«Condenação no crime»?

Condenável

      «A condenação (e inabilitação durante onze anos) de Baltazar Garzón no crime de prevaricação, por ter ordenado escutas das conversas confidenciais entre os arguidos do processo Gurtel e os seus advogados, não é trama que mereça ficar entre parangonas» («O caso Garzón», Pedro Lomba, Público, 14.02.2012, p. 40).
      É-se condenado no crime ou pelo crime? Condenado na pena de... pelo crime de...
[Texto 1102]

«Anóxia/anoxia»

Ao seu dispor

      «Uma enorme bolha preta quase tapa a vista de quem entra no Salão Nobre. “É uma bolha de desinfestação por anóxia, perfeitamente segura para os visitantes, onde o mobiliário é colocado para matar os bichinhos da madeira”, esclarece Nunes Pereira [director do Palácio da Pena]» («Aberto para obras», Marina Marques, Diário de Notícias, 30.01.2012, p. 29).
      «Anoxia é uma variação prosódica legitimada pelo uso», escreveu certa vez D’ Silvas Filho. Não faltará quem afirme: «Anóxia é uma variação prosódica legitimada pelo uso.» Alguns dicionários registam as duas formas.
[Texto 1101]

Sobre «recetação»

Quase «receitação»

      «Ao todo, responderam na barra do tribunal de Aveiro seis arguidos, cinco dos quais por participação nos assaltos e um por recetação de ouro» («Ladrão quer trabalhar para ourives que agrediu», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 30.01.2012, p. 20).
      Pois, caro Vítor Lindegaard, não sabemos porque não se fechou o a de «actual» e de «actividade». Pode ser mera especulação, mas em relação ao e de «recetação», um termo pouco frequente, só podemos esperar que, daqui a uns anos, se feche completamente.
[Texto 1100]

Interditar mais a sul

Ou antes

      O Laboratório Nacional de Engenharia Civil fez uma inspecção à Ponte D. Maria II, em Lagos, e afirma que há perigo iminente de desmoronamento. A ponte foi encerrada ao trânsito. O vice-presidente da Câmara Municipal de Lagos, António Marreiros Gonçalves, estudou profundamente o relatório e pode afirmar: «Apesar de ser um relatório ainda preliminar, diz que nós devemos encerrar, ou devemos interdir, a passagem a viaturas e a peões.» Talvez o relatório estivesse escrito em francês, interdire. Não, não: a explicação há-de estar na analogia com o verbo — mais conhecido de qualquer autarca — «intervir».

[Texto 1099]

Como se fala na rádio

... base, sustentáculo...

      Jornalista Jorge Correia, no noticiário do meio-dia na Antena 1: «Whitney Houston passou os últimos com vários problemas sentimentais, de dinheiro e de carreira. Estava, de resto, prestes a ficar na rua, sem casa, se não fosse o suporte e apoio dos seus amigos mais próximos.»
[Texto 1098]

Léxico: «palude»

Fora dos dicionários

      «Quem visita o Sudão do Sul fica com a impressão de que esta é uma terra de contrastes, a começar pela geografia e pelo clima: as savanas secas alternam-se com as paludes e as florestas tropicais; o calor intenso da estação seca contrasta com a humidade da estação das chuvas.» Nunca tinha visto, fora dos dicionários, a palavra «palude». Directamente do latim, é o mesmo que pântano, paul, lagoa. «Paludismo» tem aqui raiz. Quem usou a palavra só se enganou no género, que é masculino.
[Texto 1097]

Infinitivo pessoal e impessoal

E quem não ficaria?

      «A questão dos infinitivos flexionados continua a dar-me cabo da cabeça, e não encontro solução para ela», escreve-me um leitor habitual do blogue. «Será o gosto pessoal o único critério?» A dor de cabeça foi agravada — e com que razão! — por este parágrafo da crónica de Pacheco Pereira no Público de ontem: «O país divide-se assim entre funcionários públicos, vivendo do erário público, acima das suas posses, e fazendo tudo para ter feriados e não trabalhar (os “preguiçosos”), cultivando um egoísmo social assente em pretensos “direitos adquiridos” (“autocentrados”); e jovens yuppies, dinâmicos e empreendedores, com uma “cultura empresarial”, capazes de correrem riscos (“competitivos”), sem cuidarem de terem “direitos” para subirem “por mérito” na escala social (“descomplexados”). Nem uns nem outros existem na vida real, nem sequer como caricaturas, que é o que isto é, mas isso pouco importa» («A nova luta de classes», p. 32).
[Texto 1096]

Sobre «hipster»

Degenerámos

      «Existe o mito de que os espanhóis traduzem tudo: expressões idiomáticas, termos técnicos, nomes de bandas. Não é verdade, apenas são suficientemente confiantes para arriscar em neologismos mais patrióticos. Por isso, frente a alguém que engole tendências de moda com a mesma rapidez com que muda de banda indie favorita, nós, os portugueses[,] dizemos que “é da cena”, escapando ao objectivo de classificar o objecto, ou que é um “hipster”, um estrangeirismo preguiçoso e reconfortante. Um espanhol diz, com todo o orgulho latino, que vai ali um “moderno”. Assim mesmo, a carregar no erre» («Moderna de Pueblo. Com a modernice (não) me enganas», Margarida Videira da Costa, «Liv»/. i, 11.02.2012, p. 8).
      O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora apenas regista neste verbete: «antiquado termo designativo de determinadas pessoas com certas semelhanças com os beatniks e igualmente integradas na Beat Generation». Falta um sentido, por sinal bem moderno. Já sugeri, porque, além de criticar, temos de contribuir activamente para as coisas mudarem.
[Texto 1095]

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