Tradução: «cocoa pañyol»

Ou não?

      A rapariga, nascida em Trindade, era «cocoa pañyol». Está bem, mas podemos saber o que significa em português? O conceito em inglês: «someone of mixed race». Ah, mestiço, então.
[Texto 2298]

Tradução: «pussy»

Coño

      «And I have to touch her pussy...» «E eu levo-lhe a mão ao chocho...» Nunca tinha ouvido ou lido tal. Em português, digo, porque isto é vulgarismo espanhol: cona, rata. Vá lá perceber-se o que leva a estas opções descabeladas...
[Texto 2297]

Sobre «livre-arbítrio»

Qual a vossa preferida?

      Há algum problema com o livre-arbítrio? Talvez haja dois: não é raro vê-lo escrito — mesmo por professores universitários, tradutores, escritores — sem hífen. O outro problema é o da definição. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é o «poder de escolher ou não escolher um acto ou uma atitude, quando não se tem razão para se inclinar mais para um lado do que para o outro». Para o Dicionário Houaiss, é a «possibilidade de decidir, escolher em função da própria vontade, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante». Com mais quatro caracteres, é a minha preferida. E agora leio outra, quase lapidar, com 58 caracteres, de um livro em edição: capacidade de actuar sobre as coisas do mundo por iniciativa própria. Mais breve do que esta, em inglês, do Merriam-Webster: «freedom of humans to make choices that are not determined by prior causes or by divine intervention».
[Texto 2296]

«Dedo auricular»

Onde se fala da digitoagnosia

      Ao ler, agora mesmo, a palavra «digitoagnosia» (sim, talvez demasiado técnica para estar nos dicionários comuns — mas estão lá outras igualmente técnicas), lembrei-me de outro caso recente de tradução do inglês. Havia uma personagem, e não era pirata, que tinha um diamante... onde? No auricular. Pobre leitor... «Dedo auricular, o mínimo, porque é o que acode aos ouvidos», escreveu Madureira Feijó. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o, e remete para «mendinho». Como podia remeter para mínimo, mindinho, minguinho, meiminho...
[Texto 2295]

«Hiperceratose/hiperqueratose»

Essa muleta

      «Oitenta e cinco por cento dos portugueses sofre de doenças dos pés», disse o jornalista João Tomé de Carvalho na edição de ontem do Bom Dia Portugal. Não falta quem afirme que, nestes casos, é indiferente que o verbo fique no singular ou no plural. Não é assim para mim. Não está tudo no plural? Então, o predicado deve ir para o plural, concordando com o sujeito, que também está no plural. Este foi apenas o intróito para a entrada do podologista Pedro Lopes, que tinha um bordão da linguagem menos ouvido agora: usou, em dois minutos, oito «portantos». (Agora espero que, lá por ser podologista, não me queira pisar os calos...) E, por fim, usou, e bem, a palavra «hiperqueratose». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só regista a variante «hiperceratose».
[Texto 2294]

«Raízes tuberculosas»

Rabanetes e parvoíces

      A ignorância é sempre atrevida. O autor disse que o Homem começou por se alimentar de raízes tuberculosas... «Tuberosas», julgou corrigir a virago abigodada lá ao fundo. Mas tuberculoso é o relativo a tubérculo, que é o cormo engrossado, em regra subterrâneo, com folhas reduzidas e carregadas de reservas nutritivas.

[Texto 2293]

«Topographical error»

Quase

      «In mentioning the rivers which the missionaries had lately crossed, our author has been guilty of a great topographical error in placing the river Dissennith between the Maw and Traeth Mawr, as also in placing the Arthro between the Traeth Mawr and Traeth Bychan, as a glance at a map will shew» (The Itinerary of Archibishop Baldwin through Wales, Giraldus Cambrensis. Middlesex: The Echo Library, 2007, p. 107).
      Agora imaginem que alguém traduzia topographical error por «gralha topográfica». Que pensaria o pobre leitor sem acesso ao original? Ia acontecendo...

[Texto 2292]

Léxico: «subsidência»

Nem todos faltam

      «Além do já “habitual culpado” aquecimento global, que faz subir o nível médio do mar, Veneza ainda sofre os efeitos de décadas de bombeamento de águas subterrâneas, que causaram danos significativos à frágil fundação da cidade e deram origem a um fenómeno denominado de subsidência. Este consiste no progressivo afundamento do solo devido à extração de águas subterrâneas. Ou seja, a cidade está cada vez mais “afundada” relativamente ao nível médio do mar» («Ações do homem agravam fortes inundações que alagam toda a cidade de Veneza», Ricardo Simões Ferreira, Diário de Notícias, 2.11.2012, p. 25).
      Está registado no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «movimento de descida do fundo de uma bacia de sedimentação».
[Texto 2291]

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