Ortografia: «bísaro»

Há muito tempo

      «Sensivelmente à mesma hora em que a esposa punha termo à vida do seu filho e da sua, o autarca participava em Vinhais na Cerimónia de entronização dos confrades da Confraria do Porco Bízaro e do Fumeiro de Vinhais, no âmbito da feira do fumeiro que decorre naquela vila» («Mãe lança-se de janela de hotel com o filho de 12 anos», José António Cardoso, Diário de Notícias, 10.02.2013, p. 22).
       Pelo menos actualmente, que é o que interessa, é bísaro que se escreve, como se pode comprovar nos dicionários.
[Texto 2580]

«Estatuto»?

Lá como cá

      «Na Alemanha, o estatuto de doutor é muito respeitado e é mencionado sempre que se refere a identidade de uma pessoa. Por exemplo, Merkel é mencionada como “senhora doutora Angela Merkel”» («Merkel perde a sua ministra e amiga acusada de plágio», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 10.02.2013, p. 31).
       Hum, afinal não é apenas em Portugal. «Estatuto» será o termo mais adequado no contexto?

[Texto 2579]

Com o latim me enganas

A importância de se chamar Nemo

      «A decisão de chamar Nemo à tempestade de neve que atingiu os EUA e o Canadá está a causar polémica. Tudo porque o nome não é oficial, como acontece com os furacões, tendo sido escolhido pelo Weather Channel (o canal de meteorologia dos EUA). E porque a primeira ideia que vem à cabeça das pessoas quando se fala em Nemo é o peixe do filme de animação da Pixar, À Procura de Nemo. Na realidade, explicou ao The New York Times o responsável pelo nome, Bryan Norcross, a inspiração é a origem latina da palavra, que significa “ninguém”, como o Capitão Nemo, do livro Vinte Mil Léguas Submarinas, de Júlio Verne» («Tempestade ‘Nemo’ gera polémica», Diário de Notícias, 10.02.2013, p. 30).
[Texto 2578]

Uso das maiúsculas

Só para coisas grandes

      «Este estado baniu, pela primeira vez desde o Grande Nevão de 1978, a circulação de todos os veículos, para não atrasar as operações de limpeza» («Neve deixa 650 mil sem luz e mais de cinco mil voos em terra», Susana Salvador, Diário de Notícias, 10.02.2013, p. 30).
      Merecerá as maiúsculas? E o nosso grande nevão de 1954, pode ser com minúsculas?
[Texto 2577]

Léxico: «snowboardista»

Primeiro passo

      «Equipada a rigor com luvas, óculos, cachecol e fato de neve cor-de-rosa a condizer com as botas próprias para fazer snowboard, Maria de Matos Costa faz a prancha deslizar pela neve de forma admirável. Não fosse o tamanho da criança e facilmente se poderia pensar que aquela “snowboardista” tem larga experiência» («Pistas da serra da Estrela servem para “enganar o vício” da neve», Catarina Canotilho, Diário de Notícias, 10.02.2013, p. 20).
      Por enquanto ainda envolta em aspas assépticas, não tardará a seguir o caminho de outras, como «icebergue», por exemplo, e a trazer o mesmo tipo de problemas.
[Texto 2576]

«Edredão/edredom»

É o que se ouve

      «Quem, ontem, passou junto ao prédio onde vivia o estilista ainda podia ver penduradas numa corda na marquise do apartamento várias peças de roupa, nomeadamente calças e uma blusa, além de uma toalha e de um edredom» («PJ detém fotógrafo por homicídio de estilista», José Manuel Oliveira, Diário de Notícias, 8.02.2013, p. 20).
      Também está aportuguesada em edredão, mas a verdade é que quase sempre se usa «edredom». Cócedra, cúlcita ou cúlcitra já nem aparecem em todos os dicionários.
[Texto 2575]

«A meia voz» ou «a meia-voz»?

Isto é uma república

      Continuamos a contribuir, se nos deixarem, para melhorar o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, porque não há reis (nem rainhas) das palavras. No verbete «sangue-frio», temos a locução a sangue-frio. Contudo, no verbete «meia-voz», não temos a locução a meia-voz, que encontramos — sem hífen — no verbete «voz». Alguém entende isto? Que se apresente.
[Texto 2534]

«Alguém» ou «ninguém»?

Será mesmo exigido pela língua?

      «Era o fidalgo a única pessoa que exercia influência em Bento de Araújo, e tamanha que pudera arrancar-lhe alguns mil cruzados a juros, sob juramento de não dizer a alguém que lhos devia» (Novelas do Minho, 1.º vol., Camilo Castelo Branco. Fixação do texto e nota preliminar pela Dr.ª Maria Helena Mira Mateus. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1971, p. 213). Já tratei desta questão vai para sete anos. Outro Araújo, o excelso João de Araújo Correia, na obra Enfermaria do Idioma, afirma que uma das cismas de Camilo era, em certas frases, «substituir o alguém da sua cachimónia ao ninguém exigido pela sua e nossa língua» (p. 188). Se antes me pareceu que Araújo Correia tinha razão, hoje já tenho dúvidas.

[Texto 2514]

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