O conceito de «libfix»

Com o pénis de fora


      Há palavras que se libertam. Ou melhor: há pedaços de palavras que, a certa altura, ganham vida própria. A linguística anglófona chama-lhes libfixes, abreviatura de liberated affixes, «afixos libertados». Um libfix nasce quando um segmento que fazia parte de uma palavra concreta é reanalisado pelos falantes como se fosse um afixo autónomo, com significado próprio e capacidade de gerar novas formações. Um dos exemplos mais claros é -gate. Tudo começa com o complexo imobiliário Watergate, em Washington. O nome próprio do edifício deu origem, por metonímia, ao escândalo político que levou à demissão de Richard Nixon, no chamado Watergate. Desde então, «Watergate» deixou de ser apenas um nome de lugar (microtopónimo): passou a significar «escândalo político». Num segundo momento, deu-se a reanálise decisiva: os falantes começaram a interpretar -gate como se fosse um sufixo com o valor de «escândalo». E assim nasceu um libfix. Multiplicaram-se doravante as formações analógicas: basta juntar -gate a um nome para sugerir polémica pública, muitas vezes com intenção irónica ou sensacionalista. O recentíssimo Penisgate inscreve-se exactamente nesse modelo: base nominal + -gate = «escândalo relacionado com X». Já ninguém pensa no edifício de Washington; o segmento final funciona como marcador quase automático de escândalo mediático. Também tivemos os nossos: estou a lembrar-me, por exemplo, do famoso Galpgate. Temos aqui um caso exemplar de como a língua funciona por analogia e reinterpretação. Um nome próprio transforma-se em designação de acontecimento; um fragmento desse nome emancipa-se; e esse fragmento passa a integrar o arsenal produtivo dos falantes. É assim que a história, política e linguística, deixa marcas duradouras no léxico.

[Texto 22 440]

Género: «chiclete»

No lado errado do Atlântico


      «Catei por aí incontáveis referências elogiosas ao espectáculo que Bad Bunny apresentou no intervalo do Super Bowl. Tinha uma ideia de que o Super Bowl é a final do campeonato de futebol americano. Não tinha ideia de quem, ou do quê, é Bad Bunny. Dado que as referências falavam do tal espectáculo como um “momento histórico”, uma “revolução” e quiçá o ápice da humanidade desde a invenção do chiclete, resolvi investigar» («Bad Bunny, o fundo da toca», Alberto Gonçalves, Observador, 14.02.2026, 00h21).

      Julga, só por ter ouvidos, perceber de música. Já quanto à língua, é o que se vê: «chiclete» é do género feminino, «a chiclete». Portanto, devia ter investigado também os dicionários. Os demais erros («narco-tráfico»?!) ficam para outra ocasião.

[Texto 22 439]

Definição: «peritagem»

E têm razão


      «Em entrevista à Renascença o porta-voz da APROSE, que representa os mediadores de seguros, garante que os procedimentos estão a ser acelerados, apesar das dificuldades no terreno. Estão a ser indemnizados sinistros sem peritagem muito acima dos mil euros. Rui Silva avisa ainda que os prémios deverão aumentar depois deste “comboio de tempestades”, que já representa a maior indemnização de sempre paga pelas seguradoras em Portugal» («Estragos do mau tempo estão a ser indemnizados sem peritagem muito acima dos mil euros, dizem corretores de seguros», Sandra Afonso e Arsénio Reis, Rádio Renascença, 14.02.2026, 8h00). 

      Pois é, Porto Editora, mas o Houaiss é que acerta plenamente, já que peritagem é tanto o «exame realizado por perito» como «o laudo desse exame». Se quiserem, auto ou relatório.

[Texto 22 438]

Definição: «pântano, turfeira, paul»

Como se fosse tudo o mesmo


      A mais inaceitável é, de longe, a definição de «pântano» no dicionário da Porto Editora, mas convém melhorarmos a definição de pântano, turfeira e paul. Assim, proponho ➔ paul ECOLOGIA zona húmida aberta, geralmente com poucas árvores, alimentada por águas superficiais provenientes da chuva, de rios ou de lagos, de solo rico em minerais e vegetação dominada por plantas herbáceas, como caniçais, gramíneas e ciperáceas, que ocorre frequentemente em planícies de inundação junto a lagos e cursos de água, podendo também existir em zonas costeiras estuarinas, quando sujeita a água salgada | ➔ turfeira ECOLOGIA zona húmida, geralmente em clima frio ou temperado, saturada de água proveniente essencialmente da precipitação, de solo ácido e pobre em nutrientes, formado pela lenta decomposição de matéria vegetal e rico em turfa, com vegetação dominante de musgos, sobretudo Sphagnum, e alguns arbustos ou árvores raquíticas | ➔ pântano ECOLOGIA zona húmida arborizada, situada geralmente em áreas baixas e planas, saturada de água proveniente de inundações fluviais, águas superficiais ou subterrâneas, de solo rico em nutrientes e vegetação dominante de árvores e arbustos lenhosos, podendo ser de água doce ou salgada.

[Texto 22 437]

Definição: «sépia»

Afinemos este


      E agora fiquem com a pergunta 5: «Artists once extracted brown pigment from cuttlefish, then diluted it to create soft, reddish-brown tones that were unique until the advent of the first photographic processes. Name this pigment that gives drawings and photos a characteristic nostalgic brown and which shares its name with a genus of cephalopods» («What makes the pen mightier?», Vasudevan Mukunth, «Science»/The Hindu, 4.12.2025, p. II). 

      Sim, a sépia. Aproveitemos para aprimorar a definição e a etimologia, assim ➔  sépia 1. substância escura segregada por moluscos cefalópodes do género Sepia, utilizada como pigmento em desenho e aguarela, muito apreciada até ao século XIX; 2. ZOOLOGIA designação comum dos moluscos cefalópodes do género Sepia, como o choco, que produzem essa substância escura; 3. cor escura, entre o castanho e o acinzentado, associada a esse pigmento natural ou ao seu efeito em fotografia; 4. desenho ou imagem realizados com essa substância ou com pigmento que a imita. Quanto à etimologia, eu diria assim: do latim sepia, «choco», do grego sēpía (σηπία).

[Texto 22 436]

Definição: «múpi»

Claramente, não


      Múpis, Porto Editora: se nem todos eles dispõem de motor, não podes ter aquela definição. Assim, depois de dar uma volta aqui por Cascais, na sexta-feira, debaixo de chuva e vento, concluo ➜ múpi suporte vertical de mobiliário urbano, geralmente envidraçado e frequentemente iluminado, instalado em locais visíveis da via pública, de forma autónoma ou integrado em estruturas como paragens de autocarros, destinado à afixação ou apresentação de publicidade e outras informações; pode ser de cartaz fixo, de rotação mecânica ou de ecrã digital, incluindo versões interactivas.

[Texto 22 435]

Uma frase publicitária

Perguntem vocês


      «Era para sair de casa dos pais.» Vejo-o aí pelos múpis e pergunto sempre a mim mesmo se a intenção do criativo era permitir uma dupla leitura: «Para sair de casa dos pais, [conte com a] Era.» Era? E foi. É verdade que ainda não perguntei a ninguém como interpreta a frase. Nem o vou fazer.

[Texto 22 434]

Léxico: «francelha»

É esperar


      Diz-se nas Caxinas, Vila do Conde: «Francelha à praia, sinal de peixe.» Será o abibe, o Vanellus vanellus, esta francelha? Temos uma pista no Dicionário de Português-Alemão da Porto Editora: «Käsebank». Mais uma ponta solta. Aguardamos desenvolvimentos.

[Texto 22 433]

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