Palavra de 2012

Venceu a insensatez

      «É o estado de espírito do país que durante 2012 andou às voltas com a troika. Não será por isso de estranhar que “entroikado” tenha sido eleita a palavra do ano numa votação organizada pela Porto Editora. O adjectivo não terá sido usado com muita frequência, mas é a palavra que parece representar melhor o ano que acabou agora» (“Entroikado” é a palavra num ano de crise, cortes, impostos e desemprego», Cláudia Carvalho, Público, 5.01.2013, p. 26).
      E não, não terá sido usado com muita frequência, se é que alguma vez se usou. Nunca esteve na presença dos meus ouvidos ou dos meus olhos.
[Texto 2483]

Como se fala nos tribunais

Assim mesmo

      «João Aibéo aproveitou ainda as alegações finais para deixar um lamento: “O Ministério Público aguentou estoicamente ao longo destes oito anos [de julgamentos] afirmações absolutamente inadmissíveis”, afirmou, recordando o dia em que Sá Fernandes lhe lançou um shame on you — assim mesmo, em inglês e em plena audiência» («Carlos Silvino tem “complexos de homossexualidade”, acusa procurador em julgamento», Ana Henriques, Público, 4.01.2013, p. 8).
      Assim mesmo – sim, porque em português não há, como é sabido, palavras que cheguem para exprimir tal coisa.
[Texto 2482]

«Quando muito»

Ainda não

      «Antigamente, as “crises” da economia e das finanças do Estado afectavam pouco mais do que a classe média e a pequena burguesia de Lisboa e do Porto, que por causa da fraqueza da moeda deixavam de poder importar “produtos de qualidade” (a moda francesa, por exemplo) e, coitadinhas, viajavam menos. Por isso, as “crises” do liberalismo não provocavam revoluções; provocavam, quanto muito, “uniões nacionais”, que a certa altura os levaram juntinhos para o governo (sem faltar um único), pendurados numa gerigonça chamada “A Fusão” (que tanta gente, ainda em 2013, incita o dr. Cavaco a fabricar)» («Quem não sabe?», Vasco Pulido Valente, Público, 4.01.2012, p. 48).
      Quem sabe, talvez venha a ser assim, mas, por enquanto – e neste caso os dicionários portam-se bem­ –, é quando muito, isto é, no máximo, se tanto, que se diz e escreve.
[Texto 2481]

Léxico: «assistencialismo»

É isso mesmo: só todos juntos

      Parece sempre mentira, mas é sempre verdade: faltam nos dicionários termos corriqueiros e outros que, embora mais incomuns, há muito, porém, são usados. Seja hoje «assistencialismo». É a tal doutrina que manda dar o peixe em vez de ensinar a pescar — para apaziguar a sociedade e a classe dominante continuar a ter boa consciência. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora desconhece. Por isso não é de estranhar que também não registe «oblomovismo», não é assim?
[Texto 2480]

Tradução: «cecina»

Agora é presunto

      «Hoje é dia de falarmos de um novo produto que, sendo conhecido em Espanha, é inédito por cá: presunto de carne de vaca. Em Espanha, chama-se cecina» («Um presunto de vaca», Edgardo Pacheco, revista «Domingo», Correio da Manhã, n.º 12 551, p. 56). Nem itálico nem aspas, nada. Cecina. Segundo o Dicionário da Real Academia Espanhola, é a «carne salada, enjuta y seca al aire, al sol o al humo». O termo poderá vir de um hipotético siccīna, «carne seca», de sĭccus, «seco» em latim. Aqui já falámos de presunto de cabra e de ovelha. E talvez tenhamos de voltar a pedir: redija-se outra definição.
[Texto 2479]

Léxico: «opilião»

Aracnologia impura

      Opilião. O Dicionário Houaiss assegura que é regionalismo brasileiro. É, lê-se na definição, a «designação comum aos arácnidos da ordem dos opiliones, que se notabilizam pelo corpo oval e compacto, pelas patas extremamente finas e longas e pelo forte cheiro desagradável que exalam». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é verdade, não o acolhe, mas não é regionalismo brasileiro.
      Opilion é, em latim, o pastor de ovelhas. Há-de haver alguma analogia, mas não muito precisa, porque o nome comum do opilião em francês é faucheur, ceifeiro, segador.
[Texto 2478]

Léxico: «porcionista»

Não é todos os dias

      Ontem, ouvi pela primeira vez, dita por um tenente-coronel na reforma, uma palavra: porcionista. Conheciam? Espantosamente, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe-a: «aluno que paga a sua educação e sustento num colégio». Estará certa a definição? Hum... Parece o contrário do que se lê em Bluteau, que é «o estudante a que se dá sustento no colégio em que assiste, como v.g. os Porcionistas dos Colégios de S. Pedro e S. Paulo em Coimbra».
[Texto 2477]

Sobre «robe»

De chambre

      «“Hoje é o dia em que finalmente me torno a senhora Hefner. Não podia sentir-me mais feliz, afortunada e abençoada”, escreveu a noiva [Crystal Harris] no Twitter, onde publicou uma fotografia com o seu “vestido de sereia” em tons rosa. Hugh Hefner trocou o seu habitual robe e envergou um smoking para o seu terceiro casamento» («Novo ano, casamento novo», Público, 2.01.2013, p. 31).
      Aos ricos, tudo é permitido — ou era, porque a impunidade, afirmou a ministra da Justiça, acabou. De roupão, como eu também um dia vi uma figura famosa em pleno Saldanha. Ah, sim, raramente a língua me trai a dizer «robe». Por nada de especial, excepto por ser galicismo desnecessário.
[Texto 2476]

Arquivo do blogue