«Possuir/ter»

Se fosse só isso

      Passa pela cabeça de alguém que saiba ler há mais de quatro anos substituir em todos os contextos o verbo ter pelo verbo possuir? Sim, pela cabeça de um jornalista: «Disse à polícia que pertencia à Al-Qaeda, mas certo apenas é possuir problemas psicológicos» («Tiroteio em Marselha faz três mortos e um ferido», Paulo Dentinho, Jornal da Tarde, 26.04.2013).
[Texto 2781]

«Caução carcerária»

Demasiado simples?

      «Terá sido essa a perceção do juiz de instrução de Mirandela que optou por uma caução que não deixa de ser carcerária, até pelo elevado montante estabelecido» («Liberdade provisória aplicável a todos os crimes», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 26.04.2013, p. 18).
      É interessante como subsistem estes termos. Caução carcerária é a que visa assegurar com eficácia a comparência do arguido a todos os termos do processo em que seja necessário e o cumprimento das obrigações impostas pelo juiz. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, a definição é muito (demasiado?) mais simples: «caução que permite ao arguido cumprir a sentença em liberdade».

[Texto 2780]

«Decodificar» não existe

Não devia lá estar

      Decodificar para aqui, decodificar para ali... Mas já há sete anos, no Ciberdúvidas, José Neves Henriques lembrou aos mais esquecidos que «em português não há “decodificar”, mas sim descodificar, formada do prefixo des-, acção contrária codificar». Infelizmente, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «decodificar», e nem por remeter para «descodificar» chega para evitar más opções. Donde se conclui que há tantas palavras que podiam entrar neste dicionário como as que deviam sair.

[Texto 2779]

«Sintáctico/sintáxico»

Pouco se vê

      «A automatização da identificação das palavras escritas é muito importante porque liberta recursos linguísticos e cognitivos para as operações de análise sintáxica e de integração semântica que fazem parte do processo de compreensão dos textos.» Ainda está em edição, e talvez «sintáxico» seja alterado para «sintáctico» — mas é difícil quando o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, regista «sintáxico», embora remeta para «sintáctico». Só pode ser, ou influência do francês syntaxique, ou por analogia com outros termos portugueses.
[Texto 2778]

Léxico: «ciclogénese»

Talvez não seja assim

      «Mas o que marcou janeiro foram os ventos que por todo o País arrancaram milhares de árvores. A tempestade ocorreu “devido a uma depressão centrada a oeste da Corunha, que sofreu um processo de ciclogénese explosiva”, explica o IPMA no boletim climatológico sobre o inverno, sendo que ocorreram rajadas superiores a 100 km/hora em quase todo o território e 140 km/hora no Cabo Carvoeiro» («Inverno que acaba hoje foi mais frio do que o normal», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 20.03.2013, p. 16).
      De acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «ciclogénese» — que é o «processo de desenvolvimento ou intensificação de um ciclone» — é termo usado no Brasil. Talvez não seja. E, curiosamente, não está no Dicionário Houaiss.
[Texto 2705]

Como se escreve nos jornais

Apesar do título

      «A notícia segundo a qual o jovem “baleado” na Bela Vista (Setúbal) não foi afinal baleado, confirmada em comunicado pela Procuradoria-Geral da República, é um twist interessante, que aproxima o caso de uma narrativa de ficção. O problema é que, com as narrativas de ficção, nunca está definitivamente esgotada a possibilidade de novo twist» («‘Come on, let’s twist again’», Joel Neto, Diário de Notícias, 20.03.2013, p. 52).
     Qual é o objectivo — não ser compreendido pela maioria dos leitores? Força, está no caminho certo.

[Texto 2699]

Como se escreve nos jornais

O culminar

      «Falhas só mesmo as palavras que o jogo [Apalavrados] não reconhece e que se espera que o concurso de TV admita. “Não assume interjeições e há expressões que aceita e não sei bem porquê. Nesse aspeto não é perfeito”, colmata a jornalista [Rita Marrafa de Carvalho]» («Da Internet à televisão: acorrentados às palavras», Ana Filipe Silveira, Diário de Notícias, 20.03.2013, p. 51).
      Se a primeira jornalista, a entrevistada, errou ao dizer que o jogo «não assume interjeições», a segunda, a entrevistadora, não acertou quando confundiu «colmatar» com «rematar».
[Texto 2698]

Sobre o verbo «explodir»

Quão moderno?

      «Quinze minutos antes, aparentemente os mesmos dois assaltantes chegaram de moto à estação de serviço da Galp na Estrada da Torre, em Cascais, e explodiram com a ATM» («Explodiram ATM e fugiram de moto», R. C., Diário de Notícias, 20.03.2013, p. 26).
      Embora haja dicionários, e não são poucos, a dizerem o contrário, para mim o verbo «explodir» é apenas intransitivo, pelo que diria «fizeram explodir a ATM». (Anota Rebelo Gonçalves no seu Vocabulário da Língua Portuguesa: «Inexacta a forma explosir, empregada por Camilo.» Mas explosir é de etimologia popular, e alguns estudiosos da língua não condenaram o seu uso. Agora, porém, nada disto interessa, porque já ninguém conhece esta variante.)
[Texto 2697]

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