Como se escreve nos jornais

Como calha

      «Neto de avós portugueses e filho de um shaper [fabricante de pranchas], Henrique parece ter já vindo com destino traçado quando veio ao mundo» («Pedro Henrique. Um surfista contra natura [sic] e um emigrante contra corrente», Beatriz Silva, i, 25.05.2013, p. 53).
      Queixamo-nos do preço dos jornais, mas temos de ver que nos dão a conhecer factos mais ou menos verdadeiros e ainda nos ensinam línguas, sobretudo inglês. Servido como se fosse português, sem aspas nem itálico. E é claro que os parênteses rectos não são os adequados. Pormenores.
[Texto 2887]

«Promotor público»?

Enganou-se, pois então

      «Na década de 30, o promotor público de Nova Iorque, Thomas Dewey, bem tentou passar a certidão de óbito da Máfia. Enganou-se» («Louis Ferrante. Palavra de honra que se aprende com a Máfia», Maria Ramos Silva, «Liv»/i, 25.05.2013, p. 9). Ora escrevem «promotor público», ora «promotor de justiça», como vimos aqui, tudo menos o correcto. Mesmo que seja apenas uma moda, vai deixar marcas.

[Texto 2886]

«Quando mais não seja»

Macaqueando e ensinando

      «Matéria relevante — parece-me — para ser noticiada, quanto mais não seja porque o exemplo de alguém tão conhecido é importante e formativo» («Isaltino e Angelina», Rui Patrício, i, 25.05.2013, p. 14).
      É mais ou menos isso, Sr. Dr. E trago-a aqui porque é matéria relevante — parece-me — para ser tratada, quando mais não seja porque o exemplo de alguém tão conhecido é importante e formativo.

[Texto 2885]

Como se fala por aí

Excessivo

      «Miguel Sousa Tavares já veio admitir ter sido “excessivo”. “É muito simples, eu não tenho nenhuma consideração política pelo professor Cavaco Silva, conforme é público, mas tenho pelo chefe de Estado, seja ele quem for e nesse sentido reconheço que não devia ter dito aquilo”, afirmou à Lusa, qualificando as suas palavras como um “deslize”. “Obviamente que lhe chamei palhaço no sentido político”, ressalvou ao “Expresso”» («Código Penal. “Palhaço”, mas só em sentido político. Será insulto?», Susete Francisco, i, 25.05.2013, p. 32). 
      «Palhaço» em sentido político? E se eu — ou, para ser mais realista, Miguel Sousa Tavares — chamar palhaço a um vizinho, é o quê, em sentido vicinal?
[Texto 2884]

Tradução: «prosecutor»

Peter Zinner é...

      «“Este não foi um roubo de sorte. Existem fortes indícios de que Jamie Filan sabia que o senhor Mourinho e a sua família estavam hospedados no quarto e que estes foram o seu alvo por saber que faria uma ‘bela colheita’”, declarou o promotor de justiça, Peter Zinner, no tribunal de Southwark Crown, revelando que o treinador ficou extremamente “angustiado” com o sucedido» («Assaltante de Mourinho leva 31 meses de prisão», Marlene Rendeiro, Diário de Notícias, 15.05.2013, p. 53).
      Peter Zinner é prosecutor ou, como se lê em alguns sítios, «London Crown Advocate». Isto traduz-se por «promotor de justiça»? Não será antes «procurador da Coroa» ou «advogado da Coroa»?
[Texto 2851]

«Desgranar»?

Mas é bonito

      «Muitos [peregrinos a caminho de Fátima] vão a pé, desgranando as contas do rosário, apoiados num bordão, de mochila às costas e bolhas nos pés» («Oásis», Gonçalo Portocarrero de Almada, i, 11.05.2013, p. 13).
      À puridade lhe digo, Sr. Padre: acho que só para lá de Badajoz é que se diz dessa forma. Aliás, é pronominal, desgranarse, pois é o que se diz das contas de um colar, de um rosário, etc., quando se soltam. Claro que, em sentido figurado, até das horas se pode dizer o mesmo. Mas para lá de Badajoz.

[Texto 2828]

Léxico: «narsa»

Com que então falam assim

      «“A lei muda hoje? ‘Tamos feitos, temos de apanhar uma ganda narsa.” A reacção é imediata. Concha, Mar e Sebastião têm 16 anos e costumam sair entre uma vez por mês e sempre que não há aulas no dia seguinte, a regra de quase todos» («Nova lei do álcool. “Muda hoje? ‘Tamos feitos. Vamos apanhar uma ganda narsa”», Marta F. Reis, i, 2.05.2013, p. 26).
      Narsa ou nassa — ou moca. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o: «entorpecimento ou euforia induzido por drogas ou álcool; pedrada, ganza».
[Texto 2799]

Já há chefes

Até que enfim

      «No novo artigo, o cerco aperta: dado que a maioria dos chefes não cumpre, deverá haver maior colaboração com nutricionistas: “Uma vez que o público os valoriza como fonte de conhecimento, é essencial e uma responsabilidade profissional melhorarem as receitas”» («Chefes famosos. E se os pratos deles fizerem mal à saúde?», Marta F. Reis, i, 30.04.2013, p. 29).
      Vá lá, já vai havendo jornalistas que compreendem que não têm de usar o termo francês chef para se referirem aos cozinheiros profissionais. Nem tenho bem a certeza, mas creio que foi por sugestão minha que «chefe» (sim, o mesmo termo, mas aportuguesado), nesta acepção, passou a figurar no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
[Texto 2798]

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