Pontuação: quer... quer...

Distinga-se


      «Por exemplo, quer nos homens, quer nas mulheres, o sexo oral é mais frequente nesta última geração do que na mais jovem.» É verdade que a vírgula antes da locução conjuntiva alternativa ou disjuntiva quer... quer..., quando liga elementos da mesma oração, é facultativa, mas, na minha opinião, não se deve usar nestas circunstâncias, reservando-se para os casos em que liga orações.

[Post 3857]

Sigla OTAN


Muito bem!


      Não somos todos carneiros: há quem siga o que sabe ser o mais correcto, independentemente de maiorias acéfalas: «Os militares portugueses integram ainda outros contingentes internacionais no âmbito da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e da ONU (Organização das Nações Unidas), em diversos pontos do mundo, como o Líbano, Timor, no Congo. Afeganistão ou Kosovo (ver mapa)» («GNR abandona missão militar da UE na Bósnia», Jornal de Notícias, 7.09.2010, p. 9).

[Post 3856]

Léxico: «mockumentary»

Amálgamas e confusões


      «É claro que, no final, subsiste a dúvida se será um documentário ou um ‘mockumentary’ (documentário fictício)» («Phoenix reinventado», P. P., Correio da Manhã, 7.09.2010, p. 41).
      Recentemente, no Jornal de Notícias, podia ler-se isto sobre o mesmo termo: «O termo junta “mock”, que significa burlesco, e a abordagem do documentário, com o objectivo de reforçar a espontaneidade da narrativa, veracidade ou realismo da história» («A moda dos “mockumentary”», Dina Margato, Jornal de Notícias, 23.08.2010). Essa é uma das acepções, mas nesta amálgama mock transmite a ideia de imitação, falsificação. E por isso já o vi traduzido para «falsumentário».

[Post 3855]

Sobre «dinossauro»

Entendam-se


      «Manuel Gonçalves Silva, 72 anos, advogado de Gertrudes, é o ‘dinossauro’ da advocacia em Elvas, com quase 48 anos de actividade» (Correio da Manhã, 7.09.2010, p. 7). Para que raio estão ali as aspas? Bem, esqueçam isso agora. Esta é uma derivação por metáfora, regista, e muito bem, o Dicionário Houaiss. Mas vejam agora as diferenças. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ignora a acepção. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa diz que é de uso figurado e significa a «pessoa ou instituição considerável, com vasta experiência». O Dicionário Houaiss, por seu lado, assevera que é a «pessoa ou instituição considerada ultrapassada, mantida pela tradição», e que o uso é pejorativo. Que acham os meus leitores?

[Post 3854]

Léxico: «mirmecólogo»

Apoiado


      É a nova moda: ter formigas em casa como «animais de estimação». É pedagógico, dizem eles. Uma vantagem é dar trabalho (nem que sejam apenas as entrevistas aos jornais) aos mirmecólogos e trazer o vocábulo à luz do dia. De caminho, pode ser que também contribua para que os dicionários registem o termo. «Eduardo Sequeira, mirmecólogo (especialista em formigas), esclarece que “existem vários processos de construção para formigueiros, alguns mais fáceis do que outros”, sendo que um dos factores essenciais a ter em conta “é a sua adequação à espécie pretendida”» («Quinta caseira para as formigas», Elsa Pereira, Jornal de Notícias, 7.09.2010, p. 28).

[Post 3853]

Como se escreve nos jornais

Indocíveis


      No Correio da Manhã, continuam a ignorar que uma criança de 3 anos não é um bebé. Culpa dos jornalistas, dos editores e dos revisores: «Os feridos mais graves foram transportados para o Hospital de Mérida, incluindo uma mulher que viajava com dois netos, um bebé de três anos, que estava ontem a ser operado, e o seu irmão, de sete» («Acidente junto às obras do TGV», Paulo Madeira, Correio da Manhã, 7.09.2010, p. 34).
      As palavras não são só palavras, são conceitos. É lamentável que continuem a laborar num erro tão básico e risível. Vejam se retêm desta vez: bebé é a criança recém-nascida ou de poucos meses.

[Post 3852]

Como se escreve nos jornais

Como a pescada


      Avalie o leitor por si próprio com que critério e tino escrevem alguns jornalistas. Começo por transcrever o último parágrafo de uma notícia sobre um homicídio: «A autora dos disparos foi detida pela GNR, mais tarde entregue à PJ, e ontem ouvida no Tribunal de Moncorvo. À hora do fecho desta edição, a audiência ainda não tinha terminado.» Pois é, a audiência ainda não tinha terminado, mas a jornalista nos primeiros parágrafos já tinha uma certeza: «A mulher matou Luís Moreira com dois tiros desferidos à queima-roupa, usou uma pistola de calibre 3,35 milímetros, adaptada e considerada ilegal. O crime ocorreu no café, depois de a vítima ter esfaqueado o filho da arguida, com 36 anos, na sequência de uma discussão que começou por causa de cinco euros encontrados no chão» («Mulher mata homem com dois tiros num café», Glória Lopes, Jornal de Notícias, 7.09.2010, p. 11).
      O «presumível», com que éramos bombardeados a toda a hora e em todos os meios, já é menos correntio, mas o salto pode ter sido excessivo, descompassado: é-se logo arguido, mesmo antes de a autoridade competente o ter declarado. Juízo, precisa-se.

[Post 3851]

Onde/aonde/donde

Erros de mujique


      Ferreira Fernandes que me desculpe, mas quando li a sua crónica de ontem lembrei-me de um livro escandalosamente mal revisto de que aqui falei: O Mapa Secreto (Livro 3 de As Crónicas de Spiderwick, de Tony DiTerlizzi e Holly Black, tradução de Isabel Gomes e revisão de Isabel Nunes. Editorial Presença, Lisboa, 3.ª ed., 2008). Dois exemplos do que pretendo abordar: «— Para aonde vamos? — perguntou Jared» (p. 67). «Para aonde vamos agora? — perguntou Jared. Estavam a subir novamente para o cimo da primeira colina, o que era bom sinal, mas estavam a caminhar num ângulo tal que Jared achava que não podiam estar minimamente perto do ponto de encontro indicado no mapa» (p. 68). E agora Ferreira Fernandes: «Jorge Luis Borges, em Evaristo Carriego, faz Moshe e Daniel encontrarem-se no meio da estepe russa: “A onde vais, Daniel?”, diz um. “A Sebastopol”, responde o outro. “Mentes, Daniel. Dizes que vais a Sebastopol para que eu pense que vais a Nijni-Novogorod, quando tu vais mesmo para Sebastopol» («O bolero ‘Quizás, Quizás, Quizás’...», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 6.07.2010, p. 52). Erro ou gralha? O jornalista costuma ser mais cuidadoso.

[Post 3850]

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