Sobre «enfermo»

Com rabo de fora

      «Os arguidos, todos idosos (têm agora entre 79 e 85 anos) e enfermos, faziam parte do núcleo duro do regime ultramaoísta liderado por Pol Pot, criador dos campos de morte no Camboja, morto em 1998, após ter sido feito prisioneiro pelos seus correligionários» («Julgamento histórico do Khmer Vermelho testa credibilidade do tribunal da ONU», Público, 28.06.2011, p. 13).
      É claro que o vocábulo «enfermo» é português, e nem terá vindo (não é assim, Fernando Venâncio?) do castelhano, mas cheira-me logo que a fonte foi espanhola: «Los acusados, todos ancianos y enfermos, etc.» Felizmente não embatucaram em Jemeres Rojos, cuja tentativa de tradução podia dar qualquer coisa como Gemeres Roxos. (Ah, sim: se «maoísta» é incorrecto, incorrecto será «ultramaoísta».)

[Texto 230]

«Presidenta»?

Isto vai passar-lhes, coitados

      Luís Miguel Queirós (de chapéu?) escreve hoje um artigo no Público sobre o uso da forma «presidenta», agora relançado imprudentemente por Miguel Relvas no Parlamento. Com a devida vénia, reproduzo-o na íntegra.

      «No documentário José & Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes, há um momento em que Pilar del Río se abespinha com um jornalista que a trata como “presidente” da Fundação José Saramago. Pilar explica que é “presidenta”, argumentando que se a palavra não se usava no passado, isso se devia à circunstância de os presidentes serem todos homens. E quem seguiu em Portugal, pela televisão, a recente tomada de posse de Dilma Rousseff, fartou-se de ouvir a palavra “presidenta”.
      Na terça-feira, o novo ministro dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, aderiu à moda e referiu-se a Assunção Esteves, que acabava de ser eleita presidente da Assembleia da República, como “presidenta”.
      Afinal, “presidenta” — o Dicionário da Academia não regista a palavra, mas o da Porto Editora aceita-a como neologismo — é ou não português correcto? O professor António Emiliano, do departamento de Linguística da Universidade Nova de Lisboa, não tem a menor dúvida: “‘Presidenta’ não é português”. Dado que “presidente” é um substantivo de terminação invariável, comum aos dois géneros, quando queremos precisar se o presidente em causa é um homem ou uma mulher devemos recorrer ao artigo (o/a), esclarece o linguista, ou a um outro qualquer determinante (aquele/ aquela; esse/essa).
Emiliano acrescenta que a eventual adopção oficial da forma “presidenta” para designar a nova presidente do Parlamento “seria absolutamente lamentável”, já que, observa, “as instituições do Estado devem dar exemplo de correcção e rigor”. O linguista alerta ainda para o risco de se estar a “abrir a porta” a outros “barbarismos” afins, como “tenenta”, “agenta”, “comandanta” ou... “ignoranta”.
Mesmo sem entrar em terrenos demasiados técnicos, enquadrando “presidente”, e outras palavras portuguesas de idêntica terminação, no desaparecido particípio presente que o português antigo herdou do latim, qualquer falante de português intui que “presidente” é aquele ou aquela que preside. Ou seja, como assinala António Emiliano, “a palavra remete mais directamente para a acção do que para as características do sujeito da acção”.
      O argumento invocado por Pilar del Río parece sugerir que, por detrás da tentativa de vulgarizar o termo “presidenta”, estará o propósito de garantir a igualdade de géneros também em matéria de língua. Mas pode contrapor-se que impor um feminino a uma palavra que não distingue géneros é, pelo contrário, um gesto sexista, que cria uma diferença onde ela não existia. Em termos estritamente gramaticais, tratar Assunção Esteves como “presidenta” é exactamente tão arbitrário como chamar “presidento” a Cavaco Silva.
      Como ninguém diz “agenta” ou “agento”, “adolescenta” ou “adolescento”, “clienta” ou “cliento”, “presidenta” — e o mesmo sucederia com “presidento” — surge como uma excepção sem precedentes e que, por isso mesmo, nos soa mal. E não será descabido argumentar que este “soar mal” tem consequências semânticas, emprestando à palavra um tom ligeiramente achincalhante.
É claro que, na linguagem falada, muitas autarcas já terão sido tratadas como “a nossa ‘presidenta’ da junta”, e que ninguém se espantaria por ouvir um merceeiro dizer que a D. Fátima é a sua melhor ‘clienta’. Quando são reconhecidamente frequentes, estes usos populares devem ser registados, enquanto tal, nos dicionários. Não devem é ser acriticamente integrados na norma culta da língua, pela qual o Estado tem a obrigação constitucional de zelar.
      Argumentar-se-á que se as televisões nos martelarem diariamente com a palavra “presidenta”, e os jornais forem atrás, e já agora os professores, um dia os nossos netos nem saberão que houve um tempo em que não se chamava “presidentas” aos presidentes do sexo feminino. Talvez tenham razão. De resto, se recuarmos o suficiente, encontraremos exemplos de palavras que eram comuns aos dois géneros e que, posteriormente, vieram a ter uma forma masculina e outra feminina. É o caso, lembra António Emiliano, de “senhor” no português medieval.
      Mas o linguista (ou será o “linguisto”?) também recorda que só a partir da segunda metade do século XVIII, com os primeiros esforços de dicionarização, se pode falar de uma norma-padrão para o português. E uma das vantagens de possuirmos este instrumento é justamente a de podermos controlar a entrada de usos populares, corruptelas, neologismos e modismos no uso autorizado da língua. Prescindir desta fiscalização deixaria a escrita do português entregue ao livre-arbítrio de cada escrevente e “escreventa”. Algo que parecerá simpaticamente anárquico, mas que só poderia ser descrito, e por uma vez com propriedade, como um retrocesso civilizacional» («Assunção Esteves é presidente ou “presidenta”?», Luís Miguel Queirós, Público, 24.06.2011, p. 8).

[Texto 208]

Ortografia: «bejeca»

Com os copos

      No Verão, escreve o nosso autor, a venda de «bujecas» dispara. Mas não: é bejeca que se diz e escreve. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista que é alteração de «[cer]vejeca, diminutivo de “cerveja”», e que é vocábulo «informal». É calão, lê-se no «Temanet», no sítio do Instituto Camões. O seriíssimo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não se mete nestas coisas.
[Texto 200]

Léxico: «sinobloco»


Assim percebemos


 


 

      Vou comprar um BMW ActiveHybrid X6. (Branco, é mais barato.) Não tenham inveja, não é para já. Primeiro tenho de gastar o Škoda. Na oficina disseram-me que tenho de mudar os sinoblocos. «Repita lá, por favor.» Repetiu. «Essa não está no dicionário.» «Desculpe?» Não está mesmo registado em nenhum dicionário que eu tenha. (E amanhã não vai para o Priberam, porque é feriado, Corpus Christi.) Os sinoblocos são peças de borracha que servem para absorver as vibrações da suspensão. Em inglês, silent block, «bloco silenciador». Ora, era demasiado complicado para a maioria dos mecânicos portugueses. Ficou «sinobloco».

[Texto 199]

«Reverter uma decisão»!

É bárbaro

      Vejam esta: «O Supremo Tribunal dos Estados Unidos decidiu ontem, por unanimidade, reverter uma decisão de um tribunal de recurso da Califórnia e impedir que as funcionárias da cadeia de distribuição Wal-Mart pudessem apresentar uma acção colectiva por alegada discriminação com base no género contra a empresa» («Supremo recusa queixa por discriminação contra Wal-Mart», Público, 21.06.2011, p. 21).
      Reverter é voltar ao ponto de partida; retroceder; regressar — o que certos jornalistas deviam fazer, regressar às carteiras da escola primária. Então o verbo adequado no contexto não é «anular»? No nosso sistema judicial, o Supremo Tribunal de Justiça, através de um acórdão, anularia a decisão recorrida e ordenaria a baixa dos autos a um tribunal da Relação. Algum jurista nos confirmará se é assim exactamente.
[Texto 198]

«Si mesmo»

Themselves

      «Qualquer frase pode conter uma falsidade. Mas as palavras em si mesmo não mentem.» Há muito venho reparando que mesmo falantes que deviam ser qualificados, como tradutores e jornalistas, entendem «si mesmo» como sendo invariável. Santo Deus, não é! Si mesmo, si mesma, si mesmos, si mesmas. Na oralidade, é tolerável, mas na escrita, é imperdoável.
      «Porém todas estas coisas, verdadeiramente grandes e espantosas e nunca vistas, ainda que na primeira apreensão parecem muito para temer, bem consideradas em si mesmas, e em seus efeitos e fins, antes são muito para sossegar, e aquietar os ânimos, que para intimidar ou perturbar» (Sermões, tomo III, António Vieira. Lisboa: Editores J. M. C. Seabra & T. Q. Antunes, 1854, p. 339 [Actualização ortográfica minha]).

[Texto 197]

Ortografia: «maria-vai-com-as-outras»

Ora pois

      «Foi o meu grande amigo Rui Zink, corrigivelmente de esquerda, o primeiro a descobrir Pedro Passos Coelho como um agente do nosso futuro. Foi no Algarve, há muito tempo. Convenceu não só a Maria João, já convencida, como o Manuel Serrão e eu — que sou uma Maria-vai-com-as-outras, nem que seja por uma questão de educação» («Ora pois», Miguel Esteves Cardoso, Público, 21.06.2011, p. 39).
      A frase fica assim: «Convenceu não só a Maria João, já convencida, como o Manuel Serrão e eu»? No texto todo (citei somente um excerto), também faltam algumas vírgulas. E é maria-vai-com-as-outras que se escreve — temos de impedir que os computadores nos ensinem a escrever. (É pena os revisores continuarem a ter medo do simpático Miguel Esteves Cardoso.)

[Texto 196]

Tradução: «night club»

Os morfinómanos do clube nocturno

      Aqui a nossa protagonista cantava «folksongs in a night club». O tradutor quer que seja numa discoteca. Há trinta anos, teria certamente traduzido por «boîte» (ou «boate», como também se lê por aí, adaptado pelos Brasileiros). Mas no caso, a história passa-se nos anos 30, dir-se-á melhor «clube nocturno», creio. São, decerto, os três locais de recreio onde se pode ouvir música, dançar e tomar bebidas, mas há diferenças quanto aos períodos em que se usaram ou usam.
      «O palco desta mudança era o clube nocturno. Se, até à guerra, “o máximo de desequilíbrio boémio de Portugal era o abuso de licores”, depois “e com o falso e verdadeiro cosmopolitismo […], importamos um carregamento completo de drogas”» (Os Nightclubs de Lisboa nos Anos 20, Júlia Leitão de Barros. Lisboa: Lucifer Edições, 1990, p. 76).

[Texto 195]

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