Léxico: «homofobismo»

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      «Não existe tabu, quando você não o cria. O tabu não existe, na verdade. Homofobismo, por exemplo... Sei lá, 70% dos meus amigos são gays [diz a actriz brasileira Claúdia Raia em entrevista]» («“Não existe tabu quando você não o cria”», Sara Porto, «Versa»/Nascer do Sol, 6.02.2026, p. 27). 

      Sobretudo em textos académicos, não faltam ocorrências do termo «homofobismo». Ora, de certeza que os autores sabem que existe «homofobia».

[Texto 22 480]

Léxico: «tarifa-base»

A incoerência como critério


      «No que diz respeito aos factores externos, menciona-se a possível volatilidade dos fluxos de financiamento externo, incluindo o investimento estrangeiro directo e as remessas dos emigrantes, além da incerteza nos mercados financeiros internacionais — suscitada, nomeadamente, pelas políticas tarifárias dos Estados Unidos, que ampliou tarifas sobre sectores como aço e alumínio, além da introdução de uma tarifa-base de 10 por cento aplicada à maioria dos países latino-americanos» («Apostar no crescimento económico», Jairo García, Além-Mar, Março de 2026, p. 15). 

      Fico espantado como se pode defender a grafia sem hífen, como vejo em alguns dicionários.

[Texto 22 479]

Léxico: «broca-do-café | stress hídrico | stress térmico»

Falemos de fungos


      «Somam-se ainda pragas e doenças que “gostam” e prosperam em locais com temperaturas mais elevadas, como a ferrugem do café (uma doença devastadora causada por um fungo da ferrugem, Hemileia vastatrix) e a broca-do-café (causada por um besouro [Hypothenemus hampei] cuja larva se alimenta das sementes do café). São ameaças que também “afectam a qualidade e quantidade das colheitas e tornam a gestão agrícola mais dispendiosa”» («Gosta de café? O stress térmico está a torná-lo pior, mais caro e mais vulnerável», Andrea Cunha Freitas, Público, 19.02.2026, 11h53).

[Texto 22 478]

⋅ ── ✩ ── ⋅

P. S.: Estão sempre a aparecer na imprensa, mas os dicionários nada dizem. Assim, proponho ➜ stress hídrico ECOLOGIA, AGRONOMIA desequilíbrio fisiológico de um organismo, sobretudo vegetal, provocado por disponibilidade de água inferior às suas necessidades, manifestando-se pelo fechamento estomático, redução do crescimento e da actividade metabólica e, em casos graves, murchidão e morte. | stress térmico FISIOLOGIA, ECOLOGIA perturbação fisiológica causada por temperatura ambiente acima ou abaixo do intervalo de tolerância do organismo, comprometendo a homeostase e o desempenho fisiológico, com impacto em processos como a termorregulação, a fotossíntese e a fertilidade.

Léxico: «labradorescência»

Avançando no conhecimento


      «A feldspar mineral from Labrador in Canada is known to show brilliant flashes of blue, green, and gold colours that appear and vanish depending on how you tilt the stone. The flashes are caused by light reflected between thin internal layers. What’s this phenomenon called?» («The natural artists called minerals», Vasudevan Mukunth, «Science»/The Hindu, 2.12.2025, p. II). 

      Então, não tem nada que saber, é a ⤷ labradorescência reflexos metálicos de cores vivas (normalmente azul, verde, dourado ou laranja) que aparecem e desaparecem à superfície da labradorite, consoante o ângulo de incidência da luz; este efeito, causado pela difracção da luz em finas lamelas internas, é característico de certos feldspatos provenientes do Canadá e da Finlândia. 

      Quanto à etimologia, vem do francês labradorescence, nome formado de labradorite (mineral identificado na península do Labrador, no Canadá), com o sufixo francês -escence, equivalente ao português -escência.

[Texto 22 477]

Léxico: «interdigitação»

Dentes, não dedos


      «Além disso, as suas filas de dentes superiores e inferiores encaixavam-se perfeitamente durante a mordedura, o que se designa por interdigitação. “Os seus grandes dentes cónicos sem serrilhas que se interdigitam formam uma ‘armadilha para peixes’ que é muito boa a perfurar e a prender peixes escorregadios nas mandíbulas, impedindo-os de deslizar”, refere um dos co-autores do artigo científico na Science, Daniel Vidal, paleontólogo da Universidade de Chicago e da Universidade Nacional de Educação à Distância, em Madrid (Espanha)» («Nova espécie de dinossauro gigante descoberta no deserto do Sara», Will Dunham (Reuters), Público, 20.02.2026, 6h58). 

      Pois, decerto, acolhes o termo, Porto Editora, mas noutra acepção, pelo que proponho ➔ interdigitação ANATOMIA, ODONTOLOGIA encaixe alternado e recíproco entre as cúspides e os espaços dos dentes superiores e inferiores durante a oclusão, formando um travamento que dificulta o deslizamento.

[Texto 22 476]

Bristol

Um nome sem geografia


      Havia um Hotel Bristol em Lisboa, na Rua de São Pedro de Alcântara. Havia um Hotel Bristol em Sintra. Havia-os em Paris, Genebra, Berlim ou Varsóvia. Havia... Basta: são mais de duzentos em todo o mundo. O nome parece homenagear a cidade inglesa de Bristol, mas a intenção era outra. No início do século XIX, o nome Bristol evocava Frederick Augustus Hervey, 4.º conde de Bristol e bispo de Derry, aristocrata cosmopolita, célebre pelas viagens e pelo gosto pelo luxo. Associar um hotel ao seu título era sugerir requinte, bom gosto e padrões elevados. Quando o primeiro Hotel Bristol abriu em Paris, em 1816, procurava atrair clientela britânica e, ao mesmo tempo, projectar uma imagem de distinção. O nome funcionava como garantia simbólica de qualidade. O êxito comercial fez o resto: «Bristol» tornou-se rótulo internacional de elegância, independentemente de qualquer ligação à cidade inglesa.

[Texto 22 475]

Definição: «som»

Ora, ora


      «The real hero behind whatever we hear is something most of us take for granted: air. Sounds are waves – disturbances that move by pushing and pulling air molecules» («On zoos and magnets: the physics behind sounds», Adhip Agarwala [professor auxiliar de Física no Instituto Indiano de Tecnologia de Kanpur], The Hindu, 9.12.2025, p. 37).

      Não é preciso um doutoramento em Física nem cátedra no IIT de Kanpur para saber que o som existe mesmo quando não está ninguém a ouvi-lo. E, no entanto, a Porto Editora define som como a «sensação auditiva produzida por vibrações mecânicas». É certo que depois, noutra acepção, acrescenta «fenómeno vibratório que produz essa sensação», mas o mal está feito, porque a ordem conta, não há hierarquia lógica e a formulação da segunda acepção é vaga. Assim, proponho ➔ som 1. FÍSICA vibração mecânica que se propaga num meio material sob a forma de onda longitudinal e que, no caso da espécie humana, pode ser percepcionada pelo ouvido quando tem frequência compreendida entre cerca de 20 Hz e 20 000 Hz; 2. sensação auditiva produzida pela recepção dessas vibrações no ouvido e pela sua interpretação pelo cérebro.

[Texto 22 474]

Etimologia: «bisonte»

Não começou com o latim


      «Avec les départs vers les stations de ski, Bison futé reprend du service. Le mot vient du germanique wisund et désigne un bœuf sauvage» («Bison», Étienne de Montety, Le Figaro, 16.02.2026, p. 35). 

      A Porto Editora, contudo, afirma que vem do latim. Tem razão Étienne de Montety, que se refere à origem remota da palavra. Um dicionário tem a obrigação de não cortar a cadeia etimológica demasiado cedo e omitir a origem germânica do vocábulo, que, de facto, se pode reconstruir como wisund ou *wisundaz, que designava precisamente o auroque ou um grande bovino selvagem. Foi este étimo germânico que passou ao latim tardio sob a forma bison, bisontis, e daí às línguas românicas.

[Texto 22 473]

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