«Verdade verdadinha»

Os nossos queridos diminutivos

      «Verdade, verdadinha, a Noruega teve de fazer 32 poços para conseguir descobrir as suas reservas [de petróleo]», disse Ferreira de Oliveira, vice-presidente da Galp. («Só falta encontrar crude em Portugal», Diário de Notícias, 28.05.2013, p. 33).
      Expressão curiosa, não é? Como curiosas são as expressões «franqueza franquezinha» e «certeza certezinha». Nem sempre aparecem separadas por vírgulas.
      «E, verdade verdadinha, antes obedecer aos astros do que a outros. A nossa obediência aos astros é a um tempo involuntária e heróica. Involuntária, porque a vontade é a deles, e heróica, porque não há-de ser vencida pela dos humanos» (Nome de Guerra, José Almada Negreiros. Lisboa: INCM, 1986, p. 199).
      «– A sério, a sério, que não és capaz? Tens a certeza, Abel? A certeza certezinha?» (Contos da Montanha, Miguel Torga. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2011, 2.ª ed., p. 110).
      «E formulei-me a proposição debaixo de tais palavras, visto que sou animal de ar livre, de claridade, dos primeiros impulsos, da franqueza franquezinha, e dado o meio em que vivemos porque me sinto deslocado e fora do tempo» (Estrada de Santiago, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Bertrand Editora, 1985, p. 57).
[Texto 2895]

Léxico: «pasteleira»

É preciso ter força

      «Antigamente usavam-se as pasteleiras, o que requeria bastante mais esforço físico [diz a carteira Paula Pereira]» («“Os carteiros aproveitam e fazem manutenção ao corpo”», Joana Capucho, Diário de Notícias, 28.05.2013, p. 56).
      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, encontramo-lo no verbete de «bicicleta»: «bicicleta pasteleira: bicicleta pesada e robusta, com características que em geral já não são comuns em bicicletas actuais, como é o caso de sistemas de três velocidades, travões de alavanca e faróis alimentados com dínamo». Na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, ocorre explicitamente como substantivo: «Certa forma antiquada de bicicletas com o guiador alto, talvez por ter sido o seu uso comum entre os pasteleiros que faziam entregas aos domicílios» (Vol. XX, p. 571).
      E uma verdadeira pasteleira, daquelas pesadonas, uma Yé-Yé ou uma Vilar, não terá antes carreto simples?
[Texto 2894]

«Precursor/percussor»

Só faltou percursor

      «“Em 1991, o Curso de Chinês na Missão de Macau era quase o único existente em Portugal, mas hoje em dia, os cursos de chinês encontram-se por todas as partes de [sic] país. Recebo constantemente pedidos para ensino de mandarim, por parte de instituições ou particulares”, conta a docente universitária Wang Suoying, que em conjunto com o marido[,] Lu Suoying, foram percussores do ensino da língua chinesa em território nacional a partir do início da década de 90» («Mandarim, uma língua do futuro», Liliana Duarte, Público, 25.05.2013).
      Não temos de memorizar os milhares de caracteres do mandarim, mas alguma coisa temos de memorizar. Percussor é o que percute, o que bate, e precursor é o que vai adiante, o que anuncia ou faz algo com antecipação. Os Suoyings foram precursores do ensino do mandarim, porque foram os primeiros a ensinar, em Portugal, esta língua.
[Texto 2893]

Sobre «colégio»

Menos formal

      Ora vejamos: «Apesar de ter reunido um colégio de especialistas, que fez a despistagem das pinturas, a PJ não sabe ainda se o conjunto das pinturas foi feito por apenas um ou vários falsificadores» («Mais de 300 pinturas falsas de Palolo e Paula Rego apreendidas pela PJ», Vanessa Rato, Público, 25.05.2013, p. 28).
      «Colégio» remete sempre para uma ideia de corporação, de algo que permanece no tempo. O que a Polícia Judiciária fez foi contratar vários especialistas, e, até talvez de forma individual, ouvir a sua opinião sobre as pinturas.
[Texto 2892]

«Falsos Palolo»?

Não pode ser

      Há diversos tipos de falta de concordância, de desconcordância. «De qualquer forma, a quantidade de falsos Palolo encontrados aponta para um inundar do mercado onde muitas das falsificações podem ter entrada [sic] há já bastante tempo» («Mais de 300 pinturas falsas de Palolo e Paula Rego apreendidas pela PJ», Vanessa Rato, Público, 25.05.2013, p. 28).
[Texto 2891]

Optar pelo que é nosso

Et cetera

      Por vezes, o melhor seria os tradutores seguirem exactamente algumas das palavras que encontram do original. «In un passo decisivo dell’Etica Nicomachea, etc.» «Questo passo è stato citato innumeravoli volte, etc.» Ou então: trecho, excerto, relanço, lugar, etc. Outras vezes, pelo contrário, o mais acertado era procurarem, não por qualquer sanha persecutória, antes por amor à língua, formas mais vernáculas: «Mi rendo conto di essere forse, etc.» E escolherem algum dos sinónimos de que já falámos: advertir, atentar, cair na conta de, dar conta, dar fé, dar por, dar razão, enxergar, observar, reconhecer, etc.
[Texto 2890]

«Bagagem de cabina»

Tragam a fita métrica

      Então e sabiam que «50 cm por 40 cm e 20 cm é o novo limite que os passageiros da companhia aérea [easyJet] terão de cumprir para a bagagem de cabina»? («EasyJet tem novo limite de tamanho para as malas de cabina», «Liv»/i, 25.05.2013, p. 3).
      Mero pretexto, este, para lembrar que talvez seja mais habitual usar-se «bagagem de mão», que significa o mesmo. Também salta à vista que a frase não saiu lá muito bem.
      «Eles entravam no avião carregados de bagagem de cabina, sentavam-se nos seus lugares com o chapéu preto enfiado na cabeça, comprimiam os sacos e saquinhos, com chouriços e queijos para presentear os familiares que os aguardavam ansiosos num moderno aeroporto dum mundo desconhecido, entre as pernas, e o guarda-chuva no colo» (A Deriva dos Continentes, Clara Pinto Correia. Lisboa: Relógio D’Água, 1997, p. 159).
[Texto 2889]

«No último Censos»!

Agora é assim

      «Carlos Santos é um dos milhão e 200 mil idosos que vivem sozinhos em Portugal. O número foi identificado no último Censos, que mostra que 60% da população idosa vive sozinha ou na companhia de outros idosos» («Isolados. Para lá dos 65 anos há uma luta escondida contra a solidão», Filipe Morais, i, 25.05.2013, p. 18).
      Aqui falei de alguém normal. Mas agora isto é que vai sendo a norma, escrever com flagrantes desconcordâncias.
[Texto 2888]

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