«Verãos», um plural pouco visto

Coincidências

      Coincidência espantosa: depois de ter passado uma vida sem ver o plural «Verãos», esta semana vi-o em duas traduções. Até ao início desta semana, só conhecia Verões. Agora, porém, já sei que Rui de Pina, Garcia de Resende e outros autores — mesmo contemporâneos nossos, como Fernando Campos — usaram aquele plural. E, assim, confere com aquela ideia de Ana Paula Silva, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), de que, «quando a terminação espanhola for -ano (cidadão-ciudadanos; cristão-cristiano; irmão-hermano; mão-mano), a palavra portuguesa terá seu plural com -ãos».
[Texto 3451]

Léxico: «bazofeiro»

Estava a pedi-las

      E então ele «tornava-se bazofeiro, tornava-se insolente». Há gente assim, mas nada que uma murraça nas trombas não resolva, não é? Nem sempre podemos ser diplomáticos, conciliadores, contemporizadores. Ora, para Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, só há bazofiadores. Porque é popular? Não! Porque não se lembraram, não o viram.
[Texto 3450]

Léxico: «destila»

De certeza que é bom

      Em Évora, na 3Bicos, produz-se gim biológico, da marca Templus. A mitologia, mesmo de forma ínvia, ainda vende. «Fermenta mais ou menos em dois dias. Seguidamente, sairá daqui só o líquido em si, que vai dar origem à primeira destila», disse ontem ao Jornal da Tarde João Rosado, artesão da destilaria. Primeira de três destilas, na última entram o zimbro, ervas aromáticas como poejo e hortelã da ribeira, etc. E cá está mais uma palavra que não encontro em nenhum dicionário, um substantivo por derivação regressiva.
[Texto 3449]

«Capelo da chaminé»

Mais incoerências lexicográficas

      Não me recordo de alguma vez antes ter deparado com a expressão «capelo da chaminé». Vi-a agora mesmo numa tradução do inglês. Os tradutores podem não ter as coisas facilitadas, pois, se chimney hood consta no Dicionário de Português-Inglês da Porto Editora, não está, como devia, porque é onde mais falta faz, no Dicionário de Inglês-Português. E, incongruentemente, do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora também está ausente. É o nome que se dá ao remate superior da chaminé, construído para aproveitar as correntes de ar para uma melhor tiragem.
[Texto 3448]

«Tratar-se de»

Leitura, pois

      «Quer se tratem de livros ou jornais em formato digital, a leitura em suportes electrónicos continua a ser uma prática individualizada, tal como acontece com a leitura em papel» («Na era da partilha online, a leitura continua a ser uma prática individual», João Pedro Pereira, Público, 28.10.2013, p. 27).
      Para falar da leitura, nada como atacar logo com um solecismo dos mais arrepiantes. Caro João Pedro Pereira, a construção tratar-se de é impessoal, pelo que apenas se conjuga na terceira pessoa do singular. Desconfio que não lhes ensinam isto no Cenjor nem nas faculdades.
[Texto 3447]

Léxico: «carregador»

Último reduto

      «“Carregadouro”», lê-se no Decreto-Lei n.º 124/2006, de 28 de Junho, sobre a gestão da floresta, «é o local destinado à concentração temporária de material lenhoso resultante da exploração florestal, com o objectivo de facilitar as operações de carregamento, nomeadamente a colocação do material lenhoso em veículos de transporte que o conduzirão às unidades de consumo e transporte para o utilizador final ou para parques de madeira.» Dos dicionários, porém, onde já esteve (assim como «descarregadouro»), desapareceu. Tiram-nos tudo, até as palavras.
[Texto 3446]

Traduzir com exigência e critério

Províncias vizinhas do silêncio

      «Trata-se apenas de um exemplo [escola de tradutores, na Holanda] do que pode ser feito por quem transporta de outras língua para as nossas línguas-mães as obras que permitem partilhar novos conhecimentos, novas ideias e novas visões do mundo. Quanto melhor se traduz, com exigência e critério, mais beneficiam a língua de origem e a traduzida, bem como a própria cultura. E isto, pelo menos, pode ser dito e compreendido em qualquer língua» («Traduzir não é trair, é universalizar», José Jorge Letria, Público, 28.10.2013, p. 47). 
      «Sem a tradução», recorda José Jorge Letria que George Steiner escreveu, «habitaríamos províncias vizinhas do silêncio».
[Texto 3445]

Biblioteca Bodleiana e Museu Britânico

Por Oxford e Londres

      Sabe-se lá há quanto tempo se diz e escreve Biblioteca Bodleiana, mas, por vezes, é quase um favor que nos prestam aceitarem que se emende Bodleian Library. Como sempre se terá dito e escrito em português Museu Britânico, mas é custosa concessão prescindirem de British Museum.
[Texto 3444]

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