Como se escreve nos jornais

Se acham que sim

      «Os números do Ministério da Educação e Ciência mostram ainda que nenhum aluno conseguiu tirar 20 no exame de Português. O facto de a prova feita por 78 845 estudantes ser uma das que permitem respostas mais ambíguas é uma das justificações para que ninguém tenha conseguido acertar em tudo. Ainda assim, existem 15 que ficaram com 20 por arredondamento, ou seja, tiveram classificação acima dos 19,5 valores, numa escala de zero a 20» («35 alunos conseguiram 20 no exame de Matemática», Ana Bela Ferreira e Joana Capucho, Diário de Notícias, 10.07.2012, p. 14).
      Ainda tiveram a ajuda de outros dois jornalistas, mas saiu assim. Agora a frio, acham mesmo que a justificação é essa, as respostas poderem ser mais ambíguas?
[Texto 1803]

«Sortir/surtir»

Uma investida

      «Although her gentle insistence about this has sometimes had no effect.» «Embora a sua suave insistência quanto a este assunto nem sempre sortisse efeito.» E na semana passada li que «as gaivotas faziam sortidas no mar». Sortir, entre outras coisas, é prover(-se), abastecer(-se). Surtir é ter como consequência; dar origem a; obter resultado. De vez em vez, é recomendável que quem vive da escrita perca uns minutos a consultar um dicionário. E, para surtir efeito, reflectir um pouco.
[Texto 1802]

«Xeque/xeique»

Chefe de tribo africana

      Xeique? «Em português, porém, em prosa de clássicos, escreveu-se sempre xeque», lê-se na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. No Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves, entre os topónimos Xefina e Xeldém, também só irão encontrar o vazio, uma entrelinha, pois não regista «xeique». Como também o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora o não regista. Ainda assim, há quem se ache no direito de «corrigir» quem escreve «xeque». Impressionante.
[Texto 1801]

«Catástrofe humanitária»!

Isto ainda não acabou

      «Segundo os habitantes de Krimsky, a cidade foi arrasada por uma onda de sete metros que pode ter sido provocada por chuvas ou por descargas de uma barragem situada na parte alta da cidade, revela a AFP. Este facto foi desmentido pelas autoridades locais, porém Vadim Nikanorov, dirigente da Agência Federal para os Recursos Híbridos, reconheceu que houve descargas, mas rejeita que possam ter sido a causa da catástrofe humanitária» («Rússia cumpre luto em dia de demissão de dirigente», Diário de Notícias, 10.07.2012, p. 27).
[Texto 1800]

Quantos continentes

Sabe-se lá

      Ontem, às 14h30, um Boeing 777 da Emirates aterrou em Portugal, «com direito a baptismo de voo», ouvi no Telejornal. Tiago Simões, antigo piloto da TAP e agora naquela companhia aérea, declarou à chegada (no português possível, digamos): «É um desafio bastante grande e bastante interessante de poder voar para seis continentes e para uma quantidade de destinos e com uma diversidade de nacionalidades no cockpit e na cabine.»
      Não sei se foi a minha professora da escola primária que nos poupou a esta controvérsia frustrante sobre o número de continentes ou se, como é mais provável, ela a desconhecia. É impressionante como até sobre esta questão há opiniões desencontradas. São cinco, propugnam uns; são seis, afirmam outros; nada disso, são sete, defendem outros. Da mesma forma, temos de estar atentos à despromoção de planetas.
      E quanto ao «baptismo de voo», o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora desconhece o que seja. Regista, isso sim, «baptismo do ar»: primeira viagem aérea de uma pessoa. De uma pessoa, não do próprio avião.
[Texto 1799]

«Ser necessário»

É preciso saber

      Nuno Crato, ministro da Educação, ontem no Telejornal: «Nós estamos a trabalhar para o estabelecimento de metas que ajudem os professores, os alunos, os pais, os autores de manuais, os autores de exames a ter muito mais claro quais são os objectivos que em cada ano são necessários atingir.»
      Nas locuções ser necessário e ser preciso, o predicativo, como se sabe, pode não concordar com o sujeito, e é mesmo, hoje em dia, o mais habitual. A concordância do verbo e do predicativo com o sujeito encontra-se com frequência em autores clássicos. É conhecida a frase do padre António Vieira para o ilustrar: «Para esta vista são necessários olhos, é necessária luz e é necessário espelho» (Sermão da Sexagésima). A frase do ministro está, pois, errada, já que o sujeito é um verbo no infinito, «atingir».

[Texto 1798]

«Victrola/vitrola»

É preciso distinguir

      Traduzir «Victrola» por «vitrola» pode não ser a melhor solução. Alguns dicionários da língua portuguesa registam o substantivo «vitrola», mas acrescentam que é brasileirismo. Conhecemos muitos outros casos em que um nome comercial é apropriado como nome comum. Neste caso específico, isso não se passou assim em Portugal. Pela proximidade geográfica do Brasil, terá chegado lá em quantidades que justificam e explicam a derivação. Em alguns casos, «Victrola» pode referir-se precisamente a um gira-discos daquela marca, produto da norte-americana Victor Talking Machine Company.

[Texto 1797]

Tradução: «formulaic»

Fórmulas

      «Aside from the frequent formulaic complex sentences beginning with…» Lembram-se, decerto, que uma vez, a propósito do uso do vocábulo «formulaico» por Vasco Pulido Valente numa crónica, tratei desta questão (aqui), de como traduzir o termo. Agora vejo aqui «formulaic complex sentences» vertido por «frases feitas».
[Texto 1796]

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