisa Gerontológica, estão vivos 55 supercentenários (51 mulheres e quatro homens). Entre eles está uma portuguesa, Maria Dolores Ferreira, natural de Barcelos, que fará 111 anos em julho» («Os mais velhos», Diário de Notícias, 13.06.2013, p. 26).
[Texto 2971]

Ortografia: «ítalo-americano»

Mas não

      «Kimura, que era a pessoa mais velha do mundo após a morte da italo-americana Dina Manfredini, em dezembro de 2012, aos 115 anos, foi o terceiro em seis filhos de uma família de agricultores da pequena localidade de Kamiukawa» («O japonês que aprendeu inglês depois dos cem anos», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 13.06.2013, p. 26).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora apenas acolhe, que nos permita comparar, «ítalo-etíope». No Portal da Língua Portuguesa, lê-se «italo-americano», como no artigo do Diário de Notícias. No entanto, no caso, não estamos perante o elemento de formação de palavras «italo-», trata-se antes do adjectivo «ítalo».
[Texto 2970]

Picassos, Magrittes, Pollocks e Warhols

Plural, pois claro

      «E, já agora, porque é o Governo não classifica, de uma vez por todas, a colecção Berardo, acabando com as constantes e irritantes ameaças do comendador Joe de a levar para fora do país? Acaso temos por aí Picassos, Magrittes, Pollocks e Warhols aos pontapés? Um raciocínio semelhante em relação ao senhor Calouste: haveria museu na Avenida de Berna, se a França tivesse feito à colecção Gulbenkian o que tanta gente está cheia de vontade de fazer ao quadro de Crivelli? Pois é. O Estado que se entretenha com o seu património — do qual nem sequer consegue cuidar — e deixe os privados em paz» («Crivelligate, a conclusão», João Miguel Tavares, Público, 13.06.2013, p. 48).
[Texto 2969]

 

«Camisa-de-sete-varas»

Parece que é igual

      «Muito menos a sua irmã, embora achasse que ela se podia meter numa camisa de sete varas se por acaso voltasse a encontrar o dito homem» (Tiro e Queda, Mafalda Belmonte. Lisboa: Bertrand Editora, 2002, p. 60).
      É a primeira vez que vejo assim. A medida tradicional é onze: camisa-de-onze-varas, hifenizado, como aparece, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. A alva dos condenados a autos-de-fé era feita de pano de varas, um tecido antigo de lã, áspero. Talvez haja aqui relação com o termo «vara» no sentido de circunscrição judicial. Quanto a serem sete ou onze varas, e vara aqui é uma antiga medida de comprimento, talvez seja, como alguns aventam, indiferente, pois são ambos números meramente simbólicos.
[Texto 2968]

Léxico: «alumbramento» e «alumbrado»

Sopro criador, revelação, inspiração

      Outras duas ausências de vulto no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: alumbrado e alumbramento. Quando Bárbara Guimarães recebeu, no programa Páginas Soltas, em 16 de Novembro de 2006, José Saramago, perguntou ao escritor a que chamava alumbramento. «Alumbramento? Não é uma palavra que eu use muito...» Mas de certeza que era, pois noutra resposta usou-a desenvoltamente duas vezes. Ainda assim, mais falta faz o termo «alumbrado» na acepção de membro da seita surgida no século XVI em Espanha. Porque ainda hoje há muitos alumbrados, muitos hereges...

[Texto 2967]

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