«Evidências», de novo

É evidente

      O Ministério da Saúde agora quer que haja reaproveitamento de material médico, material de uso único, descartável. Agora é que é poupar. Manuel Valente, vice-presidente da AESOP (Associação de Enfermeiros de Sala de Operações Portugueses), disse ontem no Telejornal: «Contra todas as evidências, contra todas as recomendações da Comissão Europeia e do Parlamento Europeu e do Conselho da Europa, contra toda a evidência científica, está-se a tomar uma decisão que aparentemente pode ser insegura para os doentes.» Parece uma frase mal traduzida do inglês: evidences, apparently...

[Texto 2945]

Léxico: «belígero»

Camoniano

      «Para os amigos que frequentam Santa Olávia, Eusébio revela uma educação esmerada que o prepara para fazer boa figura em Coimbra: tem horror às brincadeiras belígeras de Carlos [da Maia] e passa os dias a decorar versos, preso às saias da titi» («A cartilha e o trapézio», Joana Meirim, Público, 8.06.2013, p. 50).
      Belígero, gosto. O elemento sufixal latino («sufixial», lê-se na 50.ª edição do Prontuário Ortográfico e Guia da Língua Portuguesa, de Magnus Bergström e Neves Reis) -gero significa que leva, que produz. É latinismo que se pode ver nos Lusíadas: «Destarte o Mouro atónito e torvado,/Toma sem tento as armas mui depressa;/Não foge; mas espera confiado,/E o ginete belígero arremesa.» E estão ali a ver «Mouro»? É uma sinédoque, isto é, está o singular pelo plural, e por isso conserva a maiúscula inicial.

[Texto 2944]

Sobre «humanitário»

Confusão

      «Até ao fim de 2013, estima-se que dez milhões de pessoas, metade da população da Síria, dependam da assistência humanitária para sobreviver» («ONU denuncia a pior crise humanitária do mundo na Síria», Rita Siza, Público, 8.06.2013, p. 25).
      Ou seja, para a maioria dos jornalistas, «humanitário» significa uma coisa e o contrário dela. Sim, há vocábulos assim na língua portuguesa, mas não é o caso deste.

[Texto 2943]

Léxico: «espiche»

Do emigrês?

      «Ora, quando vejo tanta gente respeitável (Daniel Oliveira no Expresso, Nuno Saraiva no DN, Rui Tavares no PÚBLICO) embriagada pelos discursos enevoados de Sampaio da Nóvoa, achando que no meio daquele espiche se esconde uma qualquer luz trémula capaz de nos indicar o caminho para fora da austeridade, começo a ficar seriamente preocupado» («Enevoados», João Miguel Tavares, Público, 4.06.2013, p. 44).
      Tem graça, então não tem. Espiche significa discurso, fala, elogio, e vem, é claro, do inglês speech, talvez adaptado por um açoriano emigrante nos Estados Unidos da América.

[Texto 2942]

Sem tradução, hein?

Em que se fala de focas

      «Uma das testemunhas é um navy seal que participou no raide em que Bin Laden foi morto e que deverá falar do material apreendido no complexo onde o líder da Al-Qaeda se escondia» («EUA pedem pena máxima para Bradley Manning, por ‘ajudar inimigo’», Kathleen Gomes, Público, 4.06.2013, p. 22).
      Não se podia escrever, sei lá, «membro de uma força especial da Marinha», por exemplo? A não ser assim, e sem qualquer explicação, o leitor menos sabedor de inglês fica a ver navios, ou navios e focas.

[Texto 2941]

Como se escreve nos jornais

Então agora os plurais são assim?

      «As eleições, que marcam o fim dos mandatos de Ahmadinejad, vão consolidar o poder dos ayatollah e do líder supremo, Khamenei» («Funeral de clérigo torna-se na maior manifestação antigoverno em anos», Ana Gomes Ferreira, Público, 6.06.2013, p. 23).
      Até no Portal da Língua Portuguesa, sim, não é engano, se pode ver que o plural de ayatollah é ayatollahs. E em inglês, língua que dominam, também é ayatollahs. Não percebo.

[Texto 2940]

«Auto-designar-se»!

Letras a mais

      «Pelos vistos, um certo grupo que se auto-designou como porta-voz do movimento de Taksim identificou sete condições» («As sete condições para abandonar Taksim. Ou serão oito?», Paulo Moura, Público, 8.06.2013, p. 26).
      Ainda que tudo o mais estivesse certo, aquele hífen está errado. Vamos aprimorar isto e, de caminho, poupamos treze caracteres: «Pelos vistos, certo grupo que se designou porta-voz do movimento de Taksim identificou sete condições.» Ou mesmo quinze: «Pelo visto, certo grupo que se designou porta-voz do movimento de Taksim identificou sete condições.» (A consultora Teresa Álvares, no Ciberdúvidas, vê a questão de uma perspectiva redutora: «Não é que “pelo visto” esteja errado do ponto de vista gramatical, mas a forma correntemente usada, e a única que encontrei dicionarizada, é pelos vistos.») Indo mais a fundo, até tenho dúvidas se a expressão «pelos vistos» se adequa no contexto.
[Texto 2939]

Como se escreve nos jornais

Aos dois e aos três, e não chegam

      «Regressado a Inglaterra, [Tom Sharpe] deu aulas durante uma década no Cambridge College of Arts and Technology, experiência que lhe seria de grande utilidade para a futura série de romances protagonizados por Henry Wilt, um académico frustrado com os alunos e com os colegas, desejoso de se livrar de uma mulher deveras vinculativa, e com uma propensão quase sobrenatural para se envolver em graves sarilhos com as autoridades, geralmente baseados em divertidos equívocos» («O romancista britânico Tom Sharpe, criador de Wilt, morreu ontem em Espanha», Luís Miguel Queirós, Público, 7.06.2013. p. 36).
      «Mulher vinculativa»? Que é isto? Não li, e por isso não sei. Lembrei-me logo, eu sei lá, de má tradução, péssima aliás, de vindictive, «vindicativo» ou «vingativo». Mas não há-de ser isto, mas maneira pseudoliterária de dizer que a mulher era agarradiça.
      Confrontar a mesma notícia em mais do que um jornal é sempre útil. Não, não é útil, é uma perda de tempo, mas serve para nos lembrarmos que nunca nos podemos fiar. Assim, se o Diário de Notícias nos afiança que Tom Sharpe vivia em Llafranc «há mais de uma década», o Público garante-nos que «habitava há mais de duas décadas» naquela localidade catalã.
[Texto 2938]

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