Quantos continentes

Sabe-se lá

      Ontem, às 14h30, um Boeing 777 da Emirates aterrou em Portugal, «com direito a baptismo de voo», ouvi no Telejornal. Tiago Simões, antigo piloto da TAP e agora naquela companhia aérea, declarou à chegada (no português possível, digamos): «É um desafio bastante grande e bastante interessante de poder voar para seis continentes e para uma quantidade de destinos e com uma diversidade de nacionalidades no cockpit e na cabine.»
      Não sei se foi a minha professora da escola primária que nos poupou a esta controvérsia frustrante sobre o número de continentes ou se, como é mais provável, ela a desconhecia. É impressionante como até sobre esta questão há opiniões desencontradas. São cinco, propugnam uns; são seis, afirmam outros; nada disso, são sete, defendem outros. Da mesma forma, temos de estar atentos à despromoção de planetas.
      E quanto ao «baptismo de voo», o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora desconhece o que seja. Regista, isso sim, «baptismo do ar»: primeira viagem aérea de uma pessoa. De uma pessoa, não do próprio avião.
[Texto 1799]
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«Ser necessário»

É preciso saber

      Nuno Crato, ministro da Educação, ontem no Telejornal: «Nós estamos a trabalhar para o estabelecimento de metas que ajudem os professores, os alunos, os pais, os autores de manuais, os autores de exames a ter muito mais claro quais são os objectivos que em cada ano são necessários atingir.»
      Nas locuções ser necessário e ser preciso, o predicativo, como se sabe, pode não concordar com o sujeito, e é mesmo, hoje em dia, o mais habitual. A concordância do verbo e do predicativo com o sujeito encontra-se com frequência em autores clássicos. É conhecida a frase do padre António Vieira para o ilustrar: «Para esta vista são necessários olhos, é necessária luz e é necessário espelho» (Sermão da Sexagésima). A frase do ministro está, pois, errada, já que o sujeito é um verbo no infinito, «atingir».

[Texto 1798]
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«Victrola/vitrola»

É preciso distinguir

      Traduzir «Victrola» por «vitrola» pode não ser a melhor solução. Alguns dicionários da língua portuguesa registam o substantivo «vitrola», mas acrescentam que é brasileirismo. Conhecemos muitos outros casos em que um nome comercial é apropriado como nome comum. Neste caso específico, isso não se passou assim em Portugal. Pela proximidade geográfica do Brasil, terá chegado lá em quantidades que justificam e explicam a derivação. Em alguns casos, «Victrola» pode referir-se precisamente a um gira-discos daquela marca, produto da norte-americana Victor Talking Machine Company.

[Texto 1797]
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Tradução: «formulaic»

Fórmulas

      «Aside from the frequent formulaic complex sentences beginning with…» Lembram-se, decerto, que uma vez, a propósito do uso do vocábulo «formulaico» por Vasco Pulido Valente numa crónica, tratei desta questão (aqui), de como traduzir o termo. Agora vejo aqui «formulaic complex sentences» vertido por «frases feitas».
[Texto 1796]
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Léxico: «hipotáctico»

Está explicado

      Paratáctico está para parataxe como _______ está para hipotaxe. O espaço em branco — e os erros, das poucas vezes que se escreve sobre assuntos que requeiram o vocábulo — é culpa dos dicionários. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «paratáctico», mas omite «hipotáctico», que encontramos, por exemplo, na página 534 do Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves. (Claro que constar do Aulete sem c contribui muito para o panorama. Neste caso, mais valia terem consultado o dicionário da Real Academia Galega.)
[Texto 1795]
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Outro grande modismo

Quem quiser, use

      «Com espanto, o alemão percebeu que os oficiais inimigos, apesar de graduados em coronéis, comandando regimentos em batalha, não se sentiam confortáveis com mapas» («Os coronéis de Tannenberg», Viriato Soromenho-Marques, Diário de Notícias, 9.07.2012, p. 11).
      «Não se sentiam confortáveis com mapas»... Como quem diz, um sem-abrigo confortável com os jornais com que se protege do relento. Também digo: não uso. Nunca me fez falta.

[Texto 1794]
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O absoluto desmazelo II

Ou se se importam, não parece

      «Foi a 16 de março de 2009 que José Gregório dos Santos foi submetio a uma intervenção cirúrgica ao joelho, mais conccretamente, seguno o despacho de acusaão da secção do DIAP de Lisboa, uma “meniscectomia parcial artroscópia, realizada sob anestesia epidural”. A administração da anestesia provocou em José Gregório dos Santos uma “lesão iatrogénica”» («Morte de doente em operação ao joelho vai a tribunal», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 9.07.2012, p. 18).

[Texto 1793]
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Tradução: «publisher»

Já souberam

      «“Somos um país pequenito”, concorda Fernanda Dias, prosseguindo: “Temos menos famosos, com menos histórias” Para a publisher e diretora da revista Caras, para lá da quantidade de personalidades em Espanha, existe a monarquia que, por si só, “dá pano para mangas”» («‘Jet Set’ a sério e tom agressivo ditam êxito em Espanha», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 9.07.2012, p. 50).
      Eles sabem que há uma palavra em português para designar o mesmo, mas esqueceram-se dela (como se pode ver aqui). E jet set com maiúsculas iniciais é o respeito absoluto.

[Texto 1792]
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O absoluto desmazelo

Ninguém se importa, ao que parece


      «Um labitinto feito de pereiras, ameixeiras, maceeiras e oliveiras. [...] O projeto funciona como uma espécie de aldeia praticamente autosuficiente, com serviços necessários para a subsistência dos seus quase 400 habitantes. [...] Uma queijaria e um fumeiro são alguns dos projetos a curto prazo, que vão contar com o apoio da EDP. O parque tem ainda planos para a construção de um hospital, assim como a preparação da candidatura do Hotel Quinta da Paiva, uma maneira de tornar o projeto economicamente autosuficiente» («Prémio para ‘aldeia’ que integra deficientes», Mariana Barbosa, Diário de Notícias, 9.07.2012, p. 17).
      Palavras para quê, não é? É o moderno Diário de Notícias. De escola de revisores para isto que agora vemos todos os dias. Todos.
[Texto 1791]
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«Precursor/percursor»

Politicamente correcto

      «As primeiras mulheres a andar de bicicleta foram vistas como percursoras do movimento de emancipação feminina e chocaram uma sociedade conservadora. “Nos finais do século XIX, quando começaram a andar de bicicleta, as mulheres usavam espartilhos e saias compridas. A ideia de abrirem as pernas e se sentarem no selim chocava as pessoas. Os homens achavam que não era apropriado”, conta Maria Filomena Mónica, historiadora e socióloga» («A idade não é obstáculo para elas aprenderem a pedalar», Joana Capucho, Diário de Notícias, 9.07.2012, p. 16).
      É uma política antidiscriminatória: não querem distinguir entre quem vai à frente e quem simplesmente vai. Ah, sim, e também ignoram a ortografia. Tencionava sugerir-lhes uma mnemónica, mas vou antes recomendar-lhes que tenham respeito aos leitores.
[Texto 1790]
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«As mesmas», «o mesmo»...

Evitem isso

      «Durante o período em que esteve com dores, José Gregório dos santos [sic] queixou-se das mesmas à enfermeira de serviço, que contactou o médico. António O. observou o doente e, de acordo com a acusação do DIAP de Lisboa, “determinou” que o mesmo “se deveria levantar para um cadeirão e ali repousar por momentos”. Neste momento, a 17 de março de 2009, o médico não determinou a realização de uma TAC» («Morte de doente em operação ao joelho vai a tribunal», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 9.07.2012, p. 18).
      «Das mesmas» — grande bordão da actualidade — faz tanta falta na frase como uma viola num enterro. E, como que a demonstrá-lo cabalmente, a sua eliminação muitas vezes nem sequer implica a reescrita da frase. Pensem nisso.

[Texto 1789]
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«Hash/haxe»

Não precisamos disso

      Ele depois reconheceu, lá no cantinho da redacção, que tinha andado a fumar muito hash... Já estamos no ar?! Estou farto de ver assim escrito em todo o lado. Mas porque não escrever sempre «haxe»? Terá sido Álvaro Guerra, na década de 1970, o primeiro a usar numa obra sua o vocábulo «haxe»? Os historiadores da língua que o digam.
[Texto 1788]
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«Zona de guerra»

Rangeres de dentes

      «O mercado de operações de alto risco em cenários de conflito armado está a ser procurado por jovens que acabam contratos militares em forças especiais portuguesas. Exemplo disso é o facto de 20 ex-operacionais rangers, que tiveram formação no Centro de Tropas de Operações Especiais de Lamego, estarem, neste momento, a obter certificação para conseguirem trabalhar na área em que morrer faz parte do trabalho» («Ex-militares portugueses recrutados para zonas de guerra», Luís Fontes, Diário de Notícias, 8.07.2012, p. 20).
      Ora, muito nos surpreende, porque os jornalistas gostam muito da expressão war theater, perdão, teatro de guerra. Mas levamos com os rangers.

[Texto 1787] 
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Léxico: «megaparóquia»

Continua tudo em grande

      Pronto, só cá faltava esta: «Falta de padres leva Igreja a apostar em ‘megaparóquias’» (Rita Carvalho, Diário de Notícias, 8.07.2012, p. 16). Por enquanto, ainda com as profilácticas aspas, a ver se pega.

[Texto 1786]
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Ortografia: «maus tratos»

Alegadamente

      «O crime chocou a Suíça, tanto mais que Cidália Carvalho, de 31 anos, e a filha, de 13 anos, já não viviam com o agressor há vários meses e as autoridades locais até já tinham promovido três acusações por maus tratos contra José Luís Carvalho» («Portugal procura ‘Audi’ em que fugiu homicida», Paulo Julião, Diário de Notícias, 8.07.2012, p. 21).
      Lá se esqueceram do hífen em «maus tratos». Finalmente. Parabéns. Mas, Paulo Julião, você está tramado! Então também se esqueceu de antepor o adjectivo «alegado» a «homicida»? Arranje já um advogado, é o meu conselho.
[Texto 1785]
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Até prova em contrário

Realmente...

      Ainda pensei que estivesse, por lapso, noutra secção do jornal, mas não: «País». «Um decreto real, datado de 1864 e ainda em vigor, está a alarmar muitos proprietário [sic] de imóveis e terrenos nas margens dos rios portugueses. Caso se encontrem até 50 metros de [sic] limite costeiro, correm o risco de perder esse património» («Decreto real penaliza proprietários ribeirinhos», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 8.07.2012, p. 21). 
      Aqui, o adjectivo «real» tem um peso que não tem em Real Funerária, Real Colégio, Real Grupo de Forcados Amadores de Moura, entre outros. Mas continuemos a ler: «Até 2005, os proprietário [sic] podiam fazer prova por via administrativa. A partir daí, passou a ser feita por via judicial, onde [sic] a prova na grande maioria dos casos afigura-se [sic] impossível. Não foi assim com uma médica de Gaia que conseguiu provar, após vários meses de pesquisa nos arquivos distritais do Porto e na Torre do Tombo, que o imóvel que detinha estava construído sob propriedade privada.» Porquê «sob», que aparece outra vez mais à frente?
[Texto 1784]
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Asneiras alheias

Muito trabalho

      «“Bruno Alves entrou na história assim que o penaste que apontou embateu com estrondo no ferro da baliza espanhola. O central, de 30 anos, não conseguiu bater Caselas e abriu o caminho da festa a Labregas e a maestros germanos.” Assim começava um artigo sobre o Portugal-Espanha, publicado no dia 28 de junho, no jornal Record. Não faz sentido? Pois... Mas experimente trocar penaste por penálti, Caselas por Casillas, Labregas por Fàbregas e maestros germanos por nuestros hermanos e talvez fique esclarecido. Afinal, tratou-se de mais uma proeza dos corretores ortográficos automáticos, capazes de pregar as maiores partidas em qualquer redação. O mais curioso é que o próprio diretor do Record, ainda ontem, publicou uma crónica (“Asneiras que doem”) no Correio da Manhã em que aponta alguns erros de jornalistas em diretos televisivos, que considera serem “fruto do desinvestimento geral na qualidade”. E, também ontem, o mesmo diretor assina outra crónica do Record a penitenciar-se pelo erro do seu jornal e por escrever sobre “asneiras alheias”. Ficou confuso? A VESPA também. Mas tem a certeza de que, desta vez, não foi obra do corretor ortográfico» («Asneiras alheias», Diário de Notícias, 8.07.2012, p. 13).
      Agora, com os corretores a trabalharem na Bolsa e nas redacções, tudo piorou, já se sabe. Mas agora a sério: o software ainda não é assim tão inteligente.

[Texto 1783]
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Cheque endossável

Não me incumbe

      Ontem perguntaram-me — «já que se ocupa destas coisas da língua» — o que se deve fazer com o cheque não endossável. Assina-se, não se assina? O meu interlocutor confunde um pouco as coisas, mas vamos lá ver. Ainda que talvez baste saber ler para fazer o que é preciso, seria conveniente que entidades como o Banco de Portugal o explicassem. Endossar um cheque é transmiti-lo a pessoa diferente da que figura no título como beneficiário, não é assim? E como é que isso se faz? Apondo a assinatura nas costas (dos, em francês), no verso do cheque (e indicando a entidade a favor da qual é transmitido, mas esta não é uma indicação obrigatória). Assim, o cheque não endossável, que existe há pouco tempo, não pode ser assinado. O beneficiário só pode fazer uma de duas coisas: ou deposita-o na sua conta ou levanta-o ao balcão de uma agência do banco sacado. (Agora vejam lá, não me perguntem como se faz cerveja caseira.)

[Texto 1782]
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Sobre «rocket»

Nem pensar

      «Homens encapuzados a disparar rockets de fabrico artesanal. Barricadas com pneus, contentores ou troncos de árvores a arder, agentes da Polícia Nacional e da Guardia Civil armados até aos dentes e a tentarem proteger-se dos projéteis» («‘Rockets’ artesanais e cargas policiais no conflito das Astúrias», P. V., Diário de Notícias, 8.07.2012, p. 7).
      Ia lá sair do bestunto de algum português palavra que traduzisse, melhor ou pior, o conceito expresso por «rocket». Não há nem nunca houve nada de remotamente aparentado. Com quanta mais razão os jornalistas — e não Vieira — diriam «conheci que não sei falar português». «As autoridades», continua o jornalista, «estão atentas, para que o cenário de confronto asturiano não se translade para Madrid.» É claro que o livro de estilo que aconselha a preferir-se «trasladar» e «trasladação» a «transladar» e «transladação» não é o do Diário de Notícias. Fúnebre.
[Texto 1781]
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Sobre «marchante»

E o marchand

      Em Espanha, continua a marcha dos mineiros das Astúrias, Leão e Castela sobre Madrid. «Bolhas nos pés: o principal problema dos marchantes», lê-se na edição de hoje do Diário de Notícias. E também há os marchantes das festas populares em Lisboa. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, porém, marchante continua a ser somente «aquele que negoceia em gado para os açougues ou talhos». O mercator pecuarius, como no tempo de Bluteau.

[Texto 1780]
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«Palavra compósita»

Acho bem

      «Não tenho a certeza de já ter lido a expressão “palavra compósita”. No caso, para traduzir o inglês “portmanteau word”. Vou pensar nisto.» Escrevi isto hoje de manhã nos 140 caracteres com que o Twitter nos espartilha. Já pensei: parece-me bem. Alguns, a mostrarem-se espertos, já disseram que se pode dar a volta: «palavra-valise».

[Texto 1779]
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«Devido a»

Toda a verdade

      «— Devida a — Perguntou-se-me se é portuguêsa a forma devido a. Pelos jornais, revistas e livros modernos são de cotio frases assim redigidas: — não fui devido à chuva, — fiquei devidos aos negócios, — etc.
      Segundo o filólogo Mário Barreto o uso de devido a “é coisa recente”, mas “pode defender-se, considerando esta forma como preposicional.”
       Em português de lei temos as formas — em virtude de,em atenção a,em conseqüência de, por causa de, por obra de, por amor de,graças a, resultante de, — por e outras que tais.
      Mário Barreto, que muito a preceito sabia as coisas da língua, fez uso de devido a, como locução preposicional, nêste passo: — “Posteriormente, devido à relação com cerrar, disse-se e prevaleceu em castelhano cerrojo”. (Através, 127.)
      Sandoval de Figueiredo nos seus Vícios de Linguagem, pág. 155 e 156, diz que é galicismo a expressão devido a. Mas deixa de o ser “quando devido se emprega como particípio passivo: Isto foi devido a, estas coisas são devidas a, etc. — “O gênero masculino... é devido à influência do vinho”. (Mário Barreto: Novíssimos, 37) — “Estas imperfeições eram devidas à criação quase monástica que recebera”. (Rebêlo: H. de Port., I, 5)» (Canhenho de Português, P. José F. Stringari. São Paulo: Editorial Dom Bosco, 1961, p. 30)
[Texto 1778]
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O verbo «lapsar» não existe

Só com soluços

      «Importa ainda perceber a razão por que mentiu – uma vez que o verbo lapsar não existe – o então deputado Miguel Relvas ao Parlamento ao comunicar ter o segundo ano de Direito quando, na verdade, apenas tinha concluído — com 10 valores — uma cadeira do primeiro ano» («Doutores há muitos», Nuno Saraiva, Diário de Notícias, 7.07.2012, p. 11).
      Pois não existe, apenas co lapsar (sem reticências, a lembrar a «Oral History (With Hiccups)»), por que a maioria dos tradutores do inglês se pela: «O colapso do Império Romano».

[Texto 1777]
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Tradução: «luncheonette»

Isso é no Brasil das telenovelas

      Querem rir-se? Então ouçam: o Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora não regista o vocábulo «luncheonette», mas o Dicionário da Língua Portuguesa da mesma editora regista «lanchonete». Já têm fôlego de novo? Pois bem, o Dicionário de Português-Inglês da Porto Editora para «lanchonete» dá como equivalente o português — «snack bar». E não podemos traduzir por «cafetaria»? O Dicionário Michaelis diz que é o restaurante que serve refeições rápidas. Nada de «lanchonete».

[Texto 1776]
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Léxico: «tupido»

É uma hipótese

      «Tanto a cozinha como os quartos eram antigas celas dos frades e abriam para o claustro, o qual tinha uma única entrada e estava tupido de laranjeiras e nespereiras de proporções colossais» (Novelas Eróticas, M. Teixeira-Gomes. Lisboa: Portugália Editora, s/d [mas de 1961], 2.ª ed., p. 209).
      Já tinha visto, já — mas noutra obra de Teixeira-Gomes, talvez em Agosto Azul. A propósito, não virá do castelhano? Fernando Venâncio, que acha? (Ouvi-o hoje na TSF a falar do escritor holandês Gerrit Komrij, que vivia numa aldeia do concelho de Oliveira do Hospital e morreu ontem.)
[Texto 1775]
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«Decidimos sentarmo-nos»

Simplificar

      «Decidimos, já que ali estávamos, sentarmo-nos...» Está bem, exemplos não faltam, pois claro. Ainda há três dias, encontrei: «Como lhe fosse fácil sair de casa logo de manhã cedo, combinámos encontrarmo-nos, no dia seguinte, num café vizinho da Gare Central, e seguir para Dordrecht no primeiro expresso de Berlim que larga às 7 3/4; naquela estação do ano a essa hora ainda era noite, o que nos permitiria embarcar sem dar nas vistas...» (Novelas Eróticas, M. Teixeira-Gomes. Lisboa: Portugália Editora, s/d [mas de 1961], 2.ª ed., p. 51).

[Texto 1774]
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Fala a RP...

Um PR do carnaz

      De vez em vez é bom falar de coisas sem pés nem cabeça, aparvalhadas, enfim. Neste caso, a abreviatura de «relações públicas», RP, habitualmente usada em certa imprensa. Para quê? Será por causa da semelhança com PR, abreviatura de «presidente da República», talvez das poucas a merecer o mesmo tratamento? Falta de espaço não é, garanto.
      «Helga Barroso, a responsável pela área VIP da discoteca, recusa confirmar a informação do DN. Porém, a relações públicas (RP) deixa no ar, ao dizer: “Sendo o espaço de quem é...”» («CR7 e Irina Shayk são esperados na inauguração de discoteca dia 20», Filomena Araújo, Diário de Notícias, 6.07.2012, p. 53).
[Texto 1773]
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«Organeiro/organista»

Nem todos tangem

      A senhora professora ficou empolgadíssima porque só conhecia a palavra «organista», não «organeiro». Não descobriu é que não são sinónimos, mas vai lá chegar. Se o organeiro é o construtor de órgãos ou encarregado da limpeza e conservação do órgão de uma igreja, o organista é o que toca órgão, o «tangedor de órgão», como escreve Bluteau.

[Texto 1772]
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Léxico: «georradar»

Ainda há margem para errar

      «O empresário sul-africano contou ao jornal Correio da Manhã que, com recurso a imagens do Google Earth e com um aparelho denominado georradar, localizou o local da alegada sepultura» («PJ analisa “pistas” no caso Maddie», Luís Fontes, Diário de Notícias, 6.07.2012, p. 18).
      Antes e depois do Acordo Ortográfico, é assim que se escreve, porque com este elemento de formação de palavras nunca se usa o hífen: georreferência, geossinclinal.
[Texto 1771]
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Ortografia: «Mindanau»

Quase certo

      «Apesar de viveram [sic] numa das regiões mais pobres das Filipinas, foi com um sorriso rasgado que as crianças da ilha de Mindanao receberam a Rainha de Espanha» («Rainha Sofia nas Filipinas», Diário de Notícias, 6.07.2012, p. 6).
      Do Diário de Notícias nunca se espera isto, mas é o que vamos tendo cada vez mais. Em português não é Mindanau que se escreve? Que é a grafia registada por Rebelo Gonçalves na página 671 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa.
[Texto 1770]
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«Disse eu cá com a minha roupeta»

Disse para comigo

      Esta só já em selectas: «Aqui temos o gancho (disse eu cá com a minha roupeta), e fui-me atrás do enterro, por detrás da igreja de S. João; esperei que acabassem o responso; dei fé d’onde puzerão o corpo, e marquei as entradas e sahidas» («Os três cegos», Padre Manuel Bernardes, in Livraria Clássica – Excerptos dos Principais Autores de Boa Nota. António e José Feliciano de Castilho (orgs.). Rio de Janeiro: Livraria de B. L. Garnier, Editor, 1865, p. 254).
[Texto 1769]
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«Indiano/índio»

Antes ameríndia

      Um secretário do consulado argentino em Barcelona explicou então que o banqueiro Rodolfi, italiano estabelecido desde rapaz na Argentina, era casado com uma «nativa indiana», escreve Teixeira-Gomes. Digamos que é um erro paralelo ao de Cristóvão Colombo. Que deve fazer o editor dos nossos dias? Deixar estar? Apor uma nota de rodapé? Corrigir?
[Texto 1768]
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«Incontinente/incontinenti»

Moderação

      «O pai notou a impressão, voltando-se incontinente a ver quem a provocara, e calculando que fosse eu teve um movimento de viva contrariedade» (Novelas Eróticas, M. Teixeira-Gomes. Lisboa: Portugália Editora, s/d [mas de 1961], 2.ª ed., p. 129).
      São poucos os dicionários, vocabulários e prontuários que registam o advérbio incontinenti: imediatamente, sem demora, sem perda de tempo, no mesmo instante. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, só regista «incontinente»: que não tem continência; descomedido; imoderado.
[Texto 1767]
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Ortografia: «acareação»

Enfrentar o dicionário

      «Os deputados quiseram saber porque a ERC não fez uma acariação entre o ministro e a editora de política, a quem Miguel Relvas terá transmitido as ameaças, mas os membros da ERC consideram não ter competências para fazer tal confrontação» («Membro da ERC diz-se vítima de chantagem», Maria Lopes, Público, 5.07.2012, p. 8).
      Acarear ou carear, senhora jornalista. Não há dicionário moderno que registe coisa diversa. Uma curiosidade: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ainda acolhe, como regionalismo (o que nunca foi), a acepção atrair com afagos; tornar caro ou querido.
[Texto 1766]
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Sobre «sound bite»

Mais uma mordidela na língua

      «Pertenceu a Narana Coissoró, antigo deputado e dirigente do CDS, o melhor sound bite, ontem, sobre o caso de Relvas. Admitindo à TSF que nunca viu ninguém tirar num ano um curso de três, Coissoró, professor de várias cadeiras de Ciência Política na Lusófona, acrescentou: “É absolutamente excecional. Há muitas personalidades a quem se dá o doutoramento honoris causa, mas não conheço nenhum caso de licenciatura honoris causa”» («Professores contestam turbocurso», P. S. T/J. P. H., Diário de Notícias, 5.07.2012, p. 32).
      Não passava, garanto, o famigerado exame Vieira (de Joaquim Vieira, ex-provedor do jornal Público): «Será que os meus pais vão perceber o que escrevi?»
[Texto 1765]
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«Micro-Becquereis»!

Ora, ora, que temos aqui?

      «Ou em proporção ainda maior: a sua roupa interior apresentava níveis de polónio-210 de 180 micro-Becquereis (unidade de medida da radioatividade) enquanto um valor de controlo registou 6 microBequereis» («Palestinianos querem provar assassínio de Arafat», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 5.07.2012, p. 22).
      Isto é deveras impressionante! Como é que numa curta linha o jornalista escreveu o nome da unidade de duas formas? E, para mais, as duas erradas. Apesar de derivar de um nome próprio, escreve-se com minúscula: becquerel. O símbolo é que é com maiúscula: Bq. Logo, sendo com minúscula, não precisa de hífen: microbecquerel. E, por fim, o plural é becquerels, não becquereis.
[Texto 1764]
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«Gigaelectrãovolt»!

Não pode ser

      E hoje o mesmo. Dois dias seguidos. Como é possível que a jornalista julgue possível escrever dessa forma a palavra? Gostava de conhecer a explicação. «Tem razão, Helder Guégués. Foi o velhaco do paginador que me fez isto. Veja lá!»
      «A existência desta nova partícula, encontrada numa zona de massa entre os 125 e os 126 GeV (gigaelectrãovolt), condiz com o que se esperava do bosão previsto por Higgs» («Confirmar que é o bosão de Higgs pode levar anos», Filomena Naves, Diário de Notícias, 5.07.2012, p. 26).
[Texto 1763]
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Desgraçado verbo «entreter»

Grande tourada

      Sérgio Sousa Pinto, deputado do PS, esta tarde no Parlamento: «A única coisa que me perturba é que tratando-se a tourada de uma tradição milenar não se insinua no espírito dos deputados do Bloco de Esquerda e dos Verdes a mais pequena dúvida. Para eles, é manifesto que a tourada, exercício milenar, é um desporto que ocupou e entreteu selvagens e bárbaros durante centenas de anos.»
      «E por desfastio, como quem devaneia ao acaso, entreteve-se com estas invenções mais ou menos estapafúrdias: transformou a cabeça em esfera armilar, fez crescer asas de borboletas nas orelhas, enfeitou os dedos de bandeirinhas, etc., etc.» (As Aventuras de João Sem Medo, José Gomes Ferreira. Lisboa: BIS/Leya, 2011, 3.ª ed., p. 60).
[Texto 1762]
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Tudo italiano

Já é descuido

      «O dono da escudaria italiana respondeu que sim, senhor, mas para isso o dono da Ferrari teria de deslocar-se a Turim, à Pininfarina. Foi preciso a intervenção de Sergio Pininfarina para o impasse se resolver: um encontro em terreno neutro, num restaurante em Tortona, a meio caminho entre Modena (Ferrari) e Turin (Pininfarina). E a ligação entre as duas casas italianas durou até hoje» («Mundo automóvel diz adeus ao pai do ‘design’», Ana Marcela, Diário de Notícias, 4.07.2012, p. 32).
      Ana Marcela não nos lê — e não deve ter pena. Só nós, leitores do Diário de Notícias, é que o lamentamos. E donde vem aquele a de «escudaria»? Do étimo — scuderia — não é de certeza. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «escuderia». Vimos aqui que se escreve Módena. «Turin» só no desleixo encontra explicação.
[Texto 1761]
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«De resto»

Atirado ao muladar

      Já aqui agitou um pouco os ânimos: «— De resto — Eis aí uma locução que se atirou para o muladar das coisas inúteis por cheirar a francês. Mas milheiros de exemplos clássicos há que a absolvem da pecha que lhe assacam. Vou citar dois apenas e de mestres de polpa, que valem por todos os demais: “De resto, a agitação é sinal de vida”. (Machado de Assis: A Semana, 181). — “De resto, é uma circunstância esta pouco importante”. (Castilho: Obras, 55.º, 130)» (Canhenho de Português, P. José F. Stringari. São Paulo: Editorial Dom Bosco, 1961, p. 65).
[Texto 1760]
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«Gigaelectrãovolt»?

Agora é tudo pegadinho?

      «Os dados de dezembro da ATLAS e CMS mostraram pela primeira vez “um excesso de eventos” nas colisões de partículas realizadas a níveis de energia da ordem dos 126 gigaelectrãovolt (GeV) – a ATLAS – e 124 GeV (a CMS), o que poderia ser um sinal da presença do bosão Higgs naquelas zona de energia. [...] Nos últimos meses de trabalho, desde então, as equipas das duas experiências conseguiram duplicar os dados de dezembro, e a energia das colisões passou de 7 TeV (teraeletrãovolt) para 8 Tev» («O ‘dia D’ da ‘partícula de Deus’», Filomena Naves, Diário de Notícias, 4.07.2012, p. 27).
      Deve haver alguma convicção da jornalista nisto, pois mais abaixo, num texto de apoio, lê-se: «É no Large Hadron Collider (LHC), que faz colidir protões (partículas que integram o núcleo dos átomos) a um nível de energia nunca antes atingido por uma máquina na Terra – 7 teraelectrãovolt (TeV) no ano passado, e 8 TeV já este ano –, que os físicos tentam descortinar o famoso bosão, que foi previsto em 1964 pelo físico Peter Higgs, que hoje estará presente na conferência no CERN.»
[Texto 1759]
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