Debaixo da língua

Muito parecido

      E chamou nomes aos polícias? «“Não tenho precisão de ter dito isso, mas se calhar, tinha sido agredido. Mandaram-me contra a viatura. Não é assim que se interpreta as pessoas.” O que Jorge queria dizer é que não é assim que se aborda, ou se intercepta as pessoas» («Crime do Jorge Povinho. Quando um tipo se armou no Zé e fez um manguito aos agentes de autoridade», Sílvia Caneco, i, 11.02.2012, p. 29). Será, Sílvia Caneco? Há-de ser «interpela».
      «Namorados em lua-de-mel, de vez em quando trocavam lentos beijinhos. E calhou trocarem um desses beijinhos quando passavam perto de um polícia. Ora, o polícia não gostou e interpelou o casal: essas eram maneiras de andar na rua?» (Estórias Contadas, Germano Almeida. Lisboa: Editorial Caminho, 1998, p. 177).
[Texto 1094]

«Pirete», de novo

Segunda vez

      «Jorge exemplifica com a mão esquerda: um pirete em plena sala de audiências» («Crime do Jorge Povinho. Quando um tipo se armou no Zé e fez um manguito aos agentes de autoridade», Sílvia Caneco, i, 11.02.2012, p. 29). Foi a juíza que pediu. Só não percebo é porque é que a jornalista ora fala de manguito ora de pirete. Estava nervosa, há-de ser isso, e baralharam-se-lhe as palavras e as imagens na mente. Eu é que não podia deixar passar em claro o «pirete», pois é a segunda vez — lembram-se? — que deparo com a palavra.
[Texto 1093]

Dama de Ferro

Sabe-se lá

      «A propósito do lançamento do filme em que Meryl Streep vive a vida da primeira-ministra, um pequeno debate sobre a Dama de Ferro (nome que, ficamos a saber, foi dado por um general russo num artigo do “Pravda”)», lê-se na rubrica «Janela Indiscreta», da autoria de José Couto Nogueira, na edição de hoje do i (p. 43).
      Até que enfim que vejo isto bem escrito. É verdade que por alguém a quem ouvi, há mais de cinco anos, que não há variante brasileira da língua portuguesa, mas língua brasileira. Eu deixei-me rir, mas há-de ser porque nunca fui ao Brasil.
[Texto 1092]

Acordo Ortográfico na PJ

E radiotelegramas, ainda há?

      Eu até pensava que já não se mandavam telegramas. Mas não: ontem recebi um da Polícia Judiciária, a notificar-me para prestar declarações como testemunha. E agora é muito mais fácil, pois também se podem enviar pela internet. Será que os manuais escolares ainda afirmam que «podemos utilizar duas formas para expedir um telegrama»? Já são três, pelo menos. Ah, e o telegrama estava assinado pelo «inspetor ***». Não tardará e vamos ter muitos falantes — quem sabe os próprios «inspetores» — a fecharem o e.

[Texto 1091]

Acordo Ortográfico em Angola

Uma lição africana

      «O principal jornal diário angolano, Jornal de Angola, detido pelo Estado, publicou um editorial dedicado ao Acordo Ortográfico, ao qual tece duras críticas, defendendo que “há coisas na vida que não podem ser submetidas aos negócios, por mais respeitáveis que sejam”» (Público, 10.02.2012, p. 21). Gostava de ler, mas não encontro o texto.
[Texto 1090]

Caracteres especiais

E muito bem

      «No campo, perto de Budapeste, a equipa de Susanne Åkesson, da Universidade de Lund, na Suécia, criou quatro modelos de cavalos, cada um pintado de castanho, preto, branco e com riscas pretas e brancas. “Pusemos uma cola especial nos modelos e depois contámos o número de moscas atraídas por cada um”, disse Åkesson à BBC» («Zebras têm riscas pretas e brancas para se protegerem de picadelas de insectos», Público, 10.02.2012, p. 21).
      Como sempre defendi, tenho mesmo textos no Assim Mesmo sobre o assunto, eis que os jornais começaram a usar de forma sistemática os caracteres especiais de certas línguas, como é o caso do å.

[Texto 1089]

Espécies botânicas e zoológicas

Qual planta?

      «O escaravelho da palmeira está a ameaçar as três centenas de exemplares desta planta existentes no Jardim Botânico da Universidade de Lisboa, que não tem dinheiro para proteger todas as plantas em risco» («Escaravelho ameaça três centenas de palmeiras no Jardim Botânico», Ana Henriques, Público, 10.02.2012, p. 23).
      Quando lhes dá jeito — se é que têm consciência de tal —, seguem a regra do novo acordo ortográfico que manda usar hífenes nos nomes de espécies botânicas e zoológicas. Claro, agora não dava mesmo jeito: «O escaravelho-da-palmeira está a ameaçar as três centenas de exemplares desta planta, etc.»

[Texto 1088]

«Necessidades biológicas»

Isto está a mudar

      «Uma mulher de 77 anos viveu durante quase um ano fechada numa garagem de uma habitação em S. Cosme, Gondomar. Era a própria filha que a mantinha retida no espaço, onde dispunha apenas de um sofá velho onde dormia e de uma lata que usava para as suas necessidades biológicas» («Fechou mãe na garagem durante um ano», Pedro Sales Dias, Público, 10.02.2012, p. 23).
      Não está errado, não, senhor, mas dantes só se ouvia e lia necessidades fisiológicas.
[Texto 1087]

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